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Edição 1 770 - 25 de setembro de 2002
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Três candidatos lutam para ter segundo turno
A chance de o PT fazer um governo viável
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Cristãos-novos
do capitalismo

Recém-convertidos à disciplina
fiscal e à economia de mercado,
Lula e o PT querem governar
o Brasil. As pesquisas mostram que
eles não estão longe desse objetivo

 

Fabio Motta/AE

PAZ E AMOR
Lula fala aos militares no Rio de Janeiro: ninguém duvida da vocação democrática do candidato do PT



Veja também
Lula-lá e Lula-cá
As chances de Lula fazer um bom governo
Nesta edição
Tudo pelo segundo turno
O homem que faz a cabeça de Lula
Na internet
Noticiário diário no site Eleições 2002

A democracia brasileira, a se fiar nas pesquisas de intenção de voto, pode levar ao poder Luís Inácio Lula da Silva, candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores. Com um índice em torno de 40% nas pesquisas, Lula tem uma pequena chance estatística de ganhar no primeiro turno, caso supere a tendência de queda registrada na última sexta-feira e volte a crescer. Mas sua presença no segundo turno está praticamente assegurada, salvo desastres de última hora. A essa altura, os eleitores que não votam em Lula e os indecisos, ainda a maioria, estão se perguntando se o PT está preparado para governar o Brasil. Depois da queda de Ciro, Lula tomou o lugar do cearense como alvo do tiroteio eleitoral. Sua competência está sendo questionada nos programas eleitorais do tucano José Serra, para quem o Lula sorridente e flexível da televisão não passa de uma invenção de marketing.

É cada vez menor o número de pessoas que duvidam dos compromissos democráticos do Partido dos Trabalhadores e de seu candidato à Presidência. A maneira inequívoca com que Lula se comprometeu durante a campanha a manter intocados os fundamentos da estabilidade econômica também convenceu boa parte do eleitorado, conforme mostram as pesquisas de intenção de voto. Lula é aplaudido nos encontros com banqueiros, empresários e pecuaristas, mas as ambigüidades em torno dele ainda não se dissiparam.

Todo mundo reconhece, a começar pelo próprio Lula, que o Brasil e o PT amadureceram. O estado de crise em que termina o governo FHC não é uma recomendação confortável a respeito de todas as escolhas por ele feitas nos últimos oito anos. Mas, durante esses oito anos, as instituições brasileiras evoluíram muito. É impossível imaginar hoje uma volta ao padrão primitivo da ingerência absoluta do Estado na economia como ocorreu durante o regime militar ou mesmo na redemocratização do período José Sarney. Os militares investiram dinheiro do contribuinte em projetos fantasiosos, como a colonização forçada e irresponsável da Amazônia ou a posse da tecnologia nuclear que poderia transformar o Brasil numa potência bélica. José Sarney promoveu o truculento e desastroso congelamento de preços do Plano Cruzado, seguido da prisão de empresários e da falta de produtos nos supermercados. Nada disso é sequer imaginável no Brasil atual, um país que, com todos os seus males, pratica as regras econômicas universais incontornáveis no mundo globalizado. Nesse ambiente, tornou-se minúscula a margem de manobra de um presidente de qualquer partido disposto a engatar uma marcha à ré institucional no país.

 

Robson Fernandes/AE

MILITANTES
O comportamento dos radicais do PT num eventual governo de Lula ainda é uma incógnita

O que boa parte da opinião pública deseja saber é como o PT, que durante vinte anos se preparou para a construção do socialismo, vai se sair agora diante do desafio de governar de acordo com os padrões capitalistas que se compromete a seguir. É uma questão mais complexa do que parece. Exige aprendizado, alteração de paradigmas mentais e a recusa de toda a agenda ideológica que o PT seguiu desde sua criação, há pouco mais de vinte anos. A pergunta é se o partido está mesmo disposto a enterrar sua cartilha histórica para administrar um país como o Brasil — o que é bem diferente do que se sair bem em administrações municipais e até estaduais. "Lula não é mais a ovelha negra das eleições presidenciais passadas", diz Graham Stock, estrategista-chefe para a América Latina do banco americano JP Morgan. Segundo Stock, os desafios atuais para um eventual governo petista são de três tipos. Primeiro: ainda existem dúvidas sobre certos aspectos da política econômica do PT. Segundo: não se conhecem os nomes dos integrantes de sua equipe econômica. Terceiro: não se sabe qual será a real influência no futuro governo dos militantes radicais do partido.

