Entrevista Gore Vidal

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O cronista do Império

O romancista americano diz que a
indústria bélica e as grandes corporações
corromperam a democracia nos EUA

Carlos Graieb

Numa eleição dos melhores escritores americanos da atualidade, Gore Vidal poderia até ficar entre os dez primeiros, mas não estaria no topo da lista. Ele é bom, não genial. Já como "personalidade literária", é difícil batê-lo. Trata-se de um dos poucos romancistas que desfrutam de legítima celebridade em seu país – e fora dele. Bem-nascido, membro do clã dos Gore (ao qual também pertence o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Al Gore), Vidal freqüenta círculos restritos da política e da cultura americana. Tem muito para contar, seja sobre presidentes, seja sobre atrizes famosas. E não hesita em fazê-lo. Exemplo disso é seu livro de memórias, Palimpsesto. Vidal também é dono de opiniões fortes. Não se cansa de fustigar os conservadores. Tornou-se um crítico ácido da democracia americana, que acredita corrompida pela influência das grandes corporações e da indústria bélica. Sua obra maior, aliás, é um ciclo de sete romances sobre a história dos Estados Unidos, iniciado há trinta anos e completado no mês passado com o lançamento de The Golden Age (A Era Dourada). Nesta entrevista, o autor, de 75 anos, explica por que considera seu país um "império brutal".

Veja – Ao comentar seu novo romance, The Golden Age, o jornal The New York Times afirmou que o senhor descreve a elite, mas se esquece de falar sobre o "homem comum". É uma crítica séria, não?
Vidal – O autor da resenha, Andrew Sullivan, é um jornalista inglês que repete como um papagaio a versão oficial da história americana. "Crítica séria"? Você está exagerando. Suponho que queira dizer "crítica tola". Meu assunto é o império americano, que nasceu dizimando tribos indígenas. Ocorre apenas que, em vez de falar sobre as vítimas, como faz a maioria dos romancistas, decidi escrever sobre os algozes. É mais útil aprender sobre eles.

Veja – A mesma resenha diz que o senhor só se interessa por política doméstica, e não pelo contexto internacional em que as grandes decisões dos governantes americanos foram tomadas. Como o senhor responde a essa acusação?
Vidal – Ela não faz sentido. Toda política é doméstica, estejamos nós falando da aniquilação de Tibério por Calígula, na Roma antiga, ou da decisão do presidente americano Harry Truman de lançar uma bomba atômica em Hiroshima, para assustar os russos e vencer as eleições de 1948.

Veja – Essa é uma tese forte de The Golden Age. Por que o senhor afirma que a bomba só foi lançada para "assustar os russos"?
Vidal – Porque em maio de 1945, depois da morte de Roosevelt e de Harry Truman ter assumido a Presidência, o Japão já desejava render-se. Nós impúnhamos uma "rendição incondicional". Eles tentavam preservar o poder de seu imperador. E a negociação se arrastava. Durante um encontro com Stalin, em Potsdam, descrito no meu livro, Truman recebeu a informação de que um teste bem-sucedido com a bomba atômica havia sido feito. A partir daquele momento, ele não necessitava mais dos russos como aliados. Em agosto, enquanto as discussões com os japoneses derrotados estavam em andamento, ele lançou duas bombas atômicas sobre eles. Se os japoneses já estavam se rendendo, por que fazê-lo? Para amedrontar Stalin. O problema é que fatos como esses não combinam com a auto-imagem americana. Por isso a história acaba sendo alterada pelas fontes "oficiais". Por isso a importância de jornais como o The New York Times, que serve ao establishment americano, assim como o Pravda servia ao governo da União Soviética. Ele oferece aquilo em que os donos do país, e das grandes corporações, desejam que acreditemos.

Veja – O que o senhor chama de atitude imperial americana não teria se diluído neste final de século?
Vidal – Certamente não. Atacamos ao nosso bel-prazer, em qualquer continente. Ignoramos as cortes internacionais. Damos ordens às Nações Unidas, mas não pagamos o que devemos. Pior ainda, temos uma economia militarizada desde 1950, graças a Truman e seu secretário de Estado, Dean Acheson. Gastamos, desde 1949, mais de 7 trilhões de dólares em guerras, normalmente contra um inimigo inexistente. Estamos prestes a aumentar o orçamento para os militares, enquanto nosso sistema público de educação está aos farrapos e não temos aquilo que qualquer país rico tem: um serviço de saúde em troca dos impostos pagos pela população. Em The Golden Age, passo a passo, vemos a antiga república ser substituída por um Estado nacional policialesco, que faz alistamento militar mesmo em tempos de paz, que obriga funcionários do governo e professores universitários a assinar juramentos de lealdade, que aumenta a cada dia a vigilância sobre todos e, por fim, que mantém 3% da população adulta em prisões. São 6,6 milhões de pessoas, um recorde mundial. É claro que os Estados Unidos são um império brutal.

