A
minha Maria Madalena
Ilustração Pepe Casals
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Vão
dizer que é frescura. Vão dizer que é afetação.
Mas insisto: a mulher mais sensual do planeta não é
Michelle Pfeiffer ou a playmate do mês de outubro, mas uma
Maria Madalena pintada por Giovanni Bellini em 1500. O quadro
faz parte da coleção permanente da Galeria da Accademia,
de Veneza. Já a vi quantas vezes? Vinte? Trinta? O efeito
é sempre o mesmo: diante da imagem de Maria Madalena, fico
bobo, sorrindo com embaraço, com uma mancha de suor nas
axilas. Ela aparece com os braços cruzados sobre o peito,
como se quisesse esconder sua exuberância, como se tentasse
afastar os olhares voluptuosos que marcaram seu passado pecaminoso.
Por mais que se empenhe, ela não consegue sufocar a beleza.
A beleza é sua cruz, seu martírio. Essa luta entre
sensualidade irreprimível e pudor absoluto transforma a
Maria Madalena de Bellini na figura feminina mais atraente de
todos os tempos.
Conto essas coisas por dois motivos. O primeiro, muito simples,
é que, meia hora atrás, revi Maria Madalena, numa
exposição da Galeria da Accademia sobre as restaurações
mais recentes das obras de Bellini. Para quem passar por Veneza,
fica a dica: a exposição permanece aberta até
21 de janeiro de 2001. O segundo motivo, menos simples, é
que estou lendo o filósofo italiano Mario Perniola. Em
seu último livro, A Arte e Sua Sombra, ele retoma
o tema do "sex appeal do inorgânico". Esse sex appeal, pelo
que entendi, mas talvez não tenha entendido direito, pode
ser "egípcio", "cyberpunk" ou "psicótico". O egípcio
não é comigo: fetichista, sadomasoquista, necrófilo.
O cyberpunk, por outro lado, implica um artificialismo que não
se aplica ao meu caso. Acho que, dos três tipos existentes
de sex appeal, o meu é o psicótico. Nele, o ser
humano se torna objeto, e o objeto se torna ser humano. É
assim que a Maria Madalena de Bellini passa de inorgânica
a real.
O livro de Perniola é mais ou menos sobre isso: a arte
contemporânea ainda pode ter a capacidade de transformar
o inorgânico em realidade? Perniola considera que a arte
ficou reduzida a duas correntes igualmente simplistas: a democratizante,
para a qual o público e o mercado são as únicas
referências possíveis, acima da teoria, da crítica,
da História; e a tradicionalista, que tenta impor valores
estéticos cujas características ninguém mais
reconhece. Para Perniola, esse esquema precisa ser desmontado,
porque a corrente democrática, com toda a sua estupidez
e futilidade, veio para ficar. O único caminho que resta
à arte é agir à sua sombra, refugiando-se
dentro de criptas. Metáfora complicada? E quem disse que
a arte contemporânea vai encontrar respostas simples?
Como se esgotou o assunto, e ainda sobra um espacinho na coluna,
aproveito para mandar uma mensagem cifrada, críptica. Agradeço
publicamente a todas as pessoas que estiveram ao meu lado nas
últimas semanas. Não vou citá-las pelo nome.
Elas sabem quem são. Lembrem-se de que, no futuro, quando
precisarem de ajuda, é melhor não contar comigo.
Não sou tão generoso quanto vocês.