Não vamos cederO presidente do BC diz que Antenor Nascimento e César Nogueira
A semana não foi fácil para Armínio Fraga. A Praça dos Três Poderes foi cercada por caminhões, os fazendeiros pressionavam por um perdão de sua dívida e os equatorianos anunciaram a intenção de não pagar o FMI. O mercado somatizou essas picadas imediatamente e elevou a cotação do dólar. Fraga adotou uma nova prática. Desceu ao andar térreo do Banco Central e mostrou a jornalistas números que apontam para um desempenho econômico melhor no ano que vem. O presidente do BC, daqui por diante, combaterá pessoalmente as crises de desconfiança que se dirigem ao Palácio do Planalto. Ele garante que o governo não cederá a pressões para abrir o cofre e que o presidente Fernando Henrique não mudará a política econômica para recuperar a popularidade. "O presidente nunca me pediu para relaxar", diz. O substituto de Francisco Lopes tem 42 anos, é casado, pai de dois filhos e trabalhou para o especulador George Soros. Ultimamente está lendo uma biografia de Charles Darwin. O biólogo Darwin é aquele segundo o qual, na ordem natural das coisas, os fracos desaparecem. Veja – O mercado mostrou que está extremamente desconfiado do governo. Isso tem base racional? Fraga – Sim, é um medo racional. As pessoas acham que a nossa tênue recuperação econômica está ameaçada. Temem que o governo possa ceder a pressões e voltar a políticas antigas. Temem que as reformas econômicas não sejam aprovadas pelo Congresso. Mas, de forma otimista, eu acho que vamos superar tudo isso. Talvez eu seja otimista porque tive a chance de falar com pessoas e conhecer dados a que o mercado não teve acesso. Essa angústia coletiva nos dá um sinal. O governo e o Congresso têm de levar o ajuste adiante. Veja – O BC tem alguma carta na manga? Fraga – Nenhuma. Já aprontamos muito no passado. Nossa política é a da previsibilidade. Veja – O dólar quase bateu em 2 reais na semana que passou. O governo está sendo atacado novamente? Fraga – Não houve um ataque, apenas um receio. Por isso, decidimos intervir. Mas, ao mesmo tempo, divulgamos os números do balanço do ano que vem, que são muito positivos. Existem outros fatos. Eu tenho participado de discussões com vários líderes dos partidos aliados do governo. Minha leitura é de que todos entendem a importância de se levar adiante a reforma da Previdência, a lei de responsabilidade fiscal e a reforma tributária. A minha expectativa é que esses trabalhos vão ser concluídos neste ano ou, no caso da reforma tributária, no início do ano que vem, porque requer mudança constitucional. Mas a coisa estará estruturada, encaminhada e resolvida mais tardar no início do ano que vem. Esse cenário me parece razoável, mas eu entendo o que está acontecendo hoje no país. Entendo que existam dúvidas. Veja – O governo está sofrendo um cerco. Primeiro foram os caminhoneiros, agora os ruralistas, os sem-terra. O próprio mercado dá sinais de nervosismo. Qual o motivo de toda essa pressão? Fraga – Acho que tudo isso é um fato normal num país que está saindo do fundo do poço e apenas agora passa à fase de crescimento. A recessão, que começou em junho do ano passado, causa mal-estar. Mas vejo hoje condições efetivas para uma retomada do crescimento. Veja – Mas há um risco, uma percepção geral de que o governo está frágil, pode abrir o cofre e comprometer o ajuste fiscal. Fraga – A leitura é essa mesmo. Mas o presidente tem sido muito claro nas reuniões com as lideranças na Câmara e no Senado. Ele continuará fazendo o que é certo para o país. Não adianta nos iludirmos nem cedermos a tentações de curto prazo. O Brasil era um alcoólatra monetário que, quando ficava meio deprimido, tomava um pileque, ficava alegre por uma noite e depois passava mal o resto da semana. Nossa orientação agora é outra. Temos de construir uma base para o país voltar a crescer e se desenvolver. Isso passa por uma política que permita a queda dos juros, o crescimento das exportações e tudo o mais. Nos últimos dez meses já demos uma virada. Saímos de um déficit fiscal de 1% do PIB em 1997 para um superávit de 3% do PIB neste ano. Isso foi fundamental para que pudéssemos ter hoje uma taxa de juros real bem menor. Se esse processo de consolidação do ajuste continuar, não vamos ter problema de voltar a crescer, sem medo de uma volta da