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Roberto Pompeu de Toledo

Guia de sobrevivência na campanha eleitoral

Uma repassada em certos aspectos
da disputa, com base em verbetes
reveladores do momento

Baixaria – Uma espécie de moralismo eleitoral está em voga. Candidato não pode atacar candidato. "É baixaria", reclama-se. "Que campanha suja!" Que querem os puristas? Até em campanha para madre superiora, num convento, é legítimo que uma candidata apregoe, não só as próprias virtudes, mas os defeitos e as inconsistências da outra. Em países com prática eleitoral bem mais antiga e enraizada que no nosso, a chamada propaganda negativa é de uso corrente (exemplo: EUA). A campanha de Serra, depois de ter fustigado Ciro Gomes, voltou-se contra o PT e exibiu dois filmes, um em que o presidente do partido, José Dirceu, conclama os militantes a "bater" nos adversários e outro em que o então governador Mário Covas acaba, dias depois, agredido na rua. A Justiça Eleitoral, alinhada ao bloco dos moralistas, proibiu a repetição dos filmes. Uma coisa é o ataque pessoal, como fez Fernando Collor ao levar uma ressentida ex-namorada de Lula à televisão, e esse pode ser punido até com a lei penal. Outra é o ataque político, legítimo numa disputa eleitoral, e o de Serra contra Lula não foi outra coisa. (Ver verbete Justiça Eleitoral.)

Humanos direitos – Um horrendo jogo de palavras vem sendo repetido por certos candidatos: "Sou a favor dos direitos humanos, mas também dos humanos direitos". Interpretada por seu valor de face, a frase pretende que os "humanos direitos", vale dizer, os seres humanos direitos, cidadãos decentes, respeitadores da lei, são tão dignos de respeito quanto o conceito de direitos humanos. Mas quem disse o contrário? Qual o tonto, qual o extraterrestre que considera o respeito aos sujeitos decentes menos importante que o respeito aos direitos humanos? Na realidade a frase vale mais pela intenção que traz embutida que pelo valor de face. Ela não se limita a equiparar os humanos direitos aos direitos humanos. Ela opõe um ao outro. O que pretende, de verdade, é afirmar que os direitos humanos trabalham contra os seres humanos direitos. Ou seja: repisa, sob a roupagem de um tolo trocadilho, a grosseira noção de que os direitos humanos são um escudo para proteger bandido. Nenhuma surpresa que da frase se apropriem candidatos a deputado de baixa extração, os mesmos que, em São Paulo, querem "a Rota na rua" – eufemismo para a defesa de uma polícia que antes atira, depois pergunta. Surpreendente é que, pelo menos uma vez, tenha sido pronunciada por uma pessoa intelectualmente refinada como o candidato José Serra. Por que teria ele caído nessa tentação? (Resposta no verbete pesquisa.)

Justiça eleitoral – Ela é necessária, mesmo? A questão foi levantada pelo advogado Luís Francisco Carvalho Filho, em artigo na Folha de S.Paulo. Pelo menos no que se refere à atuação como árbitro dos direitos de resposta no horário eleitoral ou das manifestações na imprensa, seu papel é questionável. "Que os candidatos se triturem no horário gratuito e que a imprensa cumpra seu papel", escreveu o advogado. Os casos de calúnia, injúria ou difamação, crimes capitulados no Código Penal, ficariam a cargo da Justiça comum.

Pesquisa – Se alguém pensa que os candidatos estão aí para liderar, engana-se. Estão aí para ser liderados. Lidera-os o marketing, que por sua vez é liderado pelas pesquisas qualitativas. As pesquisas qualitativas, aquelas que reúnem pequenos grupos, representativos da população, para aferir-lhes a sensibilidade e as opiniões, indicam o caminho. Se elas sugerem – para ficar num exemplo – que a população, assustada com a violência, imagina que a solução seja a escalada da repressão, o candidato sacará de seu estoque a linguagem correspondente. Daí o fato de um José Serra cair no mau gosto de contrapor "humanos direitos" a direitos humanos. Mas há limites. Uma pesquisa, conforme seja conduzida, pode resultar até na defesa da tortura. (Ver verbete plebiscito, abaixo.)

Plebiscito – O plebiscito sobre a Alca patrocinado pela CNBB, com o apoio do MST e do PSTU, terminou com placar soviético: quase 100% de votos contra a participação do Brasil no projetado organismo. Na União Soviética é que os candidatos da situação nunca eram aquinhoados com menos que 99% dos votos. O plebiscito da Alca foi exemplar de como esse instrumento de consulta, tão acarinhado pelo candidato Ciro Gomes, pode se prestar à manipulação. Se um grupo favorável à Alca também se abalançasse a fazer seu plebiscito, nos mesmos moldes e com os mesmos métodos, lançando mão de igual propaganda indutora, e de cédula igualmente viciada, o resultado muito possivelmente também beirasse os 100%, agora a favor. Por outro lado – para prosseguir nas maravilhas que podem ser operadas por um plebiscito –, se um grupo favorável à pena de morte se dispuser a realizar o seu, talvez nem precise ser tão manipulativo quanto foi a CNBB para arrancar o resultado que pretende. A pena de morte já não é, em si, tão malvista. Usando os métodos da CNBB, o mesmo grupo poderia conseguir a aprovação da tortura.

   
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