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CINEMA
Touchstone Pictures
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| Alta
Fidelidade: saboroso
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Alta Fidelidade (High Fidelity,
Estados Unidos, 2000. Estréia nesta sexta-feira em São
Paulo e no Rio de Janeiro) Dos dois lados do Atlântico,
não há homem na faixa dos 30 anos que não
se identifique, ao menos em parte, com Rob Gordon, um fanático
por música pop que não consegue dar um basta à
sua adolescência. Sua loja de discos está à
beira da falência, a namorada o largou porque ele é
incapaz de fazer planos para o futuro e, ainda assim, Rob se recusa
a engatar a primeira e seguir adiante na vida. Na tentativa de
entender como chegou a esse ponto, ele sai revisitando amores
passados. O livro homônimo do inglês Nick Hornby já
era delicioso. Transposto de Londres para Chicago com roteiro
do astro John Cusack e direção de Stephen Frears,
não perdeu nada do sabor e ainda ganhou a presença
da ótima Iben Hjejle, a dinamarquesa que interpretava uma
prostituta em Mifune.
LIVROS
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| Kafka:
pesadelo burocrático
em
minúcias |
O
Castelo, de Franz Kafka (tradução
de Modesto Carone; Companhia das Letras; 480 páginas; 35
reais) Neste romance, Kafka construiu um dos monumentos
da literatura ocidental, no qual disseca em minúcias a
marca registrada de sua obra: o pesadelo burocrático, que
se desenha na forma de esferas infinitas e impessoais de poder.
No centro do enredo, K., um homem que busca, sem jamais conseguir,
ter acesso aos habitantes de um imponente castelo. Embora já
houvesse uma edição brasileira, o livro pode ser
considerado um lançamento por dois motivos. A péssima
edição anterior, da Ediouro, está esgotada.
E agora a obra foi retraduzida, direto do alemão, pelo
grande especialista em Kafka no Brasil, Modesto Carone, que dedicou
quinze anos à tarefa.
O
Sul, de Colm Tóibín
(tradução de Ana Luiza Borges; Record; 208 páginas;
26 reais) Personagens que lutam contra um cotidiano monótono
e fogem para recomeçar a vida são um lugar-comum
da ficção. Mas a maneira como o jornalista e escritor
Colm Tóibín, um dos principais representantes da
jovem literatura irlandesa, aborda o assunto em O
Sul prova que ele ainda pode ser
rico quando posto em boas mãos. Este seu primeiro romance
conta a história de Katherine, uma irlandesa que, na década
de 50, abandona marido e filho para se tornar pintora em Barcelona.
Trata-se de uma reflexão envolvente e livre de qualquer
sentimentalismo sobre a identidade e o exílio. O
autor reforça o tema central ao escolher como pano de fundo
dois países em tumulto: a Irlanda dividida entre protestantes
e católicos e uma Espanha ainda marcada pelas cicatrizes
da Guerra Civil. Tóibín acrescenta mais uma distinção
à sua estréia: consegue narrar a história
sob o ponto de vista de uma mulher sem soar falso.
DVD
Conta
Comigo (Stand by Me,
Estados Unidos, 1986. Columbia) Baseado numa noveleta semi-autobiográfica
de Stephen King, Conta Comigo
é o último clássico juvenil digno desse nome
que Hollywood produziu. A história, sobre quatro garotos
que deixam a infância para trás ao se aventurarem
no mato para ver um cadáver, já mereceria uma boa
nota. Mas o diretor Rob Reiner acerta no tom do início
ao fim e faz ainda milagres com os seus protagonistas (entre eles
River Phoenix, morto há sete anos), que tinham entre 11
e 14 anos à época das filmagens. Por causa desses
acertos é que o filme, imaginado como um retrato nostálgico
da América da década de 50, acabou fazendo sucesso
em todo o mundo. Preste atenção até os créditos
finais, embalados pela canção-título, Stand
by Me, na gravação
original de Ben E. King.
DISCO
Slave
to Love: the Best of the Ballads,
Bryan Ferry (Virgin Records) Um dos cantores mais elegantes
a surgir no cenário pop internacional dos últimos
trinta anos, Bryan Ferry pode ser considerado uma espécie
de reedição moderna de crooners como Nat King Cole
e Bing Crosby. Tem ainda duas qualidades incomuns: sabe compor
baladas chiques e recriar pérolas dos anos 30 aos 50. Essas
duas especialidades marcam presença em Slave
to Love. O cantor dá um
tom especial a músicas do quilate de Smoke
Gets in Your Eyes (aquela eternizada
pelos Platters) e arrasa em composições de sua própria
autoria, como Avalon
e a ótima faixa-título.
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LITERATURA
BRASILEIRA
Elefante
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Francisco
Alvim
Companhia
das letras
147
páginas;
21 reais
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O
escritor americano Ezra Pound costumava dizer que existem
três categorias básicas de poema. Primeiro,
aquele que explora ao máximo as qualidades musicais
de uma língua. Depois, aquele que lança uma
imagem, ou pinta um quadro, na imaginação
do leitor. Finalmente, há poemas que brincam com
nossos hábitos lingüísticos, com o contexto
em que as palavras normalmente são usadas. Pound
afirmava que nessa última modalidade "o intelecto
dança entre as palavras". Apenas os autores mais
sofisticados seriam capazes disso. Entre os brasileiros,
o mineiro Francisco Alvim é um autor desse tipo.
Na ativa desde os anos 60, ele está lançando
o seu oitavo livro, Elefante,
que mantém a admirável consistência
e a qualidade de seus trabalhos anteriores.
Quem
acredita que a poesia só existe com métrica,
rima e pompa pode sentir-se ultrajado com um sujeito que
escreve textos que contam apenas com o título e um
verso: "Futebol
tem bola em que ele
não vai". Onde, diabos, está a "sofisticação"?
Pois bem. Para apreciar Francisco Alvim deve-se levar em
conta, antes de mais nada, seu profundo envolvimento com
a tradição modernista o seu diálogo,
sobretudo, com Oswald de Andrade, Carlos Drummond e Manuel
Bandeira. A técnica de miniaturização
do poema acima, por exemplo, ele herdou de Oswald, o inventor
do "poema-minuto". Mas a lição mais importante
aprendida dos modernos foi o uso do coloquialismo. O elemento-chave
dos poemas de Francisco Alvim é a fala, a fala do
brasileiro. Seu intelecto não apenas "dança
entre palavras". Ele dança entre fragmentos de conversa,
que utiliza de maneira irônica, ou crítica,
para abordar as mazelas históricas e sociais do país.
Essa é a característica mais marcante de sua
obra, ainda que ele, versátil, também saiba
construir belas imagens e percorrer com sucesso o território
da lírica e da reflexão "existencial".
Nos
livros que publicou nas décadas de 70 e 80, Francisco
Alvim capturou a atmosfera pesada dos "anos de chumbo".
O militar, o político, o funcionário público,
o pobre todos faziam coral nos seus versos. Essas
figuras retornam em Elefante.
Mas o Brasil que emerge das "conversas poetizadas" do novo
livro é menos tenso do que hesitante. São
muitos os poemas que tratam de incertezas e vacilos (como
Futebol),
ou então deixam as coisas no ar. Mais dois exemplos
curtinhos: "Negócio
Depois a gente acerta".
"Descartável
Vontade de me jogar fora". Neles se vê que Alvim continua
espertíssimo. E um excelente escritor.
Carlos
Graieb
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