"O PT vai precisar superar o obstáculo de descrença do mercado no curto prazo, mas depois existe uma probabilidade razoável de que faça um governo correto do ponto de vista macroeconômico", diz Sérgio Werlang, ex-diretor do Banco Central, hoje diretor do Banco Itaú e professor da Fundação Getúlio Vargas. Tradução: num eventual governo petista, haveria um período de adaptação, uma fase difícil, marcada por um certo desencontro administrativo. "O PT, se eleito, terá de passar por uma prova de fogo", diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas e ex-presidente do Banco Central. "As expectativas negativas que se criaram em torno do partido são uma ameaça no curto prazo. A taxa de risco pode disparar. Lula precisaria agir rápido, construindo uma ponte de credibilidade que o ajudasse a superar os problemas dos primeiros meses."

 

Antonio Milena

SEM CARRANCA
Lula com crianças em São Paulo, na semana passada: de bem com a vida, com a família e com o partido

Um segundo problema seriam as expectativas que o PT despertou em seu eleitorado. Esperam os que votam no PT que, se ganhar, o partido execute uma política inédita de benefícios sociais. Os funcionários públicos, que são a base mais forte do partido desde que se tornaram mais numerosos que os operários na relação de filiados da agremiação, aguardam uma compensação pela política salarial rígida em que vêm sendo mantidos pelo governo FHC. Como poderá cortar despesas um partido submetido a esse tipo de pressões? O PT talvez seja o grupo político com maior credibilidade para reduzir o buraco da Previdência pública, de longe o principal item no déficit das contas governamentais. Terá força e disposição para contrariar suas bases? Dificilmente tomará um caminho tão traumático para suas tradições.

São desafios que, embora contornados durante a campanha, vão aflorar numa eventual administração petista. Durante os últimos meses, Luís Inácio Lula da Silva foi muito firme na definição de suas posições. Ex-operário, ex-líder sindical, a principal figura de um partido fundado com orientação socialista, Lula não hesitou em rever, ponto por ponto, vários itens essenciais de sua cartilha ideológica. Prometeu pagar a dívida externa, cumprir metas do FMI, manter as privatizações. Na campanha presidencial de 1994, Lula acusava seu adversário, o então candidato Fernando Henrique, de ser apoiado pela Febraban, a entidade que representa os banqueiros e que Lula considerava um dos setores mais retrógrados da sociedade brasileira. Agora, o mesmo Lula reuniu-se com os banqueiros da Febraban — foi elogiado e saiu elogiando. O professor Guido Mantega, guru econômico de Lula, está chefiando uma comissão que reúne petistas e técnicos da Febraban para estudar a transição do governo FHC para uma eventual administração barbuda. Lula também esteve festivamente na Fiesp, entidade que reúne a elite industrial de São Paulo. São inúmeros os exemplos em que o candidato e seu partido dão sinais de que estão se flexibilizando, amadurecendo, entendendo o mundo a sua volta. Há um enigma no ar, entretanto.

Em primeiro lugar, é ingênuo imaginar que, dono de quase 40% das preferências eleitorais e de uma história ética impecável, Lula tenha emprestado seu antigo carisma e sua afabilidade e civilidade recém-adquiridas a uma gigantesca encenação. É possível, mas não é provável. A mudança de Lula pode ser tardia, porém suas razões parecem legítimas. Até porque o caminho empreendido por ele rumo ao centro do espectro político não tem volta. Ele está gastando seu último cartucho. Está comprometendo nesta eleição e nesta fase de sua vida toda a biografia positiva que conseguiu escrever. Mas também é um erro imaginar que a súbita transformação imposta a ele, primeiro pela mudança do mundo a sua volta e depois pelas necessidades eleitorais, tenha magnetizado todo o Partido dos Trabalhadores. A nova imagem de Lula não pode ser tomada como a demonstração final de que o PT renegou integralmente suas convicções antigas. Isso só se revelará inteiramente no decorrer de um virtual governo petista.

 

Marcos Mendes/AE

DIÁLOGO
No encontro com pecuaristas em Uberaba: os antigos adversários agora são chamados para dialogar

Embora tenha se tornado pública de forma mais aguda durante a atual campanha, a migração do PT de Lula para a raia central da piscina ideológica começou em 1995. Naquele ano, a dupla formada por Lula e pelo deputado federal José Dirceu ganhou as eleições internas da máquina partidária. Dirceu foi eleito presidente. Lula virou presidente de honra. Dispostos a dar uma face moderada ao PT, eles iniciaram um lento mas implacável expurgo das correntes mais radicais. Ao darem andamento a esse processo, fizeram ao mesmo tempo sua mais ousada aposta pessoal. Começaram ali a demolir a imagem de radicalismo que sempre os definiu junto ao eleitorado e às bases do PT.

