
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|

Acesso rápido |
|
|
|
Beleza
para todos
Filósofo francês diz que ninguém
precisa
ser feio e que lutar para melhorar a
aparência é ser dono do próprio corpo
Silvia Rogar
O francês Gilles Lipovetsky, 58 anos, é um dos nomes mais
criativos e polêmicos do pensamento filosófico contemporâneo.
Foi ativista dos movimentos que culminaram no maio de 1968, teve participação
importante na reformulação do ensino de filosofia na França
e, atualmente, trabalha para o programa europeu de unificação
escolar. Reconhecido como um intelectual "sério", causou polêmica
quando lançou O Império do Efêmero, em 1987.
O livro aborda a moda ocidental, de sua criação, no século
XIV, até o século XX. Para Lipovetsky, o assunto não
se encerra no vestir, mas está interligado ao bem-estar, ao consumo
e à mídia. "Não é possível compreender
a evolução da sociedade sem dar importância à
moda, à sedução, ao luxo", diz. Seu próximo
livro, sobre o luxo, será lançado no ano que vem, na Europa.
No início de outubro, ele estará no Rio de Janeiro, para
o seminário "O luxo de cada dia". Na semana passada, Lipovetsky
falou por telefone a VEJA, de sua casa, em Grenoble, na França.
Veja Seu trabalho foi muito criticado quando o senhor começou
a se dedicar a temas considerados fúteis, como a moda e o luxo.
Isso foi em 1987. Hoje, esses assuntos conseguiram lugar no meio acadêmico?
Lipovetsky
A academia, em particular sociólogos e historiadores, está
mais aberta a essas reflexões. Ainda existe, no entanto, uma resistência
muito forte. Está quase no "código genético" da filosofia
a crítica às aparências. Mas a moda virou uma questão
central na sociedade pós-moderna. Não foi pelo lado frívolo
que me dediquei ao assunto, e sim porque a moda hoje não se restringe
ao vestuário. Ela rege outras esferas da vida, como o culto ao
corpo, o consumo e o bem-estar. Não dar lugar a ela é não
querer olhar de frente para o que é hoje a nossa sociedade.
Veja Quinze anos depois, que conceitos de O Império
do Efêmero o senhor reviu?
Lipovetsky
Naquela época, eu queria manifestar minha revolta contra a demonização
do consumo e da mídia. Mantenho a opinião de que eles não
são os demônios de nossos tempos. Mas hoje estou mais sensível
aos aspectos negativos do império do efêmero. O principal
é que ele cria um paradoxo: quanto mais a sociedade se volta para
o espetáculo, para a frivolidade, mais aumentam sua ansiedade,
angústia e depressão. Estou mais sensível também
à pobreza e às desigualdades sociais, questões que
não abordei em 1987. São problemas criados por regras econômicas
do mundo moderno e agravados pela omissão do Estado. Mas a sociedade
regida pelo efêmero contribui para mantê-los.
Veja Quais seriam os demônios de hoje?
Lipovetsky
Não acho que devemos apontar um só culpado pelos problemas
atuais. Hoje, quando falamos nesse assunto, surge imediatamente a palavra
globalização como a síntese de todos os males. Mas
devemos discutir seus diferentes efeitos. Estamos numa época em
que todos os modelos radicais perderam credibilidade. Não precisamos
de mudanças drásticas nas grandes questões do mundo
atual. O importante é fixar regras dentro de um mundo aberto.
Veja Nesse mundo aberto, a moda deixou de ser algo que define
marcadamente classes sociais, como acontecia no passado. Houve uma democratização
do supérfluo?
Lipovetsky
Incontestavelmente
sim, se tivermos como referência o nascimento da moda no Ocidente,
na segunda metade do século XIV. No início, a moda só
dizia respeito a um mundo muito pequeno, à corte. Depois ganhou
a alta burguesia e, desde o século XVIII, outras camadas burguesas.
Ao longo do século XX, sobretudo em sua segunda metade, a percepção
do supérfluo como um ideal de consumo estendeu-se por toda a sociedade
ocidental.
Veja Isso não é contraditório com a
constatação de que a desigualdade mantém-se e acentua-se
no mundo de hoje?
Lipovetsky
Não digo, evidentemente, que houve uma democratização
do acesso ao consumo, mas sim a massificação de um ideal
de consumo. Nos bairros mais pobres, por exemplo, os jovens querem e fazem
sua própria moda. A grande mudança é que, na organização
social anterior, as camadas populares se conformavam com a sua posição,
existia pouca vontade de mudar. A sociedade de consumo legitimou o ideal
de viver melhor. O poder de compra continua dividido, mas o desejo de
melhorar de vida é hoje praticamente universal.