Veja – O historiador inglês Paul Johnson terminou seu mais recente livro, Uma História do Povo Americano, dizendo que os Estados Unidos são, hoje, "a melhor esperança da raça humana".
Vidal – Essa é a visão de um propagandista. Nenhum historiador americano sério seria assim tão simplista.

Veja – Sua visão negativa da política americana se estende ao campo da economia?
Vidal – Se você está me perguntando se eu aprovo o fato de que 1% da população americana é dona de quase toda a riqueza, de que 19% estão se dando bem porque trabalham para os proprietários e de que 80% estão em situação ruim, é claro que minha visão é negativa. Gente como Andrew Sullivan e Paul Johnson está aí para polir a imagem da oligarquia. Eu não.

Veja – Certa vez o senhor disse que a vida política americana é desprovida de política. Poderia explicar essa idéia?
Vidal – Estou dizendo o óbvio. Qual o conteúdo das nossas conversas políticas? Falamos sobre a dislexia de George W. Bush ou sobre as pequenas lorotas de Al Gore. E, no entanto, há assuntos fundamentais. Depois de cinqüenta anos, a conversão da economia americana do modelo de guerra para o modelo de paz é o único tema importante. Mas ele pertence à política real e, portanto, está além das fronteiras permitidas. Ambos os candidatos estão comprometidos a dar mais dinheiro para o Pentágono. E, uma vez que ambos coletam vastas somas de dinheiro ilegal, uma mudança no formato da campanha dificilmente entrará em questão.

Veja – O senhor disse recentemente à revista Newsweek que uma medida para diminuir a influência do poder econômico no sistema político americano seria instituir o horário político gratuito na televisão. Temos esse horário no Brasil e os resultados são pífios nesse sentido.
Vidal – Se vocês fizeram alguma bagunça no Brasil, o problema é de vocês. Espero que consigam limpá-la. A Europa, por exemplo, está se dando muito bem com o horário gratuito. Quanto aos Estados Unidos, temos uma situação em que apenas aqueles que conseguem muitas doações de campanha conseguem transmitir sua mensagem. Os outros são relegados ao silêncio – e as pessoas ficam privadas de informação. As grandes corporações americanas gastam quase 2 bilhões de dólares na eleição. Gente como Bill Gates gasta fortunas para comprar a Presidência. Você acha melhor essa situação?

Veja – Em poucas palavras, como o senhor descreveria o candidato democrata à Presidência americana, Al Gore, que é seu primo distante?
Vidal – Num sistema completamente corrupto, sua inteligência ocasionalmente brilha na escuridão.

Veja – Que sugestão de leitura o senhor daria a um brasileiro interessado em se familiarizar com a história americana?
Vidal – Sugeriria que lesse o livro O Estilo Paranóico na Política Americana, de Richard Hofstadter, e os textos de Henry Adams que falam sobre os "pais fundadores", Jefferson e Madison. E, é claro, meu romance Império, no qual é possível encontrar um bom retrato dos homens que nos forçaram a entrar em guerra com a Espanha, em 1898, de modo a tomar conta das Filipinas e transformar os Estados Unidos num poder do Pacífico – e não num poder pacífico.

Veja – O senhor já disse que, quando jovem, se sentiu dividido entre a política e a literatura. O que fez com que escolhesse a segunda?
Vidal – Os escritores mostram a verdade como a vêem. Os políticos nunca abrem o jogo de fato. É impossível ser as duas coisas. Eu obviamente nasci escritor. Não havia nada a fazer.

Veja – Por que o senhor decidiu morar na Itália?
Vidal – Eu tenho uma casa no sul da Itália e uma casa no sul da Califórnia. Me diverte a idéia de que as pessoas achem estranho eu ter duas casas.

