Claudio
de Moura Castro
Origens
da riqueza americana
"A
criatividade de uma nação está ligada à
capacidade
de pensar e teorizar o que requer uma boa educação
e, daí, partir para o inventar e, depois, ir até
as últimas
conseqüências no fazer"
Ilustração Ale Setti
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Descemos o pedregal que leva ao Escalante Canyon, no Estado de
Utah, Estados Unidos, junto com os cavalos que levavam nossas
mochilas para o fundo do esplêndido desfiladeiro. À
frente ia Grant, o dono da empresa de turismo-aventura, seguido
de Berkeley, magro, alto, barba de duas semanas, bem para lá
dos 60 um Sancho Pança com cara de Dom Quixote.
Além da função de tropeiro, no acampamento
ele fazia de tudo: trazia água, limpava a mesa e lavava
os pratos. Falava com sotaque de caubói e massacrava a
gramática, mas era sempre divertido e bem-humorado. Gostava
desse trabalho ocasional de guia cavalariço. Trabalhava
também como carpinteiro na construção civil.
Mas, lá pelo segundo dia, de sua barraca vinha o som de
uma flauta doce. Visitando ruínas dos índios anasazis,
discorreu longamente sobre sua possível convivência
com a tribo dos freemonts, o que deduzia da temática inconsistente
dos petróglifos.
Na conversa, deixava escapar pensamentos que não eram de
caubói. A fala saltava de quando em vez para um registro
culto. Perplexo, sondei suas origens e desfez-se o mistério.
Vinha guiando seu Porsche quando bateu em uma pedra. O incidente
foi a gota d'água em sua carreira. Por pirraça,
trabalhou no dia seguinte de jeans, sendo repreendido pelo presidente
da empresa. Era o que faltava para demitir-se da posição
de gerente de projetos do setor aeroespacial, interrompendo uma
bem-sucedida carreira de engenheiro mecânico na área
militar. Havia trabalhado no centro de armamentos da Marinha,
na Boeing e na Lockheed, sempre em projetos de ponta, como o Sky
Lab. Passou a uma cervejaria, mas saiu quando lhe sugeriram que
cortasse o cabelo mais curto.
Comprou terra em um fim de mundo. Ali vive com seus cavalos e
cachorros, trazendo água de 10 quilômetros de distância.
Nos 3 quilômetros que separam a casa da estrada, nem sempre
passa carro.
Como estudante, já havia feito biscates construindo lareiras.
Voltou a essa tarefa. Daí passou a estudar técnicas
de construção e conservação do adobe,
a experimentar com projetos de casas hexagonais e sistemas passivos
de controle térmico. Constrói casas por encomenda.
Sozinho desenha as plantas, lança as fundações,
alça paredes de adobe, constrói o telhado, o madeiramento
e a hidráulica.
Obteve um contrato com o serviço de parques para restaurar
ruínas dos índios da região. Aprofundou então
seus conhecimentos de arqueologia. Paralelamente, faz desenhos
a ponta de lápis, aquarelas e peças de madeira,
tudo vendido em galerias de arte.
A carreira de Berkeley pode ser vista de duas ópticas.
Uma é a do pitoresco, do executivo que virou hippie. A
outra ilustra um perfil humano que está na essência
da pujança americana. Os inventores do passado e as grandes
erupções da informática têm por trás
o mesmo perfil multifacetado, tal como demonstrado por muitos
estudos. Berkeley é a versão que não sai
no jornal.
É
o uso das mãos por gente superlativamente bem-educada (anátema
para um latino!). É a ponte da ciência para o fazer
com as próprias mãos. É praticar as artes
plásticas e lidar com tecnologia. É viver a mais
rústica e desconfortável das vidas e ler profusamente.
É ter motocicleta e preocupar-se com o meio ambiente. É
pairar em uma classe social indefinida (lavador de pratos ou executivo?).
A criatividade de uma nação está ligada a
essa capacidade de pensar e teorizar o que requer uma boa
educação e, daí, partir para o inventar
e, depois, ir até as últimas conseqüências
no fazer. E isso tudo operando em vários registros intelectuais
e disciplinares, fazendo as pontes entre uns e outros. Na tradição
da sociedade americana, como em nenhuma outra, cria-se espaço
para tais perfis, dando-lhes as oportunidades de pôr em
prática seus pequenos e grandes sonhos. Mas, acima de tudo,
a fonte de sua riqueza está tanto nos inventores-empresários
conhecidos quanto nos Berkeley desconhecidos.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)