Veja Quando a burguesia passou a imitar o vestuário
da nobreza, as cortes tentaram criar leis para impedir as cópias.
Hoje, boa parte das grifes de luxo têm marcas secundárias,
com preços mais baixos. Qual é o fenômeno por trás
disso?
Lipovetsky
A nobreza tinha interesses nacionais, como, por exemplo, impedir o uso
de ouro nas roupas para não diminuir suas reservas do metal
além, é claro, de deixar explícita sua superioridade
em relação aos plebeus. Hoje, a estratégia é
diferente. Criou-se um luxo intermediário. São produtos
lançados por grifes caras porém acessíveis a uma
parcela maior da população. Não deixa de existir
a diferença de status. Mas é inegável que houve uma
democratização da oferta do luxo.
Veja Quais são os principais objetos de desejo nesse
novo padrão de consumo?
Lipovetsky
Em primeiro lugar, a comunicação, através de seus
novos objetos, como computador, acesso à internet, telefones celulares.
Hoje, o bem-estar está associado à mobilidade, ao acesso
à informação e à rapidez. O que seduz na comunicação
passa, cada vez mais, por tudo que acelera as coisas, pela possibilidade
de estar conectado com o externo, com os outros. No outro grupo, estão
os objetos de sedução ligados ao corpo e à saúde.
Existe uma verdadeira obsessão pela saúde e tudo que contribui
para nos tornar mais jovem e em forma. Uma alimentação mais
saudável exerce uma sedução muito forte nos consumidores.
É um novo padrão, em que a saúde e a segurança
ocupam lugar de destaque. Um forte argumento de venda de carros de luxo,
por exemplo, são os sistemas de proteção ao corpo,
como o air bag e os mecanismos contra roubo.
Veja Com a globalização da indústria
da moda, o que deve mudar no vestuário? Há como preservar
identidades ou vamos assistir a uma pasteurização total?
Lipovetsky
No século XIX e até a primeira metade do século XX,
a moda era mais artística. Na época de globalização,
é necessário ter um bom faturamento, sem riscos. Hoje, escuta-se
mais o que as pessoas querem usar. A maior parte da indústria da
moda em todo o mundo observa o que o consumidor quer e produz dentro dessa
demanda. Isso não significa pasteurização. As pessoas
se vestem de forma muito parecida, mas não podemos dizer que não
há individualidade. Hoje, o individualismo é escolher, dentro
da oferta, o que mais agrada. É mais psicológico que estético.
O mais provável é que teremos uma moda de qualidade, mas
com pouca audácia de estilos.
Veja É isso que explica o declínio da alta-costura?
Lipovetsky
Exatamente. A alta-costura foi o pólo maior da moda moderna. Nos
anos 20, chegou a representar 15% das exportações da França.
Agora, não é mais o vetor principal de criação.
Isso acabou. O mercado de luxo é dominado por marcas como Calvin
Klein, Armani. Fazem roupas caras, que no entanto não são
um luxo impensável.
Veja O senhor disse recentemente que fica difícil,
hoje em dia, distinguir o que está na moda ou fora dela. Não
existe mais uma imposição no vestir?
Lipovetsky
A
oposição entre o que "está na moda" e "fora de moda"
continua muito forte no mundo adolescente, e quase exclusivamente nele.
Quase não existe fora dessa faixa etária. Acabou a tirania
na forma de vestir. Antes, se a nova moda fosse a minissaia, quem usasse
um modelo longo estaria fora dos padrões. Hoje podemos ter uma
tendência da saia mais curta, mas quem vestir um longo não
se sentirá forçosamente fora da moda. Existe uma multiplicação
de estilos, um vestuário mais flexível.
Veja Mas as mulheres continuam submetidas à ditadura
da aparência.
Lipovetsky
Sim. O vestuário foi substituído pela ditadura da magreza
e da juventude. A ansiedade que domina as mulheres quando estão
gordas ou com celulite mostra essa tirania. Antes, as filhas sonhavam
em se parecer com suas mães, queriam usar roupas parecidas. Hoje,
acontece exatamente o contrário, as mães é que desejam
ter a aparência mais jovem. Estar em forma e não envelhecer
é a obsessão número 1 de hoje.
Veja A que o senhor atribui essa mudança?
Lipovetsky
O corpo passou a ter outro valor na sociedade democrática e tecnológica,
que recusa a submissão ao destino. Na sociedade tradicional, a
beleza era considerada um dom. Se você não nascia belo, restava-lhe
a resignação. Agora, num universo individualista, o que
dá grandeza ao homem é não se acomodar. Quem é
gordo ou narigudo pode fazer dieta, plástica e ficar bonito. Você
pode lutar ou pagar para ser belo. Não deixa de ser um paradoxo.
