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Brasil Decolaram
com milhões O TCU e o Ministério
Público apontam um superfaturamento jumbo nas obras do Aeroporto
de Congonhas, em São Paulo  Júlia
Duailibi Claudio
Rossi
 | | Nova
área de embarque em Congonhas, inaugurada por Lula: a Infraero pagou 2 milhões
de reais por pontes de embarque que custam 630 000 reais |  |
Ao inaugurar, em dezembro do ano passado, parte das obras de ampliação
e modernização do Aeroporto de Congonhas, na cidade de São
Paulo, o presidente Lula elogiou o então presidente da Infraero, Carlos
Wilson, pela "dedicação" e pela "contribuição extraordinária
que fez ao Brasil". Dez meses depois, o Ministério Público Federal
e o Tribunal de Contas da União começam a desvendar o lado obscuro
de uma contribuição extraordinária de Wilson. Superfaturadas,
as obras podem ter causado ao Erário uma perda superior a 100 milhões
de reais. Com base em ampla pesquisa de mercado realizada pelo TCU, o Ministério
Público constatou preços de 31% a 252% acima dos de mercado num
conjunto de 29 produtos e serviços. O caso mais escandaloso é o
da compra das chamadas pontes de embarque (ou fingers, em inglês),
que dão ao passageiro acesso ao avião. A Infraero pagou ao consórcio
vencedor a bagatela de 2,2 milhões de reais por unidade. Com base em outras
compras idênticas feitas pelo poder público, o TCU constatou que
cada finger não custaria mais do que 630.000 reais. Também houve
superfaturamento de 226% nos serviços de fundação da obra.
Cobraram-se, por exemplo, 354,15 reais por estacas que não deveriam custar
mais de 108,60 reais. O Ministério
Público Federal também acusa a Infraero de ter direcionado a licitação
para o consórcio formado pelas empreiteiras OAS/Camargo Corrêa/Galvão.
Na avaliação dos procuradores, a licitação de Congonhas
deveria ter sido fracionada em várias concorrências menores, garantindo,
assim, maior disputa e melhor preço. Ao exigir que um mesmo participante
executasse desde as obras de pavimentação até as reformas
do terminal de passageiros, a Infraero colocou todo o projeto nas mãos
das grandes empreiteiras que, por sua vez, acabaram subcontratando, em
alguns casos irregularmente, empresas menores. A investigação destaca
ainda que, um ano após a celebração do contrato entre a Infraero
e as vencedoras da licitação, foi realizado um aditamento suspeito,
que elevou em 15 milhões o valor do contrato. Calcula-se que as obras em
Congonhas, uma vez concluídas, custarão 180 milhões de reais.
Pelas contas do Ministério Público, no entanto, elas poderiam chegar
a 75 milhões de reais. Ricardo
Stuckert/PR
 | | Agradecimento:
Lula e Wilson em cerimônia de entrega de parte das obras |
"São de extrema gravidade os dados ora levantados,
que demonstram cabalmente um total desprezo pelo patrimônio público",
afirma o Ministério Público numa ação cautelar ajuizada
na semana passada, em que pede a indisponibilidade dos bens e a quebra dos sigilos
fiscal e bancário do ex-presidente da Infraero, Carlos Wilson, e de outros
quatro diretores e ex-diretores da empresa estatal. Ex-senador pelo PTB de Pernambuco,
Wilson ocupou a presidência da Infraero do começo do governo Lula
até março deste ano. Deixou o cargo para disputar uma cadeira de
deputado federal pelo PT. Antes, coordenou um dos principais programas de investimento
em infra-estrutura do governo Lula, com a criação, ampliação
e reforma dos mais importantes aeroportos brasileiros. Questionado sobre as acusações,
Wilson disse desconhecê-las e afirmou que sua gestão na Infraero
foi amplamente "fiscalizada e transparente". Os procuradores investigam irregularidades
nas obras de Congonhas desde 2004. O aeroporto tem o maior movimento do país,
com 45.000 passageiros diários. As obras de remodelação devem
ficar prontas no começo de 2007. Ao todo, Wilson comandou a reforma de
66 aeroportos. Além de Congonhas, o Ministério Público Federal
investiga irregularidades na execução das obras dos aeroportos de
Vitória, Recife e Goiânia. Se o mesmo padrão de superfaturamento
de Congonhas tiver ocorrido nas outras reformas, o Ministério Público
acredita estar diante de um dos maiores desvios de recursos públicos deste
governo. |