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Tudo pelo
segundo turno
Para evitar
que Lula ganhe no
primeiro turno, Serra recorre à
pancadaria, Garotinho viaja por
oito Estados em quatro dias e
Ciro vai atrás de bruxo americano
Alexandre Meneghini/AE
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AP
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O
BRUXO AMERICANO
Depois de desabar nas pesquisas, Ciro reuniu-se num hotel com
Dick Morris, descrito em reportagem de capa da revista Time
como o cidadão que fazia a cabeça de Bill Clinton
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Veja também |
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Se a eleição
presidencial fosse uma corrida de cavalos, como sugere a ilustração
(clique
aqui para vê-la), os jóqueis estariam entrando
agora na reta final. Dentro de duas semanas, uma legião de 115 milhões
de eleitores irá escolher o sucessor do presidente Fernando Henrique
Cardoso e, embora o tempo seja curto, as pesquisas de intenção
de voto não dão pistas seguras sobre o que pode acontecer.
Na sexta-feira da semana passada, o Ibope divulgou uma rodada feita sob
encomenda da Confederação Nacional da Indústria. De
acordo com os números, Lula se situa numa faixa de pontuação
que o obrigaria a disputar o segundo turno. Só que ele não
está tão longe assim também de uma possível
vitória no primeiro turno. Com 39% das intenções de
voto, e mantido o atual estoque de votos válidos, Lula precisaria
crescer mais 5 pontos para liquidar a fatura em 6 de outubro. Se ele vai
ou não conseguir atingir a meta já é uma grande dúvida
no momento. Mas há uma segunda questão, igualmente significativa.
Se houver segundo turno, quem estará na disputa com Lula? De acordo
com a pesquisa do Ibope, o candidato do governo, José Serra, tem
mais chances de ser o escolhido, pois aparece com 19% das intenções
de voto. Mas também podem chegar lá Ciro Gomes ou Anthony
Garotinho. Ambos estão com 14% das intenções de voto
e desenham no gráfico uma pequena recuperação.
Para tentar
manter-se no jogo, os três candidatos partiram para o tudo ou nada.
Garotinho aproveita as chances que tem para chamar Lula de inexperiente
e para falar mal do governo. Também decidiu concentrar seus esforços
em duas frentes. Uma delas é garantir nos programas eleitorais
da TV que elevará o salário mínimo para 280 reais
já no ano que vem, e não para apenas 211 reais, como prevê
o governo. Garotinho não está nem aí para o fato
de que esse aumento, da ordem de 40% de uma só vez, ampliaria o
rombo da Previdência Social de 50 bilhões de reais por ano
para 65 bilhões. Ele diz que dá para fazer e pronto. A outra
frente de ação do candidato é viajar muito. Em quatro
dias da semana passada, o ex-governador do Rio de Janeiro visitou oito
Estados.
Por ser
o candidato com mais chance de vitória, José Serra resolveu
adotar uma estratégia que, em geral, produz alterações
rápidas nas pesquisas: a pancadaria. Depois de "desconstruir" a
imagem de Ciro Gomes, Serra lançou-se contra Lula com grande disposição.
Muita gente criticou a estratégia, mas no meio marqueteiro é
consenso que só pode falar em estratégia quem tem alternativas
e a opção de escolher este ou aquele caminho a seguir. Para
Serra, não resta alternativa. "Ou ele bate em Lula ou está
fora do jogo", diz um assessor da campanha tucana. Na semana passada,
a equipe de Serra preparou um programa em que a biografia do tucano é
comparada à de Lula. O cotejamento é válido quando
o tucano lista os feitos profissionais de cada um e mostra, com números,
que seu trabalho na Constituinte de 1988 foi muito mais ativo que o de
Lula. Mas as virtudes do programa vão parando por aí. A
certa altura, o locutor de Serra sugere que os dois candidatos tiveram
origem humilde, o que é questionável. Serra é filho
de uma modesta família de imigrantes italianos, mas estava nos
limites da classe média e nunca passou grandes necessidades. Já
Lula integrava uma família nordestina paupérrima, filho
de uma mulher abandonada pelo marido e com uma penca de filhos para criar.
Nesse campo, não há paralelo entre o professor universitário
e o ex-metalúrgico.
Na quinta-feira,
Serra chegou ao máximo da ousadia ao sugerir na TV que Lula guarda
semelhanças com o folclórico Paulo Maluf. Por quê?
Porque nas eleições municipais de 1988 Maluf, que era candidato
a prefeito de São Paulo, propôs adotar na capital um programa
de farmácias populares criado pelo governador Miguel Arraes em
Pernambuco. E Lula fez o mesmo agora. Mais do que isso, a promessa é
apresentada nos dois programas com textos muito semelhantes e se vale
de um mesmo expediente. Tanto o programa de Maluf quanto o de Lula mostram
uma "repórter" fazendo compras numa farmácia de Pernambuco.
E as duas compram "creme ginecológico". Coincidência? Não.
Por trás dos programas estava o atual encarregado da propaganda
de Lula, o publicitário Duda Mendonça, que no passado preparou
o mesmo filme quando trabalhava para Maluf. O problema é que, se
isso iguala Maluf e Lula, muita gente pode entender que ambos se preocupam
em vender remédios a preços mais modestos. No interior da
campanha tucana, é grande o temor de que Lula vença nos
próximos quinze dias. Daí a elevação do tom
contra o petista. Apenas dez dias atrás, os marqueteiros de Serra
aventavam a possibilidade de chegar ao primeiro turno com algo entre 25%
e 28% dos votos. As pretensões otimistas foram reduzidas para 23%.
Ciro Gomes,
por sua vez, preferiu enfrentar a reta final com ajuda estrangeira. Em
dois encontros ocorridos num hotel em São Paulo, aconselhou-se
com o guru americano Dick Morris, considerado um gênio no campo
da marquetagem, daqueles a quem se atribui o poder de transformar em pouco
tempo um político em baixa num candidato portentoso. Morris foi
o principal homem da campanha de Bill Clinton, em 1992, e de seu assessor
na Presidência. Chegou a ser descrito em reportagem de capa da revista
Time como o cidadão que fazia a cabeça do ex-presidente.
Foi ele quem introduziu no discurso de Clinton a preocupação
com os valores tradicionais, de proteção à família.
Casado, com dois filhos, acabou perdendo o emprego na Casa Branca quando
protagonizou um escândalo sexual. Uma prostituta de 200 dólares
a hora com quem se relacionava revelou à imprensa que Morris contava
a ela segredos de governo e permitia que escutasse seus telefonemas para
o presidente.
Morris,
que também assessorou as campanhas vitoriosas de Fernando de la
Rúa, na Argentina, e de Jorge Batlle, no Uruguai, passou parte
do domingo debruçado sobre uma pesquisa qualitativa feita dias
antes pelo Instituto Vox Populi. O trabalho analisava as expectativas
dos brasileiros em relação ao futuro presidente da República
e os efeitos da recente desconstrução da imagem de Ciro
causada pelas declarações desastrosas do candidato e pelos
ataques promovidos pela campanha de Serra. À noite, Ciro participou
de uma reunião com o guru em companhia de integrantes de seu comitê
e ouviu o seguinte diagnóstico a respeito de suas chances. "É
como se você estivesse com febre devido a uma infecção
causada por um vírus. Mas existe remédio para combater a
doença", afirmou Morris num inglês pausado. Ciro saiu do
encontro com a convicção de que continua no jogo.
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