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Edição 1979 . 25 de outubro de 2006

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Auto-retrato
Jimmy Carter

The New York Times


Presidente dos Estados Unidos de 1977 a 1981, Jimmy Carter fez dos direitos humanos uma das diretrizes de seu governo. Continuou se dedicando à causa nas décadas seguintes, o que lhe valeu o Nobel da Paz de 2002. No livro Nossos Valores em Risco (editora Manole), ele fala de sua fé cristã e critica o fundamentalismo do governo Bush. Carter, de 82 anos, conversou por telefone com o repórter Jerônimo Teixeira

COMO VAI A DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS NO MUNDO ATUAL?
Houve um grande retrocesso nessa causa. A razão principal é que o governo dos Estados Unidos violou padrões já consagrados de direitos humanos nas prisões de Abu Ghraib, no Iraque, e Guantánamo, em Cuba. No nosso próprio país, há uma intrusão sem precedentes nas liberdades civis, com espionagem sobre cidadãos americanos e escutas telefônicas. É um exemplo para as nações que desejam reprimir a liberdade de expressão e prender defensores dos direitos humanos.  

OS ESTADOS UNIDOS PERDERAM A ESTATURA MORAL PARA PREGAR DIREITOS HUMANOS?
Perdemos. No passado, tentamos erguer essa bandeira no mundo todo. Éramos vistos como grandes defensores da causa. Essa reputação foi seriamente danificada.  

O PRESIDENTE GEORGE W. BUSH – QUE, COMO O SENHOR, SE DECLARA CRISTÃO – ESTÁ EM CONTRADIÇÃO COM A PRÓPRIA FÉ EM QUESTÕES COMO A GUERRA OU OS DIREITOS HUMANOS?
Sim, há uma contradição, mas eu não gostaria de comentar as convicções religiosas do presidente Bush.  

POR QUE NÃO?
Não é correto especular sobre o que vai no coração e na mente de outras pessoas, ou contestar o compromisso que elas têm com seus valores religiosos. Minha interpretação do cristianismo é diferente de outras. O Jesus Cristo a quem dirijo minhas orações é o Príncipe da Paz. Eu acredito que um compromisso fundamental do cristianismo é a promoção da paz, e não da guerra preventiva, por exemplo. Mas há outras pessoas igualmente devotas que têm uma concepção diferente.

A SEPARAÇÃO ENTRE RELIGIÃO E ESTADO ESTARIA COMPROMETIDA NO ATUAL GOVERNO AMERICANO?
Em certa medida, sim. Os elementos mais conservadores do atual governo trouxeram a religião para assuntos de Estado de forma aberta e agressiva. Isso foi proibido pelos fundadores da nação americana, inclusive por Thomas Jefferson, e também está em conflito com a Bíblia. Jesus pede que se dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.  

A DEMOCRACIA TEM CHANCES EM PAÍSES MUÇULMANOS QUE NÃO ACREDITAM NA SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO?
Há diferentes aplicações do Corão. Por exemplo, eu já monitorei eleições na Indonésia, o maior país muçulmano no mundo. Eles têm um governo secular aceitável. A religião não determina a competência com que uma nação organiza sua democracia. No Oriente Médio há países que são mais estritos ao seguir a lei do Corão. A Árabia Saudita é uma sociedade fechada, com controle completo pelo Islã. Mas a Jordânia e o Egito são sociedades relativamente abertas. A Turquia e o Paquistão são outros exemplos de democracia. Há uma variedade grande de países democráticos no mundo islâmico.  

O QUE OS ESTADOS UNIDOS PODEM FAZER PARA CONSOLIDAR A DEMOCRACIA NO IRAQUE E SE RETIRAR DAQUELE PAÍS?
Não creio que os Estados Unidos ou qualquer outra potência possam impor a democracia sobre outro povo pelo poder das armas. Sou um opositor vigoroso da guerra preventiva, um princípio contrário à política de todos os governos americanos anteriores, democratas ou republicanos. O número de mortos está crescendo no Iraque, e o curso de ação a partir de agora é um problema difícil. Minha preferência pessoal seria que o governo iraquiano pedisse a retirada das tropas americanas, em um calendário definido, ao longo de um ano ou dezoito meses. Depois, teríamos uma conferência internacional para discutir o futuro do Iraque e para anunciar ao povo iraquiano medidas efetivas de reconstrução do país.

 
 
 
 
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