Sucesso no grito

Mano Júnior, o subempregado
que pedia chances na TV e hoje
cobra cachê de 11 000 reais

Antônio Milena

Júnior: pouco mais de um mês
atrás, ele trabalhava num botequim
em troca de comida


Existem várias maneiras de começar uma carreira de cantor. Manoel Pinheiro de Oliveira Júnior, de 21 anos, escolheu uma das mais extravagantes de que se tem notícia. Durante três semanas, ele perambulou pela platéia de programas de auditório do Rio de Janeiro, levando um cartaz em que se lia: "Sou cantor, vim de Brasília, me dê uma chance, por favor. Só depende de Deus e de você". Por incrível que pareça, a estratégia deu certo. Depois de duas incursões malsucedidas no Planeta Xuxa, ele resolveu tentar o Domingão do Faustão. No dia 4 de julho, o roteiro do programa previa uma apresentação da comediante Gorete Milagres, então anunciada como a nova atração da emissora (dias depois ela acabaria quebrando o contrato). Como Gorete não apareceu, Fausto Silva resolveu dar a Manoel a chance que ele tanto esperava. Acompanhado pelos teclados do maestro Caçulinha, o rapaz cantou por mais de meia hora. Interpretou, entre outras canções, Minha Metade, do grupo de pagode Só pra Contrariar, Sozinho, de Peninha, e Emoções, de Roberto e Erasmo Carlos. Para espanto geral, conseguiu o pico de audiência do horário, com 32 pontos, suplantando o concorrente Domingo Legal, do SBT.

Com Faustão e a faixa:
"Sou
cantor, vim de
Brasília, me dê uma
chance,
por favor"

Desde então, rebatizado com o nome artístico de Mano Júnior, Manoel virou quase uma atração fixa do programa. Nas últimas sete edições, apareceu cinco vezes. Chegou a fazer dueto com o sertanejo Leonardo e com Carla Visi, vocalista da banda baiana Cheiro de Amor. A primeira aparição na TV lhe rendeu um contrato com a gravadora Continental. Seu CD de estréia, finalizado a toque de caixa para aproveitar a repercussão das apresentações no Domingão, chega às lojas no início de setembro. "A sorte, que faltou em toda a minha vida, finalmente apareceu no programa do Fausto", ele diz.

Mano Júnior nasceu em Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, numa família muito pobre. Estudou até o 4º ano primário e entrou na rotina do subemprego. Foi vendedor de picolé, cobrador de ônibus (sem carteira assinada), engraxate e vocalista de um conjunto de baile. O grupo recebia 100 reais por apresentação, divididos entre os cinco integrantes. Na ocasião, emancipou-se da mãe que ganha a vida vendendo pão de queijo na cidade-satélite de Gama e alugou seu próprio barraco. Com os aluguéis em atraso, foi despejado. Sem nenhuma perspectiva, Mano Júnior vendeu o televisor por 100 reais e comprou uma passagem de ônibus para o Rio. Ao chegar, arranjou emprego como vigia de um botequim na distante Pedra de Guaratiba, Zona Oeste da cidade. Trabalhava das 9 da manhã às 11 da noite. Fazia faxina e servia os clientes. Em troca, podia comer e dormir no local, num tapete ao lado do freezer.

Óculos escuros Depois de ser contratado pela Continental, o cantor instalou-se provisoriamente num flat em São Paulo, próximo do estúdio onde gravou seu CD nas últimas três semanas. A maior parte dos 5.000 reais que ganhou como adiantamento da gravadora foi mandada para a família ("Mal posso esperar para trazê-la de Brasília para São Paulo", diz). Com 300 reais, ele se presenteou com um relógio e um par de óculos escuros de grife. O cachê para shows foi estabelecido em 11 000 reais o primeiro deles aconteceria neste fim de semana, num forró de São Paulo. Mano Júnior, é claro, não é o primeiro cantor revelado pela televisão. Nos anos 60 e 70, em A Grande Chance, comandado por Flávio Cavalcanti, surgiram nomes como Alcione, Emílio Santiago e Leci Brandão. Mais recentemente, a dupla de rappers cariocas Pepê e Neném garantiu contrato com a gravadora Virgin na marra. As moças invadiram os bastidores do SBT e tocaram nos camarins de vários programas. Finalmente conseguiram convencer Roberto Manzoni, diretor do Domingo Legal de Gugu Liberato, a lhes dar uma chance. Mas nem mesmo elas igualaram Mano Júnior na ousadia. O rapaz até já fez escola. Agora, a cada domingo, duas dezenas de postulantes ao estrelato brandem cartazes semelhantes ao dele no auditório do Domingão do Faustão. O apresentador os tem convocado a mandar fitas com suas vozes para a produção. A idéia é selecionar os melhores cantores para um novo quadro do programa. Será a versão ano 2000 dos concursos de calouros.

 
 

 




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