Minas Gerais

Itamar vai à guerra

O governador mineiro agora promete
reagir a bala contra a privatização de Furnas

José Edward

Não contente com o estrago que a moratória mineira causou na economia do país, o governador Itamar Franco agora resolveu decretar guerra contra o bom senso. Ele anunciou que, a partir de outubro, cadetes da Polícia Militar farão uma série de exercícios de guerra nas proximidades da Represa de Furnas, no sudoeste de Minas Gerais. As manobras militares fazem parte de uma estratégia quixotesca para inviabilizar a privatização da estatal, que pertence ao governo federal e é responsável pela geração de aproximadamente 40% da energia elétrica consumida no país. "Vamos tentar reverter a privatização na Justiça, mas, se preciso for, a PM tem minha autorização para reagir", ameaçou. Na terça-feira passada, no afã de mostrar seu espírito belicoso, o Brancaleone das Alterosas fez pessoalmente um reconhecimento do terreno onde a trincheira será fincada, no município de Capitólio. O acontecimento mobilizou 64 policiais, três helicópteros, quinze viaturas, um caminhão, um ônibus, cinco barracas de lona e um arsenal composto de fuzis FAL, carabinas e metralhadoras Uzi automáticas, de fabricação israelense.

No papel de comandante-em-chefe da PM, Itamar sobrevoou o local e desembarcou garbosamente no acampamento militar instalado às margens da represa. Depois de passar a tropa em revista, ele participou de uma reunião "secreta" com o Alto Comando da PM de Minas. "Ninguém aqui está fazendo manobras de brincadeira. Vamos usar balas de verdade. Quem conhece História sabe que a Polícia Militar mineira se saiu vitoriosa em muitas batalhas", discursou, lembrando que na batalha do Túnel da Mantiqueira, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, soldados mineiros venceram os paulistas. Itamar afirmou ainda que está disposto a desviar os rios do Estado que abastecem Furnas. "Como engenheiro, não sei dar tiro. Mas desviar rio eu sei", bravateou. Na imaginação fértil do governador, essa providência reduziria em cerca de 30% o potencial energético de Furnas, diminuindo o interesse de grandes grupos privados no negócio. "O Itamar está procurando um palanque. E Minas está com tanto dinheiro assim para ficar desviando rio?", indaga o deputado federal Rafael Guerra, do PSDB. Boa pergunta. Segundo especialistas, haveria necessidade de no mínimo 500 milhões de reais para consumar a operação hidráulico-bélica. E o impacto ambiental seria catastrófico.

Marola Não se imagine, porém, que Itamar anda fazendo toda essa marola apenas para defender o que ele chama de "patrimônio dos mineiros". O governador está procurando desviar a atenção dos resultados pífios de sua administração. Até agora, por causa dos problemas de caixa causados pela moratória que Brancaleone decretou, a obra mais vistosa de seu governo é um alojamento para PMs, construído no Palácio das Mangabeiras, em Belo Horizonte. Uma pesquisa divulgada no início de agosto pelo instituto Vox Populi indica que, nos últimos seis meses, o índice de aprovação popular do governador caiu de 37% para 29% e o de reprovação subiu de 17% para 24%. A pesquisa mostra o óbvio. Os mineiros podem ser discretos, mas bobos eles não são. Itamar, que nasceu na costa baiana, banca o opositor ferrenho da venda de estatais na tentativa de reverter sua queda de popularidade no Estado. Uma das avaliações que chegaram às mãos de Itamar é de que o contingente de brasileiros contrários às privatizações é, hoje, muito maior do que há três anos. Antes de iniciar seus arrufos, ele teve também o cuidado de sondar as lideranças políticas da região de Furnas, que se mostraram desfavoráveis à venda da empresa. Para assessores mais próximos, Brancaleone tem afirmado que, na pior das hipóteses, suas ameaças servirão para desvalorizar a estatal. Com o preço depreciado, o próprio governo mineiro poderia arrematar Furnas, por intermédio da Companhia Energética de Minas Gerais, a Cemig. "Ele inclusive já encomendou estudos nesse sentido", diz um deputado com livre trânsito na cozinha itamarista.

 

A febre das Alterosas

Em sete meses de governo, Itamar Franco se notabilizou pela produção de fatos inusitados.

Alguns deles:
Em janeiro, decreta a moratória das dívidas estaduais e deixa o país em polvorosa.
Em abril, inaugura com pompa e circunstância, incluindo banda de música e discursos, a única obra concreta de seu governo até agora: um alojamento para PMs no Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governo.
Em junho, determina que a Cemig isente os consumidores que pagam a tarifa mínima de energia elétrica do aumento de 3,8% concedido pelo governo federal. O "benefício" equivale a 6 centavos mensais.

 
 

 




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