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Edição 1 770 - 25 de setembro de 2002
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Três candidatos lutam para ter segundo turno
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Zé Dirceu, o homem que faz a cabeça de Lula

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Tudo pelo
segundo turno

Para evitar que Lula ganhe no
primeiro turno, Serra recorre à
pancadaria, Garotinho viaja por
oito Estados em quatro dias e
Ciro vai atrás de bruxo americano


Alexandre Meneghini/AE
AP
O BRUXO AMERICANO
Depois de desabar nas pesquisas, Ciro reuniu-se num hotel com Dick Morris, descrito em reportagem de capa da revista Time como o cidadão que fazia a cabeça de Bill Clinton


Veja também
Nesta edição
Cristãos-novos do capitalismo
O homem que faz a cabeça de Lula
Na internet
Noticiário diário no site Eleições 2002
Se a eleição presidencial fosse uma corrida de cavalos, como sugere a ilustração (clique aqui para vê-la), os jóqueis estariam entrando agora na reta final. Dentro de duas semanas, uma legião de 115 milhões de eleitores irá escolher o sucessor do presidente Fernando Henrique Cardoso e, embora o tempo seja curto, as pesquisas de intenção de voto não dão pistas seguras sobre o que pode acontecer. Na sexta-feira da semana passada, o Ibope divulgou uma rodada feita sob encomenda da Confederação Nacional da Indústria. De acordo com os números, Lula se situa numa faixa de pontuação que o obrigaria a disputar o segundo turno. Só que ele não está tão longe assim também de uma possível vitória no primeiro turno. Com 39% das intenções de voto, e mantido o atual estoque de votos válidos, Lula precisaria crescer mais 5 pontos para liquidar a fatura em 6 de outubro. Se ele vai ou não conseguir atingir a meta já é uma grande dúvida no momento. Mas há uma segunda questão, igualmente significativa. Se houver segundo turno, quem estará na disputa com Lula? De acordo com a pesquisa do Ibope, o candidato do governo, José Serra, tem mais chances de ser o escolhido, pois aparece com 19% das intenções de voto. Mas também podem chegar lá Ciro Gomes ou Anthony Garotinho. Ambos estão com 14% das intenções de voto e desenham no gráfico uma pequena recuperação.

Para tentar manter-se no jogo, os três candidatos partiram para o tudo ou nada. Garotinho aproveita as chances que tem para chamar Lula de inexperiente e para falar mal do governo. Também decidiu concentrar seus esforços em duas frentes. Uma delas é garantir nos programas eleitorais da TV que elevará o salário mínimo para 280 reais já no ano que vem, e não para apenas 211 reais, como prevê o governo. Garotinho não está nem aí para o fato de que esse aumento, da ordem de 40% de uma só vez, ampliaria o rombo da Previdência Social de 50 bilhões de reais por ano para 65 bilhões. Ele diz que dá para fazer e pronto. A outra frente de ação do candidato é viajar muito. Em quatro dias da semana passada, o ex-governador do Rio de Janeiro visitou oito Estados.

Por ser o candidato com mais chance de vitória, José Serra resolveu adotar uma estratégia que, em geral, produz alterações rápidas nas pesquisas: a pancadaria. Depois de "desconstruir" a imagem de Ciro Gomes, Serra lançou-se contra Lula com grande disposição. Muita gente criticou a estratégia, mas no meio marqueteiro é consenso que só pode falar em estratégia quem tem alternativas e a opção de escolher este ou aquele caminho a seguir. Para Serra, não resta alternativa. "Ou ele bate em Lula ou está fora do jogo", diz um assessor da campanha tucana. Na semana passada, a equipe de Serra preparou um programa em que a biografia do tucano é comparada à de Lula. O cotejamento é válido quando o tucano lista os feitos profissionais de cada um e mostra, com números, que seu trabalho na Constituinte de 1988 foi muito mais ativo que o de Lula. Mas as virtudes do programa vão parando por aí. A certa altura, o locutor de Serra sugere que os dois candidatos tiveram origem humilde, o que é questionável. Serra é filho de uma modesta família de imigrantes italianos, mas estava nos limites da classe média e nunca passou grandes necessidades. Já Lula integrava uma família nordestina paupérrima, filho de uma mulher abandonada pelo marido e com uma penca de filhos para criar. Nesse campo, não há paralelo entre o professor universitário e o ex-metalúrgico.

Na quinta-feira, Serra chegou ao máximo da ousadia ao sugerir na TV que Lula guarda semelhanças com o folclórico Paulo Maluf. Por quê? Porque nas eleições municipais de 1988 Maluf, que era candidato a prefeito de São Paulo, propôs adotar na capital um programa de farmácias populares criado pelo governador Miguel Arraes em Pernambuco. E Lula fez o mesmo agora. Mais do que isso, a promessa é apresentada nos dois programas com textos muito semelhantes e se vale de um mesmo expediente. Tanto o programa de Maluf quanto o de Lula mostram uma "repórter" fazendo compras numa farmácia de Pernambuco. E as duas compram "creme ginecológico". Coincidência? Não. Por trás dos programas estava o atual encarregado da propaganda de Lula, o publicitário Duda Mendonça, que no passado preparou o mesmo filme quando trabalhava para Maluf. O problema é que, se isso iguala Maluf e Lula, muita gente pode entender que ambos se preocupam em vender remédios a preços mais modestos. No interior da campanha tucana, é grande o temor de que Lula vença nos próximos quinze dias. Daí a elevação do tom contra o petista. Apenas dez dias atrás, os marqueteiros de Serra aventavam a possibilidade de chegar ao primeiro turno com algo entre 25% e 28% dos votos. As pretensões otimistas foram reduzidas para 23%.

Ciro Gomes, por sua vez, preferiu enfrentar a reta final com ajuda estrangeira. Em dois encontros ocorridos num hotel em São Paulo, aconselhou-se com o guru americano Dick Morris, considerado um gênio no campo da marquetagem, daqueles a quem se atribui o poder de transformar em pouco tempo um político em baixa num candidato portentoso. Morris foi o principal homem da campanha de Bill Clinton, em 1992, e de seu assessor na Presidência. Chegou a ser descrito em reportagem de capa da revista Time como o cidadão que fazia a cabeça do ex-presidente. Foi ele quem introduziu no discurso de Clinton a preocupação com os valores tradicionais, de proteção à família. Casado, com dois filhos, acabou perdendo o emprego na Casa Branca quando protagonizou um escândalo sexual. Uma prostituta de 200 dólares a hora com quem se relacionava revelou à imprensa que Morris contava a ela segredos de governo e permitia que escutasse seus telefonemas para o presidente.

Morris, que também assessorou as campanhas vitoriosas de Fernando de la Rúa, na Argentina, e de Jorge Batlle, no Uruguai, passou parte do domingo debruçado sobre uma pesquisa qualitativa feita dias antes pelo Instituto Vox Populi. O trabalho analisava as expectativas dos brasileiros em relação ao futuro presidente da República e os efeitos da recente desconstrução da imagem de Ciro causada pelas declarações desastrosas do candidato e pelos ataques promovidos pela campanha de Serra. À noite, Ciro participou de uma reunião com o guru em companhia de integrantes de seu comitê e ouviu o seguinte diagnóstico a respeito de suas chances. "É como se você estivesse com febre devido a uma infecção causada por um vírus. Mas existe remédio para combater a doença", afirmou Morris num inglês pausado. Ciro saiu do encontro com a convicção de que continua no jogo.

 
 
   
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