A idéia era tornar Lula um candidato capaz de atrair mais que os 30% de fiéis seguidores que ele sempre consegue nas eleições — um patamar bom para passar do primeiro turno, mas insuficiente para vencer o pleito. Só com uma roupagem moderada, calculava Dirceu, Lula poderia se vender fora dos bolsões sinceros mas radicais do esquerdismo. Dirceu foi sendo reeleito presidente do PT nas eleições bianuais. A proposta dos radicais em 1999 de iniciar uma campanha nacional sob o slogan "Fora FHC" foi derrotada por apenas dois votos. "Se o ‘fora FHC’ tivesse vencido e o Zé Dirceu perdido a presidência, é quase certo que o PT teria se tornado um partido insignificante", avaliou Lula recentemente a um grupo de amigos. Com pequenas variações semânticas, sabe-se que Dirceu assina embaixo dessa avaliação.

Sob o calor da atual campanha, com a rampa do Palácio do Planalto se aproximando no horizonte como nunca esteve, o PT agora decide primeiro e se reúne depois. O partido, que se notabilizou pelo assembleísmo, de repente parece confiar cegamente na aposta de Lula e Dirceu. Há um clima de "agora ou nunca" no PT e na enorme ala de simpatizantes. A idéia é não atrapalhar Lula em sua manobra delicada para convencer o eleitorado de que ele pode fazer um governo viável. Isso explica em boa parte o sumiço do MST, embora os latifúndios continuem do mesmo tamanho e a injustiça no campo seja a mesma do ano passado. E explica o silêncio da CUT mesmo diante da maior taxa de desemprego da história recente do Brasil.

 

Antonio Milena

NOTÁVEIS
Marta Suplicy, Aloizio Mercadante e Luiz Gushiken assistem a Lula no debate: voz ativa num governo petista

O PT tem uma corrente mais próxima da social-democracia, representada por políticos como o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque, o deputado José Genoíno, candidato ao governo de São Paulo, ou o senador paulista Eduardo Suplicy. Na outra ponta está o batalhão de radicais revolucionários que compõe mais ou menos uma terça parte das forças petistas. Ao lado do Movimento dos Sem-Terra (MST), essa ala radical do PT está em silêncio há vários meses, ao que tudo indica para não prejudicar a imagem de Lula perante o eleitorado. As passeatas barulhentas e as espetaculosas invasões de terra estão em estado de hibernação. Se o petista ganhar a Presidência, esse bloco vai se mover novamente em busca de uma fatia de poder no novo arranjo governamental. Será difícil para Lula convencer esse segmento revolucionário de que as leis da estabilidade e do mercado precisam ser levadas a sério. Mais difícil ainda será calar essa fatia respeitável da agremiação petista. Numa reunião recente com representantes do MST, Lula pediu que entendessem a atual moderação de seu discurso como necessidade de campanha. O negócio, avisou, é ganhar a eleição.

Três meses de campanha moderada anulam duas décadas de história? A indagação se coloca porque, embora a campanha de televisão não dê conta disso, o PT sempre foi o partido "contra isso tudo que está aí". Há três anos, no congresso nacional de 1999, dez anos depois da queda do Muro de Berlim, o PT reafirmou sua crença no socialismo. No ano seguinte, em maio, Lula dizia que o PT estava "mais socialista do que nunca". Até ser revisto, em junho, ou seja, três meses atrás, o programa do partido prometia a ruptura do modelo econômico, renegava qualquer acordo com o FMI e pregava a suspensão das privatizações e a revisão das vendas de estatais já feitas. O mesmo documento mantinha um perturbador silêncio sobre a manutenção da estabilidade monetária e da disciplina fiscal, conquistas duras e preciosas da sociedade brasileira na década que passou.

