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Roberto
Pompeu de Toledo
A vingança
de José
sobre Taílson
Uma
rápida repassada nos
nomes
em uso no Brasil e as tendências
para as quais apontam
Antes
dominavam os apelidos simples, de duas sílabas, com origem
nas articulações balbuciantes da primeira infância:
Babá, Bobó, Tite, Tita, Zico, Nenê. Transportados
para a vida adulta como sinais genéticos impossíveis
de botar fora, daí muitos voaram, assim mesmo, da forma como
vieram ao mundo, para a fama e para a glória. A seleção
brasileira que ganhou sua primeira Copa do Mundo, em 1958, tinha
Didi, Vavá e Zito. E Pelé, naturalmente. "Jogador
de futebol tem cada nome", dizia-se. Os nomes de jogadores de futebol
no Brasil, reflexos do que era de uso nas classes populares, contrastavam
com o formalismo prevalecente, não se dirá na Europa,
mas aqui mesmo, ao lado, na Argentina. Ali, de Alfredo Di Stefano
a Diego Maradona, jogador sempre teve nome e sobrenome, sendo que
ao nome sempre se preferiu o sobrenome, quando era o caso de, para
encurtar, escolher entre um e outro.
Ultimamente
entraram em declínio os apelidos calcados em balbucios infantis,
mas o futebol continua um rico manancial para quem pretender uma
sociologia do povo brasileiro com base nos nomes. Há uma
quantidade desarrazoada de gente chamada Anderson, Giovanni ou Donizete,
nos gramados. Só o Grêmio de Porto Alegre, em matéria
de Andersons, tem dois: Ânderson Lima e Anderson Polga. Há
igualmente muitos Emersons, e outros tantos Denilsons, reveladores
de uma acentuada preferência pelos nomes terminados em son.
Incluem-se nessa mesma categoria exemplares mais exóticos,
como Cleison (joga no Atlético Mineiro), Clébson (Vasco),
Athirson (Flamengo), Élson (Portuguesa) e até Taílson
(Sport do Recife). Quando não é son, é
ton. Casos de Elivélton (Internacional) e Claírton
(Juventude de Caxias do Sul). Os Giovaados de diferentes
maneiras (Geovani, Giovane...), rivalizam com os Jeans. Há
mais jogadores conhecidos como Giovanni ou Jean do que como João.
João, sozinho, talvez não haja nenhum. Só em
combinação com outro nome: João Carlos, João
Gabriel.
Caso
alguém se aventure a tirar uma regra, de semelhante amostra,
uma seria a da preferência por nomes estrangeiros, ou que
soem estrangeiros, como os terminados em son e ton.
Onde se vai buscar inspiração, para este ou aquele
nome da moda, nem sempre fica claro. Donizetti é o nome de
um compositor italiano de ópera do século XIX. Na
década de 50, no interior de São Paulo, havia um padre
Donizetti tornado nacionalmente famoso pela fama de operar curas
milagrosas. Como o nome foi desembocar nos estádios, com
a grafia aportuguesada para Donizete, e com tal exuberância
que há Donizetes no Botafogo, no Fluminense e no Cruzeiro,
não é simples de retraçar.
Nas
escalações dos times de futebol tem-se a evidência
de uma característica muito brasileira, a da grande diversidade
de prenomes. Em outros países obedece-se a disciplina mais
rígida, cingindo-se o repertório ao que é da
tradição e da índole da língua. No Brasil
as possibilidades desdobram-se ao infinito. Um dos fenômenos
mais curiosos é o recurso aos nomes de presidentes dos Estados
Unidos. Washington, Jefferson, Lincoln, Wilson, ultimamente Kennedy
eis nomes que entraram com força nas certidões
de nascimento brasileiras. Alguns, como Washington e Jefferson,
já se banalizaram tanto, e há tantas gerações,
que até já não se lembra de sua origem. Se
não há Nixons é talvez porque esse presidente
não saiu com boa fama da Casa Branca. Clinton, uma vez esquecido
o caso Monica Lewinsky, quem sabe venha a socorrer muito pai aflito
por um nome "diferente". Ele contém aquela terminação
em ton tão do gosto nacional.
Da
tendência ao nome exótico, ou porque estrangeiro, ou
porque inventado, ou porque calcado em personalidade das artes ou
da política, as mulheres mantiveram-se mais a salvo. Houve
é verdade, anos atrás, a moda de substituir Cristina
por um bizarro Cristine. E ainda há quem registre a filha
como Marineide ou Credileusa. Mas nada que ameace os belos Maria
e Isabel, Angela e Clara e Beatriz, tão mais comoventes quanto
singelos, e abonados por uma história ancestral. Ou então
Sofia, nome que vem lá da Grécia, lá dos fundões
tanto das ciências quanto dos mitos, leve em sua sonoridade
como as ninfas, sábia em seu conteúdo como a deusa
Atena. Impregna-se a futura mulher de densidade, ao chamá-la
Sofia, como se impregna de júbilo a alma quando nasce o filho.
Tudo
isso vem ao caso para introduzir uma informação divulgada
pelo jornalista Ancelmo Gois (Ancelmo com c!), em sua coluna
no site no. da internet: um em cada dez dos novos prefeitos
brasileiros, num total de 643, chama-se José. É o
nome campeão, entre os recém-eleitos. Depois vêm
Antônio (259), João (200), Francisco (152) e Paulo
(94). Afinal das contas, a vitória dos Giovanni e Donizetes
talvez seja aparente e efêmero o reinado dos Cleisons e Clébsons.
No poder municipal continuam solidamente implantados os Josés
e Antônios. O mesmo, tudo leva a crer, continua acontecendo
na vida, em geral.
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