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Edição 1 770 - 25 de setembro de 2002
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Licença para matar

Esquimós do Canadá vendem
aos turistas seus direitos de
caçar animais raros do Ártico,
como a morsa e o urso-polar

A única dificuldade para matar uma morsa é a viagem de barco nas águas geladas do Atlântico, muito acima do Círculo Polar Ártico, no Canadá. Esse mamífero marinho com corpanzil – o macho pesa mais de 1 tonelada e tem 3 metros de comprimento – é um animal sociável, que não foge nem reage à aproximação dos humanos. Tudo o que o caçador precisa fazer é apontar sua espingarda para ele de uma distância de 10 metros e apertar o gatilho. Há quem considere isso uma bela diversão e esteja disposto a pagar caro pelo prazer de massacrar animais raros e indefesos. Custa 6.000 dólares por morsa morta, dinheiro pago aos esquimós. A lei canadense protege esse mamífero dos caçadores, com exceção dos esquimós (ou inuits, como são hoje chamados). Habitantes das terras geladas do norte canadense, eles têm o direito de abater determinado número de presas por ano, em respeito a seus costumes tradicionais. O que eles fazem é revender a permissão de caça a turistas de todo o mundo ansiosos por caça grossa.

Os esquimós levam os caçadores em barcos até os grupos de morsas. Ali, é só escolher o animal que vai matar, normalmente um macho. Os mais experimentados matam no primeiro tiro – no pescoço, no coração ou nos pulmões. Outros preferem imobilizar a presa com um tiro em algum osso vital para o equilíbrio e o movimento. Outros, mais afoitos, precisam disparar uma dezena de tiros. Morta, a morsa volta a pertencer aos esquimós. Eles cortam-lhe a cabeça, preservando as grandes presas de marfim – esse é o troféu do caçador. Caso o animal abatido seja macho, tiram-lhe o pênis, como um suvenir para o caçador levar para casa. O resto – carne, gordura e pele – é repartido e transportado para a aldeia. Neste ano, os esquimós permitiram que 26 caçadores matassem morsas em suas reservas no território de Nunavut, no norte do Canadá. Em 2000, foram apenas seis. Isso não significa que matem somente um espécime cada um. É comum que o bicho baleado caia na água ou que os tiros destruam sua cabeça e as presas de marfim. Nesses casos, procura-se outro animal, que não é difícil de encontrar. As morsas vivem em grandes comunidades, cada macho com seu harém de fêmeas e filhotes.

"É a maior coisa que eu já matei", festeja o americano Pete Studwell, que participou de uma caçada neste ano. Studwell, que foi entrevistado pelo jornal The New York Times, é um caçador experiente: já matou onze ursos, treze alces, um bisão, 300 veados e outros animais, num total de 45 espécies. A caça de morsas é proibida desde 1928, depois que elas quase foram extintas, no século XIX. Eram abatidas em escala industrial para a produção de óleo a partir de sua gordura. Os esquimós também estão vendendo aos turistas o direito de matar outros animais, entre eles o urso polar e o boi almiscarado. Dos 450 ursos polares que podem abater por ano – de uma população estimada em 15.000 que vive em Nunavut –, entre 75 e 100 são mortos por turistas, a um custo de 20.000 dólares por animal. Além desse dinheiro, calcula-se que cada caçador deixe outros 3.500 dólares para a economia local. O dinheiro é o principal argumento utilizado pelos esquimós diante dos protestos dos ambientalistas. "Esses animais iriam ser mortos de qualquer forma. A diferença é que desse jeito mais pessoas saem beneficiadas com a entrada de recursos", diz o esquimó Cain Iqqaqsaq, membro da Organização Igloolik de Caçadores.

Os esquimós não são o único povo a lucrar com o direito de caçar. Nos Estados Unidos, a tribo crow, do Estado de Montana, separou 10% dos 8 000 quilômetros quadrados da reserva para a caça de bisões, a 5.000 dólares por animal. No Zimbábue, país do sul da África, a matança de leões, zebras, leopardos, elefantes rende 40 milhões de dólares por ano, dinheiro que é distribuído entre os moradores vizinhos às reservas. A vizinha Zâmbia adota o mesmo método. Nesses dois países, a estratégia ajudou a reduzir a caça ilegal feita com a conivência da população. É um pequeno consolo.

 

   
 
   
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