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O homem que faz
a cabeça de Lula
Voz moderada
do PT, o ex-líder
estudantil José Dirceu foi
preso
pelo regime militar, treinou guerrilha
em Cuba e
fez até plástica no rosto
para despistar a polícia
João
Gabriel de Lima e Thaís Oyama
Rafael Falavigna
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Cristiano Mascaro
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34
ANOS DEPOIS
O deputado hoje e na época das passeatas históricas: discurso radical,
jeito de galã e status de ídolo pop |

Veja também |
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Se
Luís Inácio Lula da Silva vencer as eleições
de outubro, o deputado federal José Dirceu de Oliveira e Silva,
56 anos, presidente do Partido dos Trabalhadores, se transformará
no segundo homem mais poderoso do Brasil, entre os integrantes do governo.
Homem de confiança de Lula, José Dirceu, que já presidia
o partido desde 1995, tomou as rédeas de um PT em crise de identidade
depois da derrota para FHC em 1998. Conquistou o leme com uma plataforma
clara e uma intenção oculta. A plataforma assumida era fazer
uma política de alianças que tirasse do partido a pecha
de intransigente viabilizando, assim, a eleição de
Lula em 2002. A intenção escondida era afastar as correntes
radicais do centro de decisões do partido. Teve sucesso nas duas
empreitadas. Um ano antes da coligação do PT com o PL, José
Dirceu já dizia, em conversas reservadas com capitães de
indústrias, que o vice de Lula seria um empresário, ato
que simbolizaria a união capital-trabalho. Na campanha petista
à Presidência não se toma uma decisão sem o
aval de José Dirceu, que controla tudo com mão de ferro.
Num eventual governo petista, sabe-se que ele teria uma posição
de destaque. Imagina-se que seria alguma coisa como ministro do Planejamento,
pasta considerada a mais importante por Lula, ou chefe da Casa Civil,
articulando nos bastidores. Um terceiro caminho, se reeleito deputado,
é se transformar no líder superpoderoso do PT no Congresso
Nacional.
Já
é clichê falar que, caso Lula vença as eleições,
o que por enquanto é apenas uma forte possibilidade aritmética,
será a primeira vez que um operário chega à Presidência
do Brasil. Examinada de perto, no entanto, a biografia de José
Dirceu é muito mais surpreendente que a de Lula, a começar
pelo fato de que é pouco conhecida. Primeiro, pela comparação
entre o moderado de hoje e o mito radical dos anos 60 e 70. José
Dirceu está para o maio de 68 no Brasil como Daniel Cohn-Bendit,
o Dany le Rouge, para o maio de 68 francês. Ele tinha o status de
um ídolo pop para os jovens universitários paulistas da
época, e não apenas pela militância numa organização
de esquerda, a Dissidência, que comandou várias passeatas
históricas. Cabeludo, rebelde, namorador, bonitão e bem-falante,
José Dirceu era também uma das referências dos estudantes
da geração que ouvia rock'n'roll e falava em amor livre.
Preso em outubro de 1968, durante o famoso congresso estudantil de Ibiúna,
em que era candidato a presidente da União Nacional dos Estudantes,
e libertado em 1969, juntamente com outros políticos, em troca
do embaixador americano Charles Elbrick, José Dirceu se refugiou
em Cuba, país em que recebeu treinamento para guerrilheiro. O mito
tomou corpo nos anos 70, década que atravessou desaparecido. Entre
seus ex-colegas de militância, muitos deles na luta armada, circulavam
lendas a seu respeito de que estaria sobrevivendo como músico
em Paris, como modelo fotográfico na "swinging London" da época,
ou até que teria se casado com uma condessa italiana em Milão.
Entre os militares que combatiam a guerrilha, era dada como certa a sua
volta para chefiar algum dos grupos armados que atuavam naquele tempo.
Muitas dessas
lendas do José Dirceu radical são apenas isso lendas.
