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Entrevista: Garry
Kasparov
"Sou o melhor"
O campeão de xadrez diz que adora Paulo
Coelho e que está para surgir oponente, máquina ou
homem, que o vença no tabuleiro

Monica Weinberg
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Massao Goyo Filho

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"Os campeões
de xadrez têm a mente estreita.
Seu único objetivo é desenvolver a inteligência...
para jogar xadrez" |
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Nos últimos dezenove anos, ninguém
roubou do russo Garry Kasparov o primeiro lugar no ranking internacional
do xadrez. Filho de um casal de engenheiros, ele aprendeu a jogar
aos 7 anos de idade. Nascido no auge da Guerra Fria, Kasparov conquistou,
aos 22 anos, o título de campeão mundial de xadrez
o tipo de conquista que os dirigentes de seu país
costumavam apregoar como símbolo da superioridade intelectual
soviética. Apesar disso, ele nunca foi um entusiasta do regime
comunista. Hoje, aos 41 anos, vivendo em Moscou, continua um crítico
do governo russo, que considera "autoritário e corrupto".
Separado, pai de dois filhos, o enxadrista dá palestras a
executivos de diversos países sobre como ter sucesso nos
negócios usando estratégias do jogo no qual é
gênio. Com esse objetivo, e acompanhado da namorada, a economista
russa Daria Tarazova, de 23 anos, ele esteve na semana passada em
São Paulo, onde também participou de um torneio amador
de xadrez. Kasparov concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja O escritor e humorista
brasileiro Millôr Fernandes escreveu certa vez que "o xadrez
é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar
xadrez". O senhor concorda?
Kasparov Ele está certo em uma coisa: a maioria
dos campeões só quer desenvolver a habilidade de jogar
xadrez em nome de uma meta individualista, uma viagem ao próprio
umbigo, em que o objetivo é ser mais e mais inteligente para...
