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Entrevista:
James Lovelock A
vingança de Gaia O cientista
inglês que considera a Terra um organismo vivo diz que só a energia
nuclear pode adiar o desastre  Diogo
Schelp
Divulgação
 | "O
aquecimento global já passou do ponto sem volta. A situação
se tornará insuportável lá por 2040" | |
O inglês James Lovelock é
um cientista com contribuições a áreas tão distintas
do conhecimento que é difícil classificá-lo em uma única
especialidade. É também um dos mais controvertidos. Sucesso entre
os ambientalistas, sua criação mais conhecida, a Hipótese
Gaia, é criticada pelos cientistas. Segundo essa teoria, que Lovelock desenvolveu
quando trabalhava para a Nasa, nos anos 60, a Terra é um organismo dotado
da capacidade de se manter saudável e tem compromisso com todas as formas
de vida e não necessariamente com apenas uma delas, o homem. Lovelock
é o inventor do aparelho que permitiu detectar o acúmulo do pesticida
DDT nos seres vivos, razão pela qual se interrompeu o uso da substância.
O aparelho também ajudou a identificar o CFC, gás utilizado em aerossóis,
como o responsável pela destruição da camada de ozônio,
o que levou a sua proibição. Lovelock acredita que o equilíbrio
natural foi rompido pelo aquecimento global, tese desenvolvida no livro A Vingança
de Gaia, publicado neste ano em seu país. O cientista concedeu esta
entrevista a VEJA de sua casa em Devon, na Inglaterra, onde, aos 87 anos, faz
pesquisas em um laboratório particular.
Veja Quando o aquecimento global chegará
a um ponto sem volta? Lovelock Já passamos desse
ponto há muito tempo. Os efeitos visíveis da mudança climática,
no entanto, só agora estão aparecendo para a maioria das pessoas.
Pelas minhas estimativas, a situação se tornará insuportável
antes mesmo da metade do século, lá pelo ano 2040.
Veja O que o faz pensar que já não
há mais volta? Lovelock Por modelos matemáticos,
descobre-se que o clima está a ponto de fazer um salto abrupto para um
novo estágio de aquecimento. Mudanças geológicas normalmente
levam milhares de anos para acontecer. As transformações atuais
estão ocorrendo em intervalos de poucos anos. É um erro acreditar
que podemos evitar o fenômeno apenas reduzindo a queima de combustíveis
fósseis. O maior vilão do aquecimento é o uso de uma grande
porção do planeta para produzir comida. As áreas de cultivo
e de criação de gado ocupam o lugar da cobertura florestal que antes
tinha a tarefa de regular o clima, mantendo a Terra em uma temperatura confortável.
Essa substituição serviu para alimentar o crescimento populacional.
Se houvesse 1 bilhão de pessoas no mundo, e não 6 bilhões,
como temos hoje, a situação seria outra. Agora não há
mais volta. Veja
Um estudo recente concluiu que a temperatura média da Terra vai
aumentar 2 graus até o fim do século. O senhor concorda? Lovelock
Os cientistas que fazem essas previsões baixas estudam a atmosfera
como se ela fosse algo inerte. É um cálculo estanque, baseado na
crença de que o aquecimento é diretamente proporcional à
quantidade de gás carbônico jogada na atmosfera. A realidade é
bem mais complexa. Todos os seres vivos do planeta reagem às mudanças
que provocamos e as amplificam. Há previsões mais confiáveis
de um aumento de até 6 graus até o fim do século. Essa vai
ser a média global. Em algumas regiões, o aumento de temperatura
será ainda maior. Veja
O senhor vê o aquecimento global como a comprovação
de que sua teoria está certa? Lovelock O aquecimento
global pode ser analisado com base na Hipótese Gaia, e, por isso, muitos
cientistas agora estão se vendo obrigados a aceitar minha teoria. Ela diz
que todos os organismos, agindo em conjunto, formam um sistema ativo cujo objetivo
é manter a Terra habitável. Nos oceanos, algumas algas utilizam
o carbono do ar no seu crescimento e liberam outros gases que formam nuvens sobre
a atmosfera. As nuvens ajudam a defletir os raios solares. Sem elas, a Terra seria
um lugar muito mais quente e seco. Essas algas estão morrendo com o aumento
da temperatura dos oceanos. Esse é apenas um exemplo de como a capacidade
auto-reguladora do sistema Gaia está sendo rompida.