Histórias de uma época que, vista a distância e com
os olhos do país democrático que o Brasil a muito custo
se tornou, soa como um tempo exótico em que nos matávamos
por razões políticas como se fôssemos talibãs.
A vida real de José Dirceu é ainda mais espantosa do que
as histórias que se criaram a respeito dele, e é possível
reconhecer no radical do passado muitos dos traços do moderado
de hoje. Sobre o José Dirceu guerrilheiro, pode-se dizer que ele
o foi sem nunca ter sido. Falava-se em luta armada na esquerda brasileira
praticamente desde o golpe de 1964. No auge da agitação,
entre 1967 e 1968, o hoje deputado do PT participava de uma das duas tendências
mais fortes daquele período, a Dissidência, que se desprendera
do Partido Comunista Brasileiro por achar que este havia se tornado "excessivamente
burguês". "Não era só isso. Éramos também
modernos para a época, porque criticávamos o stalinismo
e o estatismo", relembra hoje José Dirceu. Aos marxistas-leninistas
da Dissidência se opunha a Ação Popular, oriunda da
esquerda católica a mesma na qual o hoje candidato José
Serra, também líder estudantil, militara antes de 1964.
Por volta de 1966, integrantes de várias tendências do movimento
estudantil resolveram levar a teoria da luta armada à prática
e começaram a formar os primeiros grupos de treinamento.
"Eu era contra essa clandestinidade forçada, era contra o movimento
estudantil mandar quadros para a guerrilha", diz hoje José Dirceu.
"Nem sabia sobre esses grupos, tanto que minha primeira prisão
foi um espanto para mim."
AE
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ABERTURA
NO PT
Da esquerda para a direita: o sindicalista Jair Meneguelli, o hoje
prefeito Marcelo Déda, o governador Olívio Dutra, o deputado Paulo
Delgado, Lula, Vladimir Palmeira e José Dirceu, em encontro do PT
realizado em 1987, ano em que o partido começou a discutir possíveis
alianças com outras agremiações |
Ele se refere
a um episódio ocorrido no fim de 1966. José Dirceu militava
no movimento estudantil, cursava direito na Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo e trabalhava num escritório.
Pela primeira vez na vida, aos 20 anos, morava em seu próprio apartamento.
Localizado na Rua Barão de Tatuí, no centro de São
Paulo, o lugar podia ser designado pelo termo machista de "abatedouro".
José Dirceu tinha uma namorada fixa, Iara Iavelberg, musa da esquerda
dos anos 60 que mais tarde seria a companheira de Carlos Lamarca. Mas,
seguindo a cartilha liberal da época, ele praticava o "amor livre"
com quem aparecesse pela frente contam-se aí várias
estudantes e uma bailarina espanhola chamada Ivone, famosa também
pelas habilidades na cozinha. Bom garfo, José Dirceu freqüentava
o apartamento vizinho, ocupado por dois italianos que praticavam com maestria
a culinária de seu país. Um dia, a polícia apareceu
na sua casa e o prendeu. José Dirceu achou estranho. Estudava,
trabalhava e tinha endereço fixo. Em pouco tempo a verdade apareceu.
Os dois italianos do apartamento ao lado eram da Ação Libertadora
Nacional, grupo clandestino militarizado que estava ainda em seu início,
e os dois italianos figuravam entre seus organizadores. A polícia
estava atrás deles. Ambos foram deportados. Os depoimentos dados
em favor de José Dirceu diziam que ele era apenas um boêmio
inofensivo e namorador.
Era mesmo.
Ele não se satisfazia com as colegas da PUC. Vivia também
na famosa Faculdade de Filosofia da USP, na Rua Maria Antônia, onde
organizava o movimento estudantil e aumentava seu catálogo de namoradas.