A imposição da magreza, ao mesmo tempo que atinge indiscriminadamente
todas as pessoas, é também uma forma de o indivíduo
tomar posse do próprio corpo. A tirania da beleza pode oprimir,
mas permite que a mulher se mantenha jovem e sensual por mais tempo.
Veja Até agora, falamos do sexo feminino. No entanto,
nos últimos anos, a preocupação masculina com a aparência
só fez crescer. Como se comporta esse homem vaidoso?
Lipovetsky
A
partir da década de 60, o homem passou a olhar mais para a moda
e para seu corpo. Isso é uma das manifestações do
aumento do individualismo: a preocupação consigo mesmo.
A vaidade masculina cresceu junto com a valorização do lazer,
do esporte, de uma vida saudável. É diferente da vaidade
feminina. O homem quer estar bem de uma forma global, seu cuidado é
mais em ter um corpo saudável. Ele só tem preocupações
estéticas específicas quando os cabelos começam a
cair ou a barriga está grande demais. Enquanto isso, a mulher se
apega ao detalhe. Ela pode ser linda mas ficar insatisfeita com a pálpebra
ou com seu ombro. Quando está 2 quilos acima do peso, já
corre para fazer dieta. Ela se observa permanentemente.
Veja Por que essa obsessão?
Lipovetsky
Porque o belo continua sendo um atributo mais feminino que masculino.
É algo que vem da Renascença, quando a beleza era sagrada
e, para preservá-la, a mulher ficava condenada a um papel limitado,
doméstico. A sociedade de consumo e o movimento feminista mudaram
esse quadro, mas a mulher não deixou de ter uma identidade visceralmente
ligada à estética. Ela pode ocupar cargos importantes, ganhar
dinheiro, mas continua investindo na aparência. A diferença
fundamental é que, agora, a beleza não restringe mais sua
ação.
Veja Num de seus estudos mais recentes, o senhor escreveu
que esta nova mulher não se deixa mais encantar pela conquista
no estilo Don Juan. A grande arma de sedução masculina,
em sua opinião, estaria em ser divertido, ter senso de humor. Não
parece pouco?
Lipovetsky
Parece pouco, sim, mas é o que mais aparece nas pesquisas feitas
com as mulheres hoje. O senso de humor está ligado à inteligência
e tem boa receptividade numa sociedade que valoriza o lazer e o bem-estar.
É uma característica que faz a mulher sentir-se tratada
como um ser igual, e não como um objeto sexual. A palavra que o
homem dirige a ela tornou-se muito importante. Há outra mudança
notável: não se começa mais uma relação
falando de amor, como no estilo Don Juan. Primeiro, os dois se conhecem
com um espírito apenas de comunicação, de contato,
não de sentimento amoroso.
Veja E na política? Que papel tem a moda na sedução
do eleitor?
Lipovetsky
A moda é usada na comunicação política de
maneira mais ampla que a simples forma de vestir. Faz parte de um processo
que tornou o discurso mais acessível, passou a mostrar os candidatos
em situações mais cotidianas, para atingir mais as pessoas
durante a campanha. Isso nasceu para tornar a propaganda eleitoral mais
interessante. Mas a tendência da sociedade contemporânea continua
a ser de desconfiança, de distância da política. Ou
seja, a lógica da moda, da sedução e do consumo não
atrofiou o senso crítico dos cidadãos.
Veja Mas a imagem continua sendo importante, não?
No Brasil, o candidato que lidera as pesquisas, Luís Inácio
Lula da Silva, mudou o discurso, mas também aparou a barba, cortou
o cabelo, passou a usar ternos bem cortados...
Lipovetsky
Com certeza, a preocupação com a aparência contribuiu
para sua imagem, mas o mais importante foi a mudança de suas posições,
agora mais moderadas. Ele atenuou o discurso em relação
ao FMI e à globalização, por exemplo. As razões
que levam um candidato à Presidência de um país passam
longe da simples aparência. A maioria dos políticos, aliás,
não é particularmente sedutora. Veja José María
Aznar (primeiro-ministro espanhol) ou George W. Bush. Não
são pessoas propriamente preocupadas com moda.
Veja O senhor se considera uma pessoa preocupada com moda?
Gosta de grifes?
Lipovetsky
Os filósofos hoje não têm mais aquela imagem de que
vivem fora do mundo, que não se preocupam com coisas materiais.
Mas não me preocupo com marcas, que são apenas instrumentos
para dar segurança ao consumidor de que está adquirindo
um produto de boa qualidade. Sou um consumidor absolutamente banal.
|
|
 |