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Auto-retrato Jimmy
Carter
The
New York Times
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Presidente
dos Estados Unidos de 1977 a 1981, Jimmy Carter fez dos direitos humanos uma das
diretrizes de seu governo. Continuou se dedicando à causa nas décadas
seguintes, o que lhe valeu o Nobel da Paz de 2002. No livro Nossos Valores
em Risco (editora Manole), ele fala de sua fé cristã e critica
o fundamentalismo do governo Bush. Carter, de 82 anos, conversou por telefone
com o repórter Jerônimo Teixeira
COMO
VAI A DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS NO MUNDO ATUAL? Houve um grande retrocesso
nessa causa. A razão principal é que o governo dos Estados Unidos
violou padrões já consagrados de direitos humanos nas prisões
de Abu Ghraib, no Iraque, e Guantánamo, em Cuba. No nosso próprio
país, há uma intrusão sem precedentes nas liberdades civis,
com espionagem sobre cidadãos americanos e escutas telefônicas. É
um exemplo para as nações que desejam reprimir a liberdade de expressão
e prender defensores dos direitos humanos. OS
ESTADOS UNIDOS PERDERAM A ESTATURA MORAL PARA PREGAR DIREITOS HUMANOS?
Perdemos. No passado, tentamos erguer essa bandeira no mundo todo. Éramos
vistos como grandes defensores da causa. Essa reputação foi seriamente
danificada. O PRESIDENTE GEORGE W. BUSH
QUE, COMO O SENHOR, SE DECLARA CRISTÃO ESTÁ EM CONTRADIÇÃO
COM A PRÓPRIA FÉ EM QUESTÕES COMO A GUERRA OU OS DIREITOS
HUMANOS? Sim, há uma contradição, mas eu não
gostaria de comentar as convicções religiosas do presidente Bush.
POR QUE NÃO? Não
é correto especular sobre o que vai no coração e na mente
de outras pessoas, ou contestar o compromisso que elas têm com seus valores
religiosos. Minha interpretação do cristianismo é diferente
de outras. O Jesus Cristo a quem dirijo minhas orações é
o Príncipe da Paz. Eu acredito que um compromisso fundamental do cristianismo
é a promoção da paz, e não da guerra preventiva, por
exemplo. Mas há outras pessoas igualmente devotas que têm uma concepção
diferente. A SEPARAÇÃO ENTRE RELIGIÃO
E ESTADO ESTARIA COMPROMETIDA NO ATUAL GOVERNO AMERICANO? Em certa medida,
sim. Os elementos mais conservadores do atual governo trouxeram a religião
para assuntos de Estado de forma aberta e agressiva. Isso foi proibido pelos fundadores
da nação americana, inclusive por Thomas Jefferson, e também
está em conflito com a Bíblia. Jesus pede que se dê
a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
A DEMOCRACIA TEM CHANCES EM PAÍSES
MUÇULMANOS QUE NÃO ACREDITAM NA SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA
E ESTADO? Há diferentes aplicações do Corão.
Por exemplo, eu já monitorei eleições na Indonésia,
o maior país muçulmano no mundo. Eles têm um governo secular
aceitável. A religião não determina a competência com
que uma nação organiza sua democracia. No Oriente Médio há
países que são mais estritos ao seguir a lei do Corão.
A Árabia Saudita é uma sociedade fechada, com controle completo
pelo Islã. Mas a Jordânia e o Egito são sociedades relativamente
abertas. A Turquia e o Paquistão são outros exemplos de democracia.
Há uma variedade grande de países democráticos no mundo islâmico.
O QUE OS ESTADOS UNIDOS PODEM FAZER PARA
CONSOLIDAR A DEMOCRACIA NO IRAQUE E SE RETIRAR DAQUELE PAÍS? Não
creio que os Estados Unidos ou qualquer outra potência possam impor a democracia
sobre outro povo pelo poder das armas. Sou um opositor vigoroso da guerra preventiva,
um princípio contrário à política de todos os governos
americanos anteriores, democratas ou republicanos. O número de mortos está
crescendo no Iraque, e o curso de ação a partir de agora é
um problema difícil. Minha preferência pessoal seria que o governo
iraquiano pedisse a retirada das tropas americanas, em um calendário definido,
ao longo de um ano ou dezoito meses. Depois, teríamos uma conferência
internacional para discutir o futuro do Iraque e para anunciar ao povo iraquiano
medidas efetivas de reconstrução do país. |