Revista VEJA
Livros
A sabedoria em 30 palavras ou menos
Uma coletânea do austríaco Karl Kraus mostra o poder crítico do aforismo - ou o máximo de sentido no mínimo de espaço - quando nas mãos de um mestre
Jerônimo Teixeira
Karl Kraus detestava conversa fiada. A acreditar nos relatos de sua vida cotidiana que transparecem de forma esparsa em Aforismos (seleção e tradução de Renato Zwick; Arquipélago; 208 páginas; 39 reais), o escritor austríaco não tinha a mínima paciência com as pessoas que, no bonde, no trem ou na mesa do café, davam início a diálogos inanes sobre o tempo. Definiu sua atitude em relação a esses tipos inconvenientes em uma de suas tiradas lapidares, rara conjugação de agressividade e sutileza: “Muitos têm o desejo de me matar. Muitos, o desejo de ter dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei me protege”. Não há lei contra os inimigos de Kraus: o lugar-comum, o clichê, a ideia pronta e a opinião fácil. Kraus, que morreu em 1936, aos 62 anos, foi testemunha de momentos conturbados para a Áustria e a Europa: a I Guerra Mundial, a dissolução do Império Austro-Húngaro, a crise econômica do entreguerras e a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933. Sua recusa de qualquer palavrório vazio não era mera tradução de um temperamento ranheta — tratava-se, sim, de uma declaração ética frente a uma cultura que engendrava uma das piores catástrofes da humanidade. Criador e redator solitário de Die Fackel (A Tocha), jornal satírico que manteve em Viena por 922 números, Kraus fez da frase curta a sua forma preferida de intervenção naqueles tempos de treva. “Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas”, afirmou. A coletânea que acaba de chegar às livrarias brasileiras (das quais Kraus andava ausente havia décadas) é uma demonstração do poder do aforismo, por um de seus cultores mais inteligentes e radicais.
"As
mulheres pelo menos possuem cosméticos. Mas com o que os homens encobrem
seu vazio?"
"O mundo
é uma prisão em que é preferível a solitária."
"O
segredo do agitador consiste em parecer tão idiota quanto seus ouvintes,
de modo que eles acreditem ser tão inteligentes quanto ele."
Karl
Kraus (1874-1936), escritor austríaco
(Imagno/Getty
Images)
O melhor meio de definir um aforismo é através de um aforismo. Eis o que diz o
americano Mark Twain: “Um mínimo de som para um máximo de sentido”. E o alemão
Friedrich von Schlegel: “A maior quantidade de pensamento no menor espaço”. Exemplos
dessa arte nunca faltaram à literatura, e há mesmo máximas da Antiguidade que
permanecem relativamente vivas na memória atual — como “a arte é longa e a vida
é breve”, atribuída ao médico grego Hipócrates, ou “vaidade das vaidades, tudo
é vaidade”, do Eclesiastes. Cunhar frases definitivas já foi uma espécie
de passatempo aristocrático — na França dos séculos XVII e XVIII, grandes cultores
do gênero foram nobres como o marquês de Vauvenargues e o duque de La Rochefoucauld
(autor de pérolas como “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”).
Ao lado de escritores que burilaram com afinco a brevidade, há aqueles que pontuaram
obras caudalosas com grandes achados aforísticos. “Todas as famílias felizes se
parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira” não vem de uma coletânea
de frases inspiradas — trata-se do início de Anna Karenina, romance do
russo Leon Tolstoi —, mas é uma máxima irretocável. O dramaturgo e jornalista
Nelson Rodrigues gostava de repetir bordões e tiradas em suas crônicas, e muitas
se consagraram até a banalização: “Toda unanimidade é burra”, por exemplo, tornou-se
uma unanimidade.
Sintética, memorizável, a máxima é sabedoria portátil. Presta-se bem a ser colecionada, e reunir aforismos já foi uma arte quase tão delicada quanto cunhá-los (um bom exemplo recente é O Livro das Citações, lançado em 2008 pelo economista Eduardo Giannetti). O francês Michel de Montaigne tinha o costume de gravar pensamentos de autores clássicos no teto do quarto — e usou várias dessas frases como epígrafes em seus Ensaios. A prática de manter um “livro de lugares-comuns” foi costumeira entre leitores do fim da Renascença em diante, só caindo em desuso no limiar do século XX. Thomas Jefferson, um dos patronos da Independência americana e terceiro presidente dos Estados Unidos, deixou uma coletânea dessas, e algumas de suas escolhas (o pendor, por exemplo, para citações misóginas) até hoje insuflam debates entre historiadores. Uma ótima reconstituição desses debates — e, incidentalmente, da história dos livros de lugares-comuns — pode ser encontrada em um dos artigos de A Questão dos Livros, do historiador americano Robert Darnton.
O aforismo não é privilégio de literatos. Grandes líderes deixaram suas coleções de frases certeiras para a posteridade. Contemporâneo de Jefferson, Benjamin Franklin editou um célebre almanaque — Poor Richard’s Alma-nack —no qual distribuiu fartamente suas máximas e conselhos, todos pautados por um bom-senso que às vezes desaba no chão da platitude. “Tempo é dinheiro” é uma criação típica de Franklin. Recentemente, uma coletânea das mais interessantes chegou às livrarias brasileiras: Manual do Líder (tradução de Julia da Rosa Simões; L± 160 páginas; 14 reais), de Napoleão Bonaparte. Essa recolha de ditos do imperador revela um espírito tão prático quanto o de Franklin — mas nem de longe tão generoso. Avulta a objetividade fria do líder militar: “Aquele que não vê o campo de batalha com olhos impassíveis faz homens morrerem inutilmente”. Outras frases ocupam uma sinistra fronteira entre a crítica e a celebração do poder: “Existem tantas leis que ninguém está isento de ser enforcado”.
Karl Kraus vem de uma linhagem diferente. Seu antecessor mais óbvio será talvez Nietzsche, filósofo com o qual partilha o desprezo pela moralidade cristã, além de uma desconfiança orgânica em relação à ditadura das maiorias. Misantropo militante, Kraus pode ser engraçado (especialmente em tiradas machistas como “a cosmética é a cosmologia da mulher”) — mas jamais é ameno. Desprezava a imprensa e os jornalistas, não porque tivesse alma de censor, mas porque detestava a coleção de clichês às vezes inócuos, às vezes patrioteiros e belicistas que via estampados nos jornais austríacos. Suspenso entre os maiores desastres humanos do século XX, Kraus deixou palavras de advertência que ainda hoje guardam uma premência assustadora. Eis a última frase da coletânea recém-lançada no Brasil: “A situação em que vivemos é o verdadeiro fim do mundo: a situação estável”.