Tinha várias ao mesmo tempo e, na época em que a polícia
o procurava, se escondia na casa delas. "Às vezes ele estava morando
com uma, brigava e tinha de ir embora, deixando as roupas lá",
conta o advogado e empresário Percival Maricato, amigo de José
Dirceu até hoje. "Mandava, então, que algum amigo fosse
enfrentar a fera e recuperar as roupas." Na época, a dramaturga
Consuelo de Castro, então estudante da Maria Antônia, escreveu
uma peça, Prova de Fogo, em larga medida baseada na vida
de José Dirceu. A escritora se inspirou nele para criar o personagem
Zé Freitas, um líder estudantil que é um conquistador
inveterado, e que se envolve com a líder de uma facção
adversária. Na época, José Dirceu, que tinha menos
senso de humor do que hoje, leu a peça que acabaria censurada
e ficou bravo. Ele achava que o texto prestava um desserviço
ao movimento estudantil, ao folclorizar seu líder, chamado na peça
de "Ronnie Von da esquerda", numa alusão ao cantor que mais fazia
sucesso entre as jovens da época. Mas fez as pazes com Consuelo
logo depois. O fraco de José Dirceu pelas mulheres era folclórico.
Uma noite, enquanto tirava a roupa para dormir com uma estonteante morena
de 19 anos chamada Heloísa, colocou o revólver prateado
calibre 22 que sempre carregava consigo na cabeceira da cama. Heloísa
o pegou e, como que examinando uma peça interessante, desarmou-o.
José Dirceu desconfiou e comentou o fato com amigos, que foram
investigar a vida da moça. Ela era funcionária da Secretaria
de Segurança, de onde deduziram que se tratava de uma espiã
do Dops. Apelidada de "Maçã Dourada" pelos companheiros
de José Dirceu, por ter sido uma tentação colocada
no caminho do líder estudantil, Heloísa sempre negou que
tivesse qualquer segunda intenção além, é
claro, de namorar o jovem radical que atravessara seu caminho.
Arquivo Edgard Leuenroth
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Arquivo pessoal
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ANOS
DE MILITÂNCIA
os anos 70, José Dirceu com o líder esquerdista Gregório Bezerra e
o militante estudantil Luís Travassos, recebidos por Fidel Castro,
em Cuba. À direita, brandindo a camisa ensangüentada do estudante
José Guimarães, morto pela polícia em 1968, em São Paulo |
Em 1969,
depois de ser solto no episódio da troca de presos esquerdistas
pelo embaixador americano Charles Elbrick, seqüestrado no Rio de
Janeiro, José Dirceu exilou-se na Cuba de Fidel Castro. "Quando
fala do passado, José Dirceu cita muito o período de militância
estudantil, mas conversa pouco sobre a época em que morou em Cuba",
diz o advogado Márcio Thomaz Bastos, amigo pessoal do deputado.
É compreensível. O seu exílio cubano não foi
nada dourado. Nas raras conversas que teve com amigos sobre o assunto,
expressou seu desconforto com os métodos utilizados no treinamento
militar a que foi submetido Cuba, na época, dava apoio logístico
a movimentos de luta armada na América Latina e na África.
Os aprendizes de guerrilheiros eram acordados com tiros de morteiro. Os
instrutores cubanos entravam no alojamento com violência, para que
os "recrutas" aprendessem a nunca deixar ninguém abrir a porta
sem escorá-la com o pé ou com um cabo de vassoura. Nem os
momentos de folga eram tranqüilos. Se alguém se acomodava
num bar de costas para a rua, o instrutor aparecia e derrubava a cadeira
com o pé para mostrar que só se deve sentar de costas
para a parede. As divisões dentro da própria esquerda também
o incomodaram. "Em Havana, o José Dirceu fez a política
do serviço secreto cubano", diz Carlos Eugênio Paz, ex-comandante
militar da Ação Libertadora Nacional. "Quando perceberam
que não poderiam tomar a ALN, os cubanos fundaram outra organização,
o Movimento de Libertação Popular, o Molipo. O José
Dirceu não era o chefe dessa organização, mas era
uma das pessoas que a apoiavam."
