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Licença para
matar
Esquimós
do Canadá vendem
aos turistas seus direitos de
caçar animais raros do Ártico,
como a morsa e o urso-polar
A única
dificuldade para matar uma morsa é a viagem de barco nas águas
geladas do Atlântico, muito acima do Círculo Polar Ártico,
no Canadá. Esse mamífero marinho com corpanzil o macho
pesa mais de 1 tonelada e tem 3 metros de comprimento é um animal
sociável, que não foge nem reage à aproximação
dos humanos. Tudo o que o caçador precisa fazer é apontar
sua espingarda para ele de uma distância de 10 metros e apertar
o gatilho. Há quem considere isso uma bela diversão e esteja
disposto a pagar caro pelo prazer de massacrar animais raros e indefesos.
Custa 6.000 dólares por morsa morta,
dinheiro pago aos esquimós. A lei canadense protege esse mamífero
dos caçadores, com exceção dos esquimós (ou
inuits, como são hoje chamados). Habitantes das terras geladas
do norte canadense, eles têm o direito de abater determinado número
de presas por ano, em respeito a seus costumes tradicionais. O que eles
fazem é revender a permissão de caça a turistas de
todo o mundo ansiosos por caça grossa.
Os esquimós
levam os caçadores em barcos até os grupos de morsas. Ali,
é só escolher o animal que vai matar, normalmente um macho.
Os mais experimentados matam no primeiro tiro no pescoço, no
coração ou nos pulmões. Outros preferem imobilizar
a presa com um tiro em algum osso vital para o equilíbrio e o movimento.
Outros, mais afoitos, precisam disparar uma dezena de tiros. Morta, a
morsa volta a pertencer aos esquimós. Eles cortam-lhe a cabeça,
preservando as grandes presas de marfim esse é o troféu
do caçador. Caso o animal abatido seja macho, tiram-lhe o pênis,
como um suvenir para o caçador levar para casa. O resto carne,
gordura e pele é repartido e transportado para a aldeia. Neste
ano, os esquimós permitiram que 26 caçadores matassem morsas
em suas reservas no território de Nunavut, no norte do Canadá.
Em 2000, foram apenas seis. Isso não significa que matem somente
um espécime cada um. É comum que o bicho baleado caia na
água ou que os tiros destruam sua cabeça e as presas de
marfim. Nesses casos, procura-se outro animal, que não é
difícil de encontrar. As morsas vivem em grandes comunidades, cada
macho com seu harém de fêmeas e filhotes.
"É
a maior coisa que eu já matei", festeja o americano Pete Studwell,
que participou de uma caçada neste ano. Studwell, que foi entrevistado
pelo jornal The New York Times, é um caçador experiente:
já matou onze ursos, treze alces, um bisão, 300 veados e
outros animais, num total de 45 espécies. A caça de morsas
é proibida desde 1928, depois que elas quase foram extintas, no
século XIX. Eram abatidas em escala industrial para a produção
de óleo a partir de sua gordura. Os esquimós também
estão vendendo aos turistas o direito de matar outros animais,
entre eles o urso polar e o boi almiscarado. Dos 450 ursos polares que
podem abater por ano de uma população estimada em 15.000
que vive em Nunavut , entre 75 e 100 são mortos por turistas,
a um custo de 20.000 dólares por animal.
Além desse dinheiro, calcula-se que cada caçador deixe outros
3.500 dólares para a economia local.
O dinheiro é o principal argumento utilizado pelos esquimós
diante dos protestos dos ambientalistas. "Esses animais iriam ser mortos
de qualquer forma. A diferença é que desse jeito mais pessoas
saem beneficiadas com a entrada de recursos", diz o esquimó Cain
Iqqaqsaq, membro da Organização Igloolik de Caçadores.
Os esquimós
não são o único povo a lucrar com o direito de caçar.
Nos Estados Unidos, a tribo crow, do Estado de Montana, separou 10% dos
8 000 quilômetros quadrados da reserva para a caça de bisões,
a 5.000 dólares por animal. No Zimbábue,
país do sul da África, a matança de leões,
zebras, leopardos, elefantes rende 40 milhões de dólares
por ano, dinheiro que é distribuído entre os moradores vizinhos
às reservas. A vizinha Zâmbia adota o mesmo método.
Nesses dois países, a estratégia ajudou a reduzir a caça
ilegal feita com a conivência da população. É
um pequeno consolo.
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