inflação, sem medo de um problema cambial. Veja – O senhor está seguro de que o presidente Fernando Henrique não vai relaxar nesse esforço em troca de popularidade? Fraga – Estou. Ele tem dito a mim, como disse às lideranças dos partidos aliados, que não vamos fazer políticas populistas para a retomada do crescimento. Crescimento assim não é duradouro. O presidente entende que seu papel é tomar as decisões corretas para o país, pensando no médio prazo. Não é tomar o pileque. É fazer ginástica e entrar em forma. Veja – Talvez a sociedade não pense que seja populismo voltar a crescer. Fraga – Populismo seria sair gastando, na ilusão de que se consegue tirar recursos do nada. Vivemos vinte anos com essa ilusão e não deu em coisa alguma. Está aí. O que se fez no Brasil nos últimos vinte anos? Houve uma gastança geral, a dívida pública aumentou e o país não cresceu. Não é por aí. Para crescer é preciso poupar e investir bem o dinheiro. Para que isso aconteça é preciso ter mecanismos para que a economia invista esses recursos da maneira mais produtiva possível. Isso é o que gera crescimento, traz a educação, o progresso tecnológico. Mas para tomarmos esse trem é preciso que o ambiente econômico seja previsível. E nós estamos trabalhando nisso. Veja – Se o presidente ou o ministro Pedro Malan dissessem para o senhor relaxar, abrir o cofre, o senhor continuaria no Banco Central? Fraga – O presidente nunca fez isso e não acredito que fará. Eu vivi uma situação semelhante em minha outra passagem pelo governo, quando fui diretor do banco, trabalhando sob a dupla Marcílio e Gros (Marcílio Marques Moreira era ministro da Economia e Francisco Gros, presidente do Banco Central). Já vi esse filme e não dá certo. Mas não tenho a menor dúvida quanto à postura do presidente Fernando Henrique. O que ele tem sempre o direito de fazer é repensar como o dinheiro está sendo gasto. Isso é diferente. Mas nunca recebi nenhum tipo de pressão aqui. Nem uma sugestão sequer para a formação de minha diretoria. Foi inteiramente formada por critérios técnicos, e eu assumo a responsabilidade. É algo que me dá grande conforto quando acordo de manhã cedo e começo a pensar no que é preciso fazer. Veja – De 1 a 10, que chances o senhor tem de terminar sua tarefa com êxito? Fraga – Não sou eu sozinho, é um grupo, mas a chance é boa. É difícil quantificar. Essas coisas vão evoluindo e se adaptando. Se eu desse uma nota alta, poderia parecer que é uma tarefa fácil. Mas não é. Com o correr do tempo e o aparecimento dos primeiros resultados, será criado um círculo virtuoso, que vai reforçar essa trajetória. Daí eu achar que as chances são muito boas. Veja – As pessoas que pressionam o governo para relaxar sua política econômica estão mal intencionadas? Fraga – Não é que as pessoas tenham má intenção. É que cada um está olhando só o seu. O que não se pode fazer é curvar às pressões. Nesse caso, teríamos inflação, juros altos e a mesma ladainha das últimas duas décadas, que foram frustrantes para o país. Mas a pressão existente é um fato natural num país que vive um momento difícil, com a economia saindo de uma recessão. Veja – Existe incompreensão sobre a necessidade de sacrifícios para manter a inflação baixa? O brasileiro acha que o governo é um trem pagador? Fraga – A incompreensão, pessoal ou setorial, não se pode dizer que seja malandra, de má-fé. Ela é o que é, e temos de registrar isso. Acho que o brasileiro já entendeu que ter inflação é um péssimo negócio. Está entendendo que fazer parte do mundo é um bom negócio e começa a entender que ter um bom orçamento, ter as contas ajustadas, é uma coisa essencial. Veja – Os ministros e o Congresso também entenderam? Fraga – Acredito que sim. A pressão pontual sempre existe, mas isso é normal. O Congresso tem dado sinais positivos. Ele terá uma agenda importante nos próximos meses e a chance de confirmar essa minha impressão positiva. Veja – Os ministros entendem a complexidade da questão econômica, a necessidade do ajuste? Fraga – Não tenho contato com a grande maioria dos ministros. A minha impressão é que sim. Mas o mais importante é que o presidente entende. Veja – Que nota o senhor daria ao Congresso? Fraga – Não tenho essa arrogância de dar nota ao Congresso. Mais alguma casca de banana aí para mim? Veja – Em que medida a popularidade