Veja O aquecimento global vai levar a uma
nova fase da seleção natural da espécie humana? Lovelock
Sim. Pela Hipótese Gaia, qualquer organismo que afeta o ambiente
de maneira negativa acabará por ser eliminado. Como o aquecimento global
foi provocado pelo homem, está claro que corremos o risco de ser extintos.
Até o fim do século, é provável que cerca de 80% da
população humana desapareça. Os 20% restantes vão
viver no Ártico e em alguns poucos oásis em outros continentes,
onde as temperaturas forem mais baixas e houver um pouco de chuva. Na América
Latina, por exemplo, esses refúgios vão se concentrar na Cordilheira
dos Andes e em outros lugares altos. O Canadá, a Sibéria, o Japão,
a Noruega e a Suécia provavelmente continuarão habitáveis.
A maioria das regiões tropicais, incluindo praticamente todo o território
brasileiro, será demasiadamente quente e seca para ser habitada. O mesmo
ocorrerá na maior parte dos Estados Unidos, da China, da Austrália
e da Europa. Não será um mundo agradável. As condições
de sobrevivência no futuro serão muito difíceis. Essa é
a vingança de Gaia, uma expressão que uso apenas como metáfora,
não como argumento científico. Veja
O que vai acontecer com quem permanecer nesses lugares? Lovelock
A maioria vai morrer de fome. Não é só uma questão
de aumento de temperatura. Com a mudança climática, será
impossível cultivar alimentos ou criar animais de abate, porque simplesmente
não haverá chuva ou água para a irrigação.
O Rio Ganges, na Índia, por exemplo, está tendo seu volume reduzido
e logo irá desaparecer. Quem conseguir migrar para os poucos oásis
que sobrarem ou para as regiões mais frias ao norte do globo viverá
em condições semelhantes às de muitos africanos hoje: haverá
escassez de comida e pouca água. As guerras do futuro serão uma
conseqüência do aquecimento global. Quando a China se tornar inabitável,
seus moradores não vão simplesmente sentar e esperar a morte. Eles
vão migrar para a Rússia. Há espaço para essas pessoas
na Sibéria, mas duvido que essa migração aconteça
pacificamente. Veja
Será possível se recuperar dessa situação?
Lovelock A Terra vai se recuperar. Há 55 milhões
de anos ocorreu um evento muito parecido com o que está acontecendo agora.
Naquele tempo, houve uma emissão acidental de uma quantidade de dióxido
de carbono equivalente à que está sendo produzida hoje pela ação
humana. A temperatura da Terra elevou-se em 8 graus nas regiões temperadas
e em 5 graus nos trópicos. Os seres vivos migraram para as regiões
polares e ficaram centenas de milhares de anos por lá. Quando a temperatura
global voltou a cair, eles migraram de volta. O sistema Gaia, portanto, não
está ameaçado, mas vai levar 200 000 anos para voltar a ser como
é. Para nós, humanos, isso é muito tempo.
Veja Muitos cientistas estão preocupados
com a diminuição da biodiversidade. O senhor também está?
Lovelock Não. A perda de biodiversidade é apenas
um sintoma das mudanças climáticas. Os biólogos se preocupam
com isso porque eles adoram colecionar espécies. Na verdade, os ecossistemas
mais saudáveis são aqueles com pouca biodiversidade. Muito mais
grave é o risco de quase extinção enfrentado pela humanidade.
Veja Não
há nada que se possa fazer? Lovelock A única
opção é substituir as fontes de energia mais comuns por usinas
nucleares, mais limpas do que hidrelétricas ou termoelétricas. O
gás carbônico vai nos matar se não fizermos nada a respeito.
As pessoas têm medo do lixo atômico, mas isso é um mito. A
quantidade de resíduos produzida pelas usinas nucleares é irrisória
e não causa grandes problemas ambientais. A energia nuclear, no entanto,
não é uma solução, e sim uma medida para ganharmos
tempo. A roda do aquecimento global já está em movimento, e não
há como freá-la. Veja
É mais fácil se livrar de lixo atômico do que
de gás carbônico? Lovelock Infinitamente mais.
