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O escorregão do grande chef

O melhor cozinheiro do mundo abre o restaurante mais requintado, caro e esnobe de Nova York. Resultado: a freguesia não gostou da novidade

Rachel Verano

Allison Leach/People Weekly
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Alain Ducasse (à dir.) caprichou no seu restaurante americano. Foram gastos mais de 2 milhões de dólares num salão luxuoso (à esq.) e nas roupas italianas dos garçons

Comer bem em Nova York nunca foi barato. Mas um restaurante aberto há quatro meses em Manhattan bateu todos os recordes de preço, a ponto de indignar os mais perdulários gourmets americanos. É o Alain Ducasse at the Essex House, dirigido pelo atual papa da cozinha francesa, considerado o melhor chef do mundo. Lá, um jantar a dois, com bebida e gorjeta, não fica por menos de 500 dólares. É quase o dobro do valor cobrado pelo principal concorrente, o Daniel, dirigido por Daniel Boulud, até então o mais caro da cidade. Para efeito de comparação, em São Paulo, no restaurante Fasano, um dos mais caros do Brasil, um casal gasta em torno de 120 dólares para um jantar com bebidas. Além de ser caro, o restaurante de Ducasse tem sido bombardeado por críticos que o consideram esnobe, arrogante e fútil. Falou-se mal da comida, do serviço, do preço. Na semana passada, o coup de grâce foi disparado pelo crítico Jonathan Gold, da revista Gourmet. Pasmem: Gold encontrou uma lagarta verde refestelando-se em sua salada no Ducasse. O papa da gastronomia mundial levou um tropeção na terra do hambúrguer.

Acostumado ao sucesso, Ducasse, dono de onze restaurantes espalhados pelo mundo, não tem conseguido um minuto de sossego desde sua estréia em Nova York. Seu currículo é notável. Ele foi o mais jovem chef a receber a cotação máxima do Guia Michelin, a mais importante publicação gastronômica do mundo, há dez anos. Na época, tinha 33 anos. Foi ainda o primeiro a recebê-la por um restaurante de hotel e o único a levar a classificação máxima em dois restaurantes ao mesmo tempo, em 1998. Até então, a presença em tempo integral do chef na cozinha era fundamental na avaliação do Michelin. Esperava-se que ele fosse repetir em sua primeira casa nos Estados Unidos o sucesso de seus melhores restaurantes europeus, o Alain Ducasse, de Paris, e o Le Louis XV, de Montecarlo, capazes de arrancar gourmets endinheirados dos quatro cantos do mundo pelo simples prazer de sentar a uma mesa comandada por Ducasse. Foram gastos 2 milhões de dólares na reforma do velho restaurante que existia no hotel Essex House. Vieram depois as louças e a prataria impecáveis, as 1.200 flores naturais que enfeitam o salão e os uniformes dos empregados, feitos a mão em Milão. Planejado para comportar 65 pessoas, o restaurante de Nova York ocupa as mesas apenas uma vez em cada refeição e fecha nos finais de semana, o que o torna um dos mais exclusivos do mundo. Antes de abrir, tinha uma fila de espera com quase 3.000 pessoas. Agora já não é difícil conseguir mesa para o mesmo dia.

No Essex House, Ducasse cometeu o equívoco de achar que poderia cobrar o quanto quisesse por seus pratos. Abriu as portas oferecendo quitutes que chegavam a 80 dólares o prato. "Quebrei todos os recordes anteriores em centenas de dólares", reclamou William Grimes, o crítico de gastronomia do The New York Times, sobre a conta de 1.500 dólares do jantar para quatro pessoas. Na semana passada, o restaurante mudou o sistema e passou a vender menus com entrada, prato principal e sobremesa a preço fixo. Fixo e igualmente salgado. A refeição mais simples custa 145 dólares só a comida, sem os impostos e a gorjeta, que somados encarecem a conta em quase 30%. A soma engorda substancialmente com os detalhes: seleção de queijos, 18 dólares; vinho chileno, 80 dólares; cafezinho, 8 dólares. "A excelência tem um preço", disse Ducasse a VEJA, justificando a sangria que aplica no bolso dos clientes. "Não é simplesmente a comida. É o luxo do ambiente, a qualidade dos ingredientes, a exclusividade. Alguém já fez essa mesma pergunta a Fendi ou a Chanel? É a mesma coisa, o topo da pirâmide!"

Mas não é apenas uma questão de dinheiro. Como um faraó dos fogões, Ducasse assustou os nova-iorquinos com as extravagâncias de seu salão. Quando a escolha recaía sobre uma carne, os garçons levavam à mesa uma seleção de facas luxuosas para que o cliente pudesse optar pela mais adequada. Na hora de pagar a conta, escolhia-se a caneta com que se assinaria o cheque entre vários modelos, como Montblanc ou Cartier, expostos numa bandeja. "O novo Ducasse não tem classe", chiou o jornal New York Post, que reputa o restaurante como o lugar mais arrogante do mundo. "Não somos enganados facilmente", anunciou Gael Greene em sua resenha na revista New York. O chef bateu o pé, disse que não cederia, não mudaria seu estilo e até fecharia o restaurante se os americanos não o aceitassem da forma como era. Fechou nada. Hoje, os rituais de luxo extravagante planejados por Ducasse já não fazem mais parte da rotina da casa. Sinal de que o francês, a princípio irredutível, também está preocupado com a possível mácula em sua carreira. "Se Ducasse quer ser aplaudido em Nova York, tem de melhorar substancialmente o preço e a qualidade da comida", disse a VEJA o crítico de gastronomia do The New York Times, William Grimes. "Bom, comida é coisa que ele é capaz de fazer melhor que ninguém."

 

Sua conta, senhor...

Refeição mais simples, por pessoa, com impostos e gorjeta incluídos, sem bebidas ou extras como café

Entrada: fígado de pato do vale do Rio Hudson com cogumelos   Prato principal: linguado empanado, batatas com salsinha e camarões Sobremesa: torta
de chocolate com framboesas coberta com folhas de ouro

 

 

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