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Elas por elas

Dicionário traz biografias de brasileiras
que
se destacaram em vários campos
de atividade

Flávio Moura

Em 1549, o padre jesuíta Manuel da Nóbrega descobriu o pecado abaixo do Equador. Recém-chegado ao Brasil, ele ficou escandalizado com a falta de pudor dos portugueses, que tinham várias mulheres e viviam a deflorar nativas. Escreveu ao rei de Portugal e pediu que de lá viessem moças dignas de casar com os colonos. Dois anos depois, desembarcava na Bahia a primeira leva de "órfãs da rainha", meninas lusitanas que deviam liberar os homens das urgências da carne e ajudar a povoar a terra recém-descoberta. A história dessas meninas é uma entre as 900 que podem ser lidas no Dicionário Mulheres do Brasil (Jorge Zahar; 568 páginas; 49 reais). A obra, que chega às livrarias no fim desta semana, traz pequenas biografias de mulheres brasileiras que se destacaram por algum motivo. É a primeira obra de referência desse tipo lançada no Brasil. Lá estão índias que se arriscaram contra o colonizador; negras que gritaram contra a escravidão; brancas que queriam mais da vida do que aprender piano e bordado. Mais recentemente, as famosas das artes, da política e do show biz, além das mulheres que foram vítimas de violência e preconceito.

O livro, não é preciso dizer, tem um viés feminista. Foi inclusive bancado por uma entidade voltada para a defesa dos direitos da mulher, a ONG Redeh. Também é claramente influenciado por certa mentalidade que entrou em voga entre os historiadores. De vinte anos para cá, mais ou menos, estes passaram a interessar-se pelos fatos comezinhos do cotidiano, pelos homens comuns, pelos "excluídos". Daí a presença de verbetes como o dedicado a uma certa Felipa de Souza. Nascida em Portugal, em 1556, ela morava em Salvador com o marido, um padeiro, quando começou a ser perseguida pelo Tribunal do Santo Ofício. Alfabetizada, fato raríssimo na época, ela costumava se fingir de doente para fazer o marido ceder lugar, na cama, a uma suposta enfermeira. E ainda planejava seus encontros noturnos durante a missa. Expulsa da capitania a pontapés, Felipa acabou virando mártir do homossexualismo. Politicamente correto? É claro que sim. Mas, pelo menos, o Dicionário levou a sério a sua própria intenção. A pesquisa sobre as "esquecidas" é bastante abrangente: suas histórias preenchem a maior parte dos verbetes. Também é um alívio perceber que os sermões e o proselitismo foram podados do texto final. O Dicionário é feminista, mas não é xiita.

No caso das mulheres conhecidas, o interesse do livro se reduz bastante. Ele cumpre o papel básico de uma obra de referência, já que não traz informações novas nem pretende ser crítico. Serve apenas para a checagem de datas e outros dados simples, referentes a figuras como Adalgisa Neri, Adélia Prado, Ana Cristina César, Araci de Almeida, Cacilda Becker, Carmen Miranda ou Clarice Lispector – para ficar no século XX e no campo das artes. No Brasil, a tradição historiográfica à qual o Dicionário se filia começou a ganhar força no fim dos anos 80. Foi nessa época que pesquisadoras como Mary Del Priore começaram a atuar. Ela é autora de livros sobre a condição da mulher no Brasil Colônia e, mais recentemente, organizadora do catatau História das Mulheres no Brasil (Editora Contexto), que reúne vinte textos escritos pelos principais estudiosos da temática. O impacto desses estudos ainda não se fez sentir nos manuais escolares. E, no entanto, algumas figuras femininas "descobertas" nos últimos tempos são bastante interessantes e mereciam notoriedade. É o caso de Clara Camarão, biografada pelo Dicionário. Ela era a companheira de Antônio Felipe Camarão, um dos líderes da guerra contra os holandeses que ocuparam Pernambuco no século XVII. Em vez de permanecer com as crianças nas últimas fileiras, Clara, peixeira em riste, ocupava a linha de frente dos combates. Foi uma espécie de precursora de Anita Garibaldi, a mulher do libertário italiano Giuseppe Garibaldi que ficou famosa pela bravura nas batalhas que travou ao lado do marido. Anita foi objeto de ao menos três grandes biografias no ano passado, data que marcou os 150 anos de sua morte. O Dicionário presta um bom serviço ao revelar muitas outras Anitas.

 


Chiquinha Gonzaga (1847-1935), compositora.
A primeira maestrina do Brasil. Instada pelo marido a escolher entre ele e a música, disse: "Eu não entendo a vida sem harmonia". E foi-se.
Reprodução/ Livro Chiquinha Gonzaga, de Mariza Lira

Carmen Miranda (1909-1955), cantora e atriz. Foi a artista brasileira que fez mais sucesso nos Estados Unidos. "Ary Barroso costumava dizer que, embora não possuísse extensão vocal e nem sempre cantasse com afinação, Carmen era perfeita."

 

Clarice Lispector (1925-1977), escritora.
Um ícone da literatura brasileira. "Num momento em que a tendência era regionalista, masculina e realista, tratou de questões urbanas, femininas e psicológicas."
B. Hassad



Hebe Camargo (1929), cantora e apresentadora. Figura marcante da televisão desde os anos 50. "Em 1957, transformou o visual, adotando definitivamente os cabelos loiros, que viraram uma de suas marcas."

Marcelo Navarro

 

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