Veja – No ano passado, Saul Bellow, John Updike e Philip Roth, três dos principais e mais conhecidos escritores americanos deste século, publicaram romances. Nenhum deles chegou à lista de mais vendidos. Alguns interpretaram esse fato como "o fim de uma era". Seria esse o caso?
Vidal – Hoje, são autores da estirpe de John Grisham que ditam as regras. A literatura de verdade voltou a ser o assunto de uma minoria. Sempre foi assim, e daí?

Veja – Em seu livro de memórias, Palimpsesto, o senhor fala das relações difíceis que teve com sua mãe. Algumas passagens soam vingativas. Escrever o livro o ajudou a reconciliar-se com ela?
Vidal – Vingativo? Eu só dedico algumas páginas a ela. O tom do livro é sereno. Talvez o tipo de olhar perscrutador que lanço sobre as pessoas seja difícil de entender pelos latinos "passionais" como vocês, brasileiros.

Veja – Suas memórias demonstram que o senhor conheceu, ou conhece, um número espantoso de celebridades. Não é estressante estar sempre cercado de gente famosa? O senhor nunca se sentiu tentado a adotar uma atitude de "escritor recluso", como a de um Salinger?
Vidal – Nunca me interessei pela maneira como outros escritores vivem. Sim, conheci muita gente. Mas nunca lhe ocorreu que eles também me conheceram, ou até buscaram fazer contato comigo?

Veja – O senhor é presença constante em programas de televisão. Até que ponto um escritor sério deve buscar a celebridade?
Vidal – Vou à televisão para falar de política, o que ninguém mais parece interessado em fazer. É perigoso demais. Mas, quanto mais perto chego de expor a verdadeira natureza de nosso governo, menos convites recebo. O lingüista Noam Chomsky se encontra na mesma situação. E, no entanto, cada um de nós atrai, sozinho, mais espectadores do que qualquer senador.

Veja – Além de conhecer famosos, o senhor parece ter-se envolvido em flertes e jogos eróticos com muitos deles. O que ficamos sabendo a respeito das celebridades ao penetrar em seus quartos?
Vidal – Eu não flerto nem me envolvo em joguinhos eróticos com "celebridades" ou seja lá quem for. Presumo que você tenha ficado muito impressionado com os momentos de intimidade que tive com o escritor Jack Kerouac, descritos em Palimpsesto. Apenas para registrar, naquela época eu era a celebridade e ele, o desconhecido. Em geral, fico distante de escritores. Só escrevi sobre Kerouac, e também sobre Anaïs Nin, porque eles escreveram sobre mim antes. Eu respondi. Não há mais nada a revelar, nem jamais haverá.

Veja – Muita gente o chama de provocador. Provocar é uma inclinação sua ou algo que um escritor sempre deve fazer?
Vidal – Não me interessa o que as pessoas dizem de mim. Ofereci a meu país um relato histórico útil, mais acurado do que o da maioria dos historiadores e muito mais ressonante – no sentido musical –, por causa dos personagens ficcionais que atuam como um coro enquanto conduzem suas próprias vidas. É isso que importa.

Veja – O que é verdade e o que é ficção em seus romances históricos?
Vidal – Naquilo que chamo de "narrativas do império", começo com personagens de uma família ficcional, em 1776, e ao longo de várias gerações e quase três séculos observo como uma pequena colônia inglesa transformou-se no único poder global da atualidade – os Estados Unidos. Cada um dos sete volumes lida com as expansões desse império. A família ficcional vive em Washington, onde seus membros interagem com personagens reais. Como minha pesquisa já dura trinta anos e é bastante extensa, cada vez que uma "pessoa real" fala em meus romances, ela pode dizer coisas surpreendentes, ao menos para aqueles que conhecem apenas a versão oficial ou "cortesã" da história. Mas eu jamais ponho em sua boca declarações que não estejam registradas, nem invento teses que não estejam apoiadas em fatos.

Veja – Desde o início de sua carreira de escritor, o senhor foi franco a respeito da homossexualidade. Muitas vezes denunciou o ódio contra gays. Algo mudou nas últimas décadas?
Vidal – Muito pouco nos Estados Unidos. E o pior é que nossos preconceitos infestaram a Terra nesse período de hegemonia americana. Hoje em dia, por exemplo, os soldados gregos não se reúnem mais para realizar suas danças ancestrais nas tavernas. Suponho que tenham ficado cansados de espancar turistas americanos gorduchos que cometeram a imprudência de chamá-los de "bichas".

 
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