José
Dirceu entrou clandestinamente no Brasil em 1971, para participar do Molipo.
Mas não deu certo como guerrilheiro. "Treinei guerrilha, sim, mas
não gostava daquilo, não me envolvi, não era a minha",
relembra hoje José Dirceu. Poucos meses depois, voltou para Cuba.
Em 1975, desgastado com o exílio e os cubanos, decidiu deixar em
Havana o passado, a identidade e o rosto original e foi morar em uma cidade
do interior do Paraná, Cruzeiro do Oeste. Por quatro anos, viveu
sob a pele de uma ficção: o empresário Carlos Henrique
Gouveia de Melo, paulista de origem judia, natural de Guaratinguetá,
sujeito pacato e torcedor fanático do Corinthians. Durante esse
período, não revelou a verdadeira identidade nem mesmo para
a mulher com quem se casou e teve o primeiro filho. Clara Becker só
veio a saber que o marido era um ex-preso político, libertado em
troca de um embaixador seqüestrado, no quarto ano de casamento (veja
quadro).
Carlos Henrique
nasceu na mesa de operações de um hospital cubano. Em 1970,
José Dirceu submeteu-se a uma cirurgia plástica que lhe
transformou as feições. Dois cortes feitos na altura das
orelhas permitiram que os médicos levantassem as maçãs
de seu rosto, e um terceiro, logo acima do lábio superior, serviu
para que lhe implantassem uma prótese no nariz. Originalmente reto,
tornou-se ligeiramente adunco. O resultado, se prejudicou sua aparência,
ajudou-o a preservar o pescoço desafio que poucos de seus
pares venceram. Dos 28 brasileiros com quem morou em Havana, em 1969,
no sobrado que seria depois citado como a "Casa dos 28", nada menos que
dezessete morreram nas mãos de policiais brasileiros.
Reprodução Liane Neves
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Reprodução Liane Neves
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CLANDESTINO
Com o filho José Carlos em Cruzeiro do Oeste, no Paraná, onde viveu
por quatro anos sob a falsa identidade do empresário Carlos Henrique
Gouvêa de Melo: o disfarce, ensaiado por mais de um ano, incluiu até
uma prótese no nariz, que, originalmente reto, ficou ligeiramente
adunco |
A escolha
de Cruzeiro do Oeste se deu por três motivos: a esquerda possuía
pelo menos um contato lá, a cidade era pequena (tinha menos de
30.000 habitantes) e ficava no Paraná
então uma espécie de Eldorado brasileiro, onde forasteiros
chamavam tanta atenção quanto os milhões de pés
de café que fizeram a riqueza do lugar. Dirceu chegou em meados
de 1975. À plástica feita em Cuba, havia acrescentado um
bigode espesso, um par de óculos de aros grossos e uma história
muito bem ensaiada. Dedicara todo o ano anterior à montagem de
seu personagem. Criou em detalhes a biografia de seus "antepassados"
judeus que emigraram da Argentina para o Brasil e, com a ajuda
de um amigo brasileiro, esquadrinhou cada quarteirão da suposta
cidade natal. "Sabia tudo sobre Guaratinguetá: da sua fundação
até o nome do padre", conta. Espalhou que queria entrar no negócio
de confinamento de gado, o que lhe permitia rodar as fazendas e sondar
os eventuais riscos que a região oferecia. Meses depois, arrumou
uma família. Conheceu Clara, dona de uma loja de roupas femininas
na cidade, a Clara Confecções. "Ela era uma loiraça",
lembra. Em decorrência do namoro e da atividade da mulher, ganhou
o apelido do qual até hoje não se livrou: virou o Pedro
Caroço aquele que, na música de Genival Lacerda,
sucesso nas rádios da época, vivia "de olho na butique dela".
Passaram a morar juntos no fim de 1975. Clara, empreendedora e despachada,
ajudou o marido a montar uma alfaiataria, rapidamente substituída
por uma loja de roupas masculinas a Magazine do Homem e
uma pequena fábrica de calças.
