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Edição 1 770 - 25 de setembro de 2002
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Elias "tá dominado"

Demorou muito, mas a polícia do
Rio acabou pegando o Maluco

Ronaldo França

A polícia do Rio de Janeiro prendeu, na semana passada, o traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, um bandido sanguinário conhecido por sua frieza e crueldade. Apesar de ter importância mediana no mundo do crime organizado, ele ganhou fama nacional ao comandar a sessão de tortura que culminou com o assassinato do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, três meses atrás. Estava escondido no Complexo do Alemão, um conjunto de onze favelas localizado na Zona Norte da cidade, com cerca de 100.000 habitantes. Encontrava-se, mais precisamente, na favela da Grota, cenário da barbárie praticada contra Tim. A operação de captura mobilizou, durante três dias, 250 policiais por turno, helicópteros e dezenas de viaturas, num aparato nunca antes usado na perseguição a um único bandido. O mais notável, no entanto, foi o fato de a prisão ter sido efetuada sem que nenhum tiro fosse disparado. O sucesso baseou-se em ações de inteligência e escutas telefônicas e teve a contribuição fundamental da população em seu desfecho. Os telefonemas ao Disque-Denúncia levaram os policiais ao esconderijo.

A perseguição, iniciada dias depois do assassinato de Tim Lopes, intensificou-se quando o secretário de Segurança Pública do Rio, Roberto Aguiar, deu prazo de um mês para que o bandido fosse capturado. A prisão ocorreu a uma semana do limite estabelecido. Os passos do bandido foram acompanhados graças à quebra do sigilo telefônico de toda a sua quadrilha. Os diálogos demonstravam que ele podia ver exatamente onde estavam os policiais. A partir dessa informação, definiu-se um perímetro de atuação, que reunia cerca de 10.000 casas da favela da Grota. Foi dado, então, início à operação. Num inédito mutirão com a Justiça, os policiais conseguiram mandados para vasculhar todas as residências. É um trabalho especialmente complicado numa favela, um aglomerado fora de qualquer padrão de planejamento urbanístico. Ao pular uma janela, o bandido chega a uma laje que leva a outra janela, e cria-se um labirinto. Outra inovação na operação pode parecer trivial, mas foi decisiva: havia um mês várias delegacias trocavam informações sobre o paradeiro do bandido.

No calor das comemorações pelo êxito, chegou-se a celebrar uma nova era na segurança pública. A realidade não é bem essa. O Rio de Janeiro tem 50.000 mandados de prisão na fila para ser cumpridos. Eliminando os casos em que um único bandido tem contra si mais de um pedido de captura, ainda restam dezenas de milhares de criminosos à solta. Seria inviável incorporar à rotina carioca operações como a da semana passada. A Polícia Militar fluminense tem apenas 35.000 homens. A cidade de Nova York, com metade do número de habitantes, conta com efetivo semelhante e dispositivos tecnológicos mais avançados para facilitar o trabalho policial. O êxito da prisão de Elias Maluco chega num momento crucial para a governadora Benedita da Silva. Há duas semanas, ela foi publicamente desafiada pelo traficante Fernandinho Beira-Mar, que ditou ordens de dentro do presídio de Bangu 1. A captura de Elias Maluco devolveu aos partidários de Benedita alguma esperança de que ela consiga ir para o segundo turno. Difícil. Na última pesquisa, ela estava 34 pontos atrás da líder, Rosinha Garotinho.

   
 
   
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