|
|
Ponto
de vista: Lya Luft
Baleias não
me emocionam
"Não
é que eu ache que
sofrimento de animal
não valha a pena, a
solidariedade, o dinheiro.
Mas eu preferia que tudo
isso fosse gasto com
eles depois de não haver
mais crianças pedindo
esmolas, adultos famintos,
famílias morando
embaixo de pontes e adolescentes
morrendo
drogados nas calçadas"
Hoje quero
falar de gente e bichos. De notícias que freqüentemente
aparecem sobre baleias encalhadas e pingüins perdidos em alguma
praia. Não sei se me aborrece ou me inquieta ver tantas pessoas
acorrendo, torcendo, chorando, porque uma baleia morre encalhada.
Mas certamente não me emociona.
Sei que
não vão me achar muito simpática, mas eu não
sou sempre simpática. Aliás, se não gosto de
grosseria nem de vulgaridade, também desconfio dos eternos
bonzinhos, dos politicamente corretos, dos sempre sorridentes ou
gentis. Prefiro o olho no olho, a clareza e a sinceridade
desde que não machuque só pelo prazer de magoar ou
por ressentimento.
Não
gosto de ver bicho sofrendo: sempre curti animais, fui criada com
eles. Na casa onde nasci e cresci, tive até uma coruja, chamada,
sabe Deus por quê, Sebastião. Era branca, enorme, com
aqueles olhos que reviravam. Fugiu da gaiola especialmente construída
para ela, quase do tamanho de um pequeno quarto, e por muitos dias
eu a procurei no topo das árvores, doída de saudade.
Ilustração Ale Setti
 |
Na ilha improvável que havia no mínimo lago do jardim
que se estendia atrás da casa, viveu a certa altura da minha
infância um casal de veadinhos, dos quais um também
fugiu. O outro morreu pouco depois. Segundo o jardineiro, morreu
de saudade do fujão minha primeira visão infantil
de um amor romeu-e-julieta. Tive uma gata chamada Adelaide, nome
da personagem sofredora de uma novela de rádio que fazia
suspirar minha avó, e que meu irmão pequeno matou
(a gata), nunca entendi como uma das primeiras tragédias
de que tive conhecimento. De modo que animais fazem parte de minha
história, com muitas aventuras, divertimento e alguma emoção.
Mas voltemos
às baleias encalhadas: pessoas torcem as mãos, chegam
máquinas variadas para içar os bichos, aplicam-se
lençóis molhados, abrem-se manchetes em jornais e
as televisões mostram tudo em horário nobre. O público,
presente ou em casa, acompanha como se fosse alguém da família
e, quando o fim chega, é lamentado quase com pêsames
e oração.
Confesso
que não consigo me comover da mesma forma: pouca sensibilidade,
uma alma de gelos nórdicos, quem sabe? Mesmo os que não
me apreciam, não creiam nisso. Não é que eu
ache que sofrimento de animal não valha a pena, a solidariedade,
o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois
de não haver mais crianças enfiando a cara no vidro
de meu carro para pedir trocados, adultos famintos dormindo em bancos
de praça, famílias morando embaixo de pontes ou adolescentes
morrendo drogados nas calçadas.
Tenho certeza
de que um mendigo morto na beira da praia causaria menos comoção
do que uma baleia. Nenhum Greenpeace defensor de seres humanos se
moveria. Nenhuma manchete seria estampada. Uma ambulância
talvez levasse horas para chegar, o corpo coberto por um jornal,
quem sabe uma vela acesa. Curiosidade, rostos virados, um sentimentozinho
de culpa, possivelmente irritação: cadê as autoridades,
ninguém toma providência?
Diante
de um morto humano, ou de um candidato a morto na calçada,
a gente se protege com uma armadura. De modo que (perdão)
vejo sem entusiasmo as campanhas em favor dos animais pelo
menos enquanto se deletarem tão facilmente homens e mulheres.
Lya Luft é escritora
|