A distância
que então existia entre a vida do empresário Carlos Henrique
e a do ex-líder estudantil José Dirceu era tão grande
quanto a que separava Cruzeiro do Oeste da ilha de Fidel. Passeatas, confrontos,
prisões faziam parte de um passado enterrado. Carlos morava ao
lado da sogra, ajudava a mulher a enxugar a louça do jantar, não
gostava de farra e ia do serviço para casa com uma única
e obrigatória parada no bar Central, onde encontrava sua turma.
Nas conversas, só trabalho e futebol. "Ele dizia que tinha duas
coisas que não discutia: política e religião", lembra
Teodorico Picinatto, o Kiko. O advogado Ivo Sooma, ligado à esquerda,
foi quem recebeu José Dirceu no Paraná, num encontro marcado
à noite em um trevo da estrada entre Cruzeiro do Oeste e Umuarama.
"A primeira impressão que tive quando o vi foi de estar diante
de um homem apreensivo. Os olhos dele não paravam quietos", lembra
o advogado. Nos primeiros meses de clandestinidade, Sooma abastecia José
Dirceu com informações frescas vindas de São Paulo
sempre em encontros que, a exemplo do primeiro, eram cercados de
cuidados. "Quando queria conversar com ele, passava de chapéu em
frente à sua alfaiataria. Era a senha para que nos encontrássemos
em um restaurante fora da cidade", conta o advogado.
José
Dirceu era cuidadoso. Quando pegava um jornal, preocupava-se em mostrar
aos amigos que lia primeiro o caderno de esportes e só por
último o de política. Nas rodas de bar, não tomava
mais do que dois copos de cerveja e jamais era visto em aglomerações.
Tanta precaução quase foi por água abaixo. Uma pessoa
desconfiou de sua história. Aristófanes Hatum, o Tofinho,
prefeito da cidade, estranhou aquele forasteiro bigodudo e calado assim
que ele desembarcou na cidade. Um dia, chamou Clara ao seu gabinete: "Você
sabe que está cheio de terrorista por aí, e esse namorado
que você arrumou é muito estranho. Se quiser, mando o Aymoré
[delegado da cidade] levantar a ficha dele". Clara improvisou uma
resposta: "O senhor deve estar louco. Conheço o Carlos há
muito tempo, e ele inclusive é meio parente meu. Não quero
ninguém fuxicando a vida dele". Dirceu se emociona quando lembra
o episódio. "A Clara mentiu por intuição e salvou
a minha vida", diz. Quando ela soube da verdadeira identidade do marido,
o filho do casal já tinha 1 ano. José Carlos Becker de Oliveira
e Silva, o Zeca, hoje candidato a deputado federal pelo PT, foi registrado
com o sobrenome falso do pai. "Depois da anistia, tivemos de mudar todos
os documentos dele. O Zeca tinha duas certidões de nascimento,
tudo duplo", lembra Clara. À exceção de uma irmã,
ela não contou a ninguém o segredo do marido, nem mesmo
depois que se separaram, em 1980. José Dirceu havia voltado a São
Paulo um ano antes já de nariz reto, resultado de uma segunda
plástica feita também em Cuba, logo após a anistia.
No movimento
estudantil, José Dirceu era conhecido pela capacidade de organização
e pela obsessão em controlar tudo. No PT essas características
persistem, segundo seus correligionários atuais. Quando concorreu
a presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo,
fez um cálculo de quantos votos teria e acertou quase na
mosca. "Ele era obcecado com essas coisas. Sabia quais faculdades estavam
com ele e quais não estavam e, dentro de cada uma, era capaz até
de dizer em quais salas de aula tinha maioria e em quais não tinha",
lembra a amiga Consuelo de Castro. Como estrategista da campanha de Lula
ele é exatamente assim. É um leitor voraz de pesquisas,
e planeja os eventos da campanha em função dos nichos em
que o candidato ainda não tem tantos votos quanto o esperado. Nos
anos 60, era José Dirceu quem confeccionava os mapas com os itinerários
das passeatas sempre um falso, para ser divulgado pela imprensa,
e um verdadeiro, que era efetivamente usado. Hoje em dia, traça
organogramas e se gaba de administrar o PT como uma empresa. "Eu sempre
fui da iniciativa privada, então só sei trabalhar assim.