Cem gramas de urânio equivalem a 200 toneladas de carvão, em termos
de energia gerada. Com 100 gramas de urânio não se produzem mais
do que 100 gramas de lixo atômico, enquanto a poluição emitida
pela queima de 200 toneladas de carvão é de 600 toneladas de dióxido
de carbono. Entre 100 gramas e 600 toneladas de resíduos, é óbvio
que o carbono é um problema maior. Veja
E quanto aos riscos de acidentes nucleares, como o da usina de
Chernobyl, em 1986? Lovelock Chernobyl é uma grande
mentira. A ONU enviou três equipes de cientistas a Chernobyl para ver quantas
pessoas realmente morreram em conseqüência do acidente. A resposta
é 56 mortos, no máximo. Foi o tipo de acidente nuclear que apenas
podia acontecer naqueles velhos tempos da União Soviética, em que
as usinas eram administradas de maneira irresponsável. As estatísticas
das usinas nucleares ao redor do mundo são impressionantes. Elas produzem
energia com uma segurança maior do que qualquer outra indústria
energética. O perigo de acidentes não é nada comparado aos
efeitos do aquecimento global. As pessoas estão perdendo o contato com
o mundo natural e por isso há saudosismo, um desejo inconsciente de volta
à natureza. A ciência e a tecnologia passaram a ser rejeitadas e
classificadas como ruins para o ambiente. É o que acontece com as plantas
geneticamente modificadas e com a energia atômica. Vivemos em uma sociedade
hipocondríaca. Veja
No Brasil, a maioria dos carros novos funciona com álcool
combustível. O biocombustível é uma boa forma de reduzir
a emissão de gases do efeito estufa? Lovelock Essa
provavelmente é das coisas menos sábias a fazer. Para produzir a
cana-de-açúcar para o biocombustível, é preciso ocupar
o espaço dedicado à produção de alimentos ou derrubar
florestas, que ajudam a regular o clima. Isso é contraprodutivo. É
mais inteligente usar a energia nuclear para produzir hidrogênio como combustível
para os carros. Alguns anos atrás, muitos cientistas achavam que o biocombustível
era o caminho certo a seguir. Agora que sabemos quão sério é
o problema do aquecimento global, percebemos que essa não é a melhor
solução. Nós, cientistas, devemos pedir desculpas ao povo
brasileiro. Veja
Qual sua opinião sobre o conceito de desenvolvimento sustentado,
pelo qual se explora o ambiente sem lhe provocar danos? Lovelock
Acho uma idéia adorável. Se a tivéssemos aplicado 200
anos atrás, quando havia apenas 1 bilhão de pessoas no mundo, talvez
não estivéssemos na situação em que estamos hoje.
Agora é tarde demais. Não há mais espaço para nenhum
tipo de desenvolvimento. A humanidade tem de regredir. Em algumas décadas,
quem conseguir se mudar para regiões melhores, com temperaturas mais amenas,
terá uma chance de sobreviver. Veja
Qual sua opinião sobre a proposta de colocar um escudo solar
em órbita, para devolver ao espaço os raios de sol? Lovelock
Não é uma má idéia. Esse escudo ficaria
entre o Sol e a Terra e poderia desviar 3% dos raios solares e, dessa forma, reduzir
o calor na atmosfera. Trata-se de uma medida relativamente rápida de ser
implementada e custaria menos que a Estação Espacial Internacional.
O escudo solar poderia nos dar um pouco mais de tempo, mas não seria a
cura para o problema do aquecimento global. Veja
A destruição da Amazônia é a maior vilã
do aquecimento global? Lovelock Não. O sudeste da
Ásia está sofrendo uma destruição comparável
à da Amazônia. A Indonésia tem provocado tanto dano às
florestas quanto o Brasil. Uma medição feita no passado mostrou
que as queimadas indonésias liberaram 40% de todo o gás carbônico
produzido no mundo em um ano. Os brasileiros não devem se sentir os únicos
culpados pelo desastre que estamos prestes a vivenciar. Temos todos uma parcela
igual de culpa. Veja
Por que a ciência levou tanto tempo para perceber a gravidade da
mudança climática? Lovelock A comunidade
científica estava muito engajada em um outro problema: a destruição
da camada de ozônio. Era uma questão fácil de resolver, porque
os produtos industriais que estavam provocando o buraco na camada podiam ser substituídos
por outros, inofensivos. Só em 2001, em uma convenção em
Amsterdã, na Holanda, os pesquisadores concordaram que o aquecimento é
um fenômeno global. Naquele ano, eles finalmente aceitaram a tese de que
a Terra é um sistema que se auto-regula, indiretamente concordando com
a minha Hipótese Gaia. Veja
Alguns cientistas dizem que suas opiniões são apocalípticas
e por isso não podem ser levadas a sério. O que o senhor diz a eles?
Lovelock Não há nenhum dado no meu livro diferente
daqueles contidos no relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas, da ONU. A diferença é que eu apresentei os fatos
de uma forma compreensível para os leigos. Os cientistas estudam o aquecimento
global de maneira fragmentada e acabam tendo dificuldade de desenvolver uma visão
geral do fenômeno. |