O Lula da campanha fez tudo para apagar o Lula da história recente. "O mundo e o Brasil mudaram. O PT e eu mudamos", repete ele. Lula sacramentou o acordo do governo com o FMI, comprometeu-se com a estabilidade e com a diminuição dos gastos públicos e até mesmo elogiou a política desenvolvimentista da ditadura militar. Nos últimos dias, ele contentou platéias de grandes empresários e pecuaristas, que sempre foram alvo dos petistas. É bom que se diga que, em política, mudanças são freqüentes. Em campanhas, o ajuste do candidato ao gosto do eleitor é uma manobra clássica. Está nos manuais. Como os artistas, os candidatos também tentam sempre ir até onde o povo está. Quando as pesquisas mostraram o apelo eleitoral de um anti-Lula, o próprio Luís Inácio passou a se apresentar como o anti-Lula. José Serra também se oferece aos eleitores não como o candidato governista que é, mas como a negação de tudo que incomoda a opinião pública na administração de Fernando Henrique Cardoso. Mesmo para um político como Lula, cujo grande trunfo sempre foi a pureza de princípios, existem paralelos históricos a invocar para explicar sua guinada ao centro. Afinal, Karl Marx se declarou o primeiro antimarxista. A autocrítica e o rompimento com o passado por parte da maioria que hoje domina o PT são legítimos. Pode-se especular, no caso de Lula, se o desvio para longe do radicalismo esquerdista não teria sido brusco demais, a ponto de trincar a estrutura interna do candidato e do partido.

A cúpula petista sustenta que se encontra contido o terço de militantes radicais que ainda permanece no PT. Eles seriam pacificados com cargos secundários num eventual governo Lula. Pela avaliação dos líderes, o PT e Luís Inácio se fortaleceram no processo de migração para o centro. Para eles, o essencial é o fato de o PT ter mantido intacta a fidelidade a alguns princípios básicos, como a ética e a capacidade de negociação, que nada têm a ver com esquerdismo. É curioso constatar que, nas prefeituras e nos governos petistas, os administradores xiitas em geral têm se dado mal. Administrações que negociaram e admitiram entender-se com a oposição em geral se deram bem.

Dois exemplos são Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, e Zeca do PT, em Mato Grosso do Sul. O primeiro botou no secretariado a fina flor do corporativismo e arrematou a assessoria com um delegado do Movimento dos Sem-Terra instalado na Secretaria da Agricultura. O resultado consistiu numa catástrofe que foi da perda dos investimentos que a montadora Ford pretendia fazer no Estado ao descontrole na segurança pública, passando por um show de invasões no campo e por um processo de ideologização na educação pública que não se vê em outros Estados. Isso sem falar na explosão de um escândalo envolvendo alta patente do governo com controladores do jogo do bicho. Olívio foi tão sectariamente petista que nem mesmo o PT agüentou. Ele acabou perdendo nas prévias do partido, para Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre, o direito de disputar outra eleição.

Em outro figurino, Zeca do PT, governador de Mato Grosso do Sul, fez muita agitação no primeiro turno de sua campanha de 1998, mas já na segunda fase partia para a negociação, trocando apoios por compromissos. Com um grupo de empresários, chegou a assinar um documento comprometendo-se a fazer nomeações de interesse desses patrocinadores. Na sua fase mais liberal, constrangeu a direção do partido empossando um filiado do PFL no secretariado e namorando firme o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Como saldo, possui sólida chance de reeleição, mesmo tendo distribuído empregos entre parentes e enfrentando acusações até de cunho criminal na campanha eleitoral.

O modelo se repete em São Paulo, onde a prefeita petista Luiza Erundina aplicou a cartilha partidária até nas entrelinhas. E acabou tão enroscada em ações equivocadas que abandonou o partido, depois de encerrado o mandato, na companhia de um bloco considerável de militantes. Marta Suplicy, ao contrário, vem fazendo a chamada administração petista light, que em plena véspera de eleição retoma obras abandonadas pelo ex-prefeito Celso Pitta, como o ônibus Fura-Fila. Não se tornou uma unanimidade, mas conseguiu vencer a descrença dos primeiros meses de governo. Outra lição evidente dessas comparações é que os chefes de governo do Partido dos Trabalhadores enfrentam oposição mais vigorosa do lado de dentro do que do lado de fora — e nesses embates tem vencido a corrente mais moderada. É com base nessas vitórias internas contra o radicalismo que Lula se apresenta ao eleitor brasileiro como um político moderado.

Essas questões são as que se colocam diante do eleitor, que tem expressado confiança no petista por uma porcentagem em torno de 40% das intenções de voto, o que equivale a algo próximo à soma das obtidas pelos três concorrentes. A partir de agora, o tema do preparo petista para a Presidência será uma das perguntas centrais que os eleitores farão nesta fase final de campanha, antes de decidir a quem entregarão o comando do país.


 
 
   
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