Estabeleço metas, cobro resultados obsessivamente e, acima de tudo,
me preocupo com as finanças do partido", prega. "Hoje o PT tem
crédito em qualquer banco." Nos anos 80, época em que era
apenas um dos integrantes da executiva do PT, teve a idéia de contratar
um consultor para avaliar as administrações do partido do
ponto de vista empresarial. Da sua experiência na clandestinidade,
ele aprendeu a agir nas sombras. Principal articulador do PT, tem uma
agenda repleta de encontros secretos com lideranças de diversos
partidos e diversos setores da sociedade. Quando alguém lhe pergunta
sobre sua agenda, ouve inevitavelmente a expressão: "Sobre isso
não posso falar. É tudo encontro 'clandeca'". É a
gíria do tempo de movimento estudantil aplicada a um novo contexto
político.
José
Dirceu, claro, não é uma unanimidade dentro do PT. Seus
adversários o acusam de jogar pesado, mas as alas radicais do partido,
escanteadas por ele, preferem calar num período pré-eleitoral.
Já o economista Paulo de Tarso Venceslau, que saiu do PT em 1997,
por ter denunciado um esquema de tráfico de influência capitaneado
por um amigo de Lula, o empresário Roberto Teixeira, solta a língua
quando fala de José Dirceu. "Ele tem fome de poder, e seu estilo
é jogar uns contra os outros para se manter por cima", acusa o
economista, que participou do seqüestro do embaixador americano Charles
Elbrick, em troca do qual José Dirceu foi libertado. "Quando alguém
se opõe à sua hegemonia dentro do partido, ele envia um
preposto para fazer o jogo sujo. Depois, fica dizendo que não foi
ele." Venceslau, que conhece José Dirceu desde os tempos de movimento
estudantil, considera o ex-amigo um ingrato. "Ele, na verdade, não
tem amigos. Apenas usa as pessoas enquanto elas servem. Depois cospe fora,
sem nenhuma culpa."
Nascido
em Santa Rita do Passa Quatro, interior de Minas Gerais, José Dirceu
cultiva cuidadosamente o sotaque caipira até hoje. A conselho do
falecido jornalista Claudio Abramo, com quem conviveu nos tempos de estudante,
lê bastante para aprimorar o vocabulário. Não esconde
seu gosto pelo emprego correto das palavras. Só tem problema com
o vocábulo "problema", que sempre sai "pobrema" motivo pelo
qual, quando tem que usá-lo em um discurso, prefere trocar por
"questão". Examinando-se a trajetória que vai de Santa Rita
do Passa Quatro à presidência do PT, pode-se dizer que José
Dirceu chegou aonde chegou porque fez as escolhas mais oportunas
e, quando não conseguiu, o destino fez isso por ele. Se tivesse
aderido à luta armada nos anos 60, poderia ter morrido como quase
todos os seus companheiros que fizeram essa opção. No período
em que ficou detido, nunca foi torturado, e o único dissabor que
sofreu foi o corte da cabeleira, "para economizar sabão do Exército",
no dizer do coronel Erasmo Dias, que na época ocupava a trincheira
oposta. Se, quando voltou ao Brasil em 1971, houvesse aderido à
guerrilha, teria sido provavelmente massacrado. Por fim, se não
tivesse feito sua conversão a um esquerdismo menos ortodoxo, não
seria o líder de um partido que agora disputa a Presidência
da República. José Dirceu tem orgulho de sua trajetória.
Tanto que colecionou documentos e fotos ao longo da vida e acabou doando
esse material ao Arquivo Edgard Leuenroth, da Universidade de Campinas.
José Dirceu é uma das poucas pessoas que podem dizer, sem
exagero, que a própria vida daria um filme.
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"SE
TIVESSE ENVIUVADO, SERIA
MAIS FÁCIL ESQUECER"
Liane Neves
 |
A
MULHER
Clara Becker só veio a saber da real identidade de José Dirceu
no quarto ano de casamento |
"Quando o Dirceu chegou aqui, começou logo a me rodear. Eu
tinha uma lojinha de uma porta só e ele vivia passando em
frente. Perguntava para as pessoas: 'Quem é aquela polaca?'.
Achei-o bonitão e começamos a namorar. Ele dizia que
se chamava Carlos, vinha de São Paulo e os pais haviam morrido.
Desde o começo, percebi que tinha alguma coisa torta com
ele, mas ele falava: 'Não posso dizer quem sou, só
digo que não sou bandido'. Eu pensava: 'Bom, se não
matou ninguém e não tem problema com outra mulher,
deixa para lá'. Não podia perguntar muito porque ele
tinha raiva que desconfiassem dele. Uma vez, quando estávamos
namorando, fomos a um casamento chique, cheio de políticos
de Curitiba. Ele começou a olhar pra cá e pra lá
e eu falei: 'Ô, Carlos, o que é isso? Você está
paquerando? Está me fazendo passar vergonha'. Sabe o que
ele fez? Levantou e me largou sozinha na mesa. Ficava irritado quando
a gente desconfiava. Então, eu ficava quieta achava
que, se começasse a encher a sua paciência, ele iria
embora. E eu gostava demais do Carlos. Casamos no fim de 1975 e
foi muito bom. Ele não andava atrás de mulher, não
bebia e não gostava de farra. Nunca me deixou esperando em
casa, com o jantar esfriando. Chegávamos juntos do trabalho,
eu lavava a louça e ele enxugava. Era o homem que eu pedi
a Deus. Tanto que minhas amigas viviam querendo tomá-lo de
mim: 'O Carlos não joga baralho?'. Eu, que não era
boba, respondia: 'Não joga, não. Ele não joga
nada'.
Um dia, em 1979, estava fazendo o almoço e ele me chamou
no escritório: 'Você está sabendo do negócio
da anistia? Saiu. Agora estou livre'. Mostrou a foto dele, com os
outros banidos: 'Eu sou esse aqui'. Eu pensei: 'Meu Deus do Céu!'.
Não entendia nada de política, mas, quando morava
em Curitiba, vi a cavalaria subindo em cima dos estudantes e achei
aquilo uma loucura. Na época, diziam que a polícia
matava mesmo. Fiquei apavorada. Mas não senti só medo.
É muito difícil você, de repente, receber a
notícia de que o nome do seu marido vai mudar, o nome do
seu filho vai mudar. Disse para ele: 'Quer dizer que eu tive um
filho de um pai que não existe?'. Aquilo me revoltou. Preferia
que não tivesse acontecido nada. Preferia que ele continuasse
sendo fabricante de calças. Mas, depois da anistia, ele foi
ficando naquela loucura de querer ir embora de Cruzeiro do Oeste
para fazer política em São Paulo.
Assisti pela televisão à sua chegada no aeroporto.
Vi o meu marido abraçando uma família que eu não
conhecia, beijando uma irmã que eu nem sabia que existia.
Eu chorava, chorava, chorava. Se tivesse enviuvado, seria mais fácil
esquecer. Mas o Carlos não tinha morrido. Estava vivo, só
que não era mais o Carlos. Ficamos juntos um tempo ainda,
mas não deu certo. Hoje, vejo o Dirceu na TV, gritando ao
microfone, defendendo o Brasil... Todo mundo diz que ele tem um
valor extraordinário. Mas eu olho para ele e não vejo
o homem com quem vivi é outra pessoa. Eu gosto é
do Carlos que mora no meu coração."
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