baixa do presidente dificulta sua atuação? Fraga – A queda na popularidade do presidente cria a expectativa, equivocada no meu ver, de que nós não continuaremos na direção de consolidar os projetos, as reformas e o modelo. Mas é uma percepção errada. Assim como a perspectiva de um aumento dos juros nos Estados Unidos também faz com que se tema o futuro. Temos de lidar com essas dificuldades. Veja – O brasileiro é muito imediatista? Fraga – Todo mundo gosta de resultados rápidos, mas nosso papel não é vender ilusões. Veja – O Brasil volta a crescer no ano que vem? Fraga – Acredito que sim. Tenho dito que vamos ter um crescimento de 4% ou até mais. Cresceremos nas bases tradicionais, porque não há muita mágica. O efeito da desvalorização é sempre demorado, mas já começou a surgir. Teremos mais exportações e menos importações, o que se traduz em mais dinheiro na economia. Vejo condições para o consumo e o investimento crescerem. Vendo as mudanças econômicas, quem consome terá uma atitude menos conservadora. E esse ciclo começa a gerar mais empregos. Veja – Então, podemos esperar um desemprego menor. Fraga – Neste ano ele já não subiu. O fato de ficar estável já foi uma surpresa positiva. As perspectivas eram muito ruins. Tinha gente que falava que ele ia para 12%. Em maio e junho geramos 330.000 empregos no Brasil. O início do ano foi ruim por causa da recessão. As coisas começam a mudar. Não que a economia esteja satisfeita, não, ainda estamos perto do fundo do poço. Mas estamos próximos de uma virada. Veja – Com a volta do crescimento não haverá uma corrida para aumentar preços? Há o risco de ter inflação alta novamente? Fraga – Estamos levando isso em conta na nossa avaliação e nos parece muito razoável a meta de 6% de inflação para o ano que vem. Ao contrário do que ocorreu neste ano, alguns fatores que pressionaram a inflação não vão existir. O mais importante de todos foi a desvalorização do câmbio. Você tem hoje uma desvalorização de 55%, com uma inflação projetada de 8% para 1999. Não há nenhuma razão para que isso se repita. Veja – Ainda há perigo de um novo e grande acidente externo? Como o de uma recessão global parecida com a de 1929? Fraga – O risco sempre existe, mas ele é menor hoje porque os bancos centrais entendem claramente o que aconteceu na Grande Depressão. Eles sabem que num momento de crise o banco central solta, reduz a taxa de juros, aumenta a liquidez. Agora, há momentos melhores e piores na economia internacional. Do ponto de vista da produção industrial global, o ano passado foi um momento recessivo, não houve crescimento. Houve crescimento nos Estados Unidos, mas na Ásia não houve, na Europa não foi uma fase boa. Mas não tenho uma visão catastrofista do mundo. Hoje o Japão está começando a se recuperar, a Ásia está se recuperando, a economia americana se desacelerando um pouco. Há uma assincronia que é positiva. E com esse entendimento muito profundo das causas da depressão a probabilidade de que ela se repita é bem menor. Veja – As crises da Ásia e da Rússia aconteceram de repente. Fraga – Mas foram crises localizadas. Havia elementos na Ásia que preocupavam, uma enorme alavancagem. Em certos países, financiamentos de curto prazo para investimentos de longo prazo, o que gera uma certa fragilidade. Em outros, o mercado financeiro estava pouco capitalizado, muito alavancado. Foi diferente em cada caso, mas a crise ocorreu numa região e o fato é que não se alastrou. Veja – E o Brasil? Corre algum perigo específico? Fraga – O Brasil faz parte do mundo. Então, se o mundo melhorar, o Brasil vai se beneficiar, se o mercado mundial se desacelerar, isso nos prejudicará. Mas não vejo algo que exista que nos afete de maneira específica e destacada. Veja – O Banco Central aprendeu alguma coisa com o caso dos bancos Marka e FonteCindam? Fraga – Nós repensamos uma série
de procedimentos sobre como atuar no mercado. A CPI deixou muito clara
a necessidade que o BC tem de fazer uma reavaliação dos riscos que corre.
Estamos, por exemplo, reformando alguns procedimentos de maneira que problemas
numa instituição sejam rapidamente identificados por todo o mercado. Estamos
fazendo isso para reduzir os riscos do BC, para que as perdas não acabem
indo para a viúva. É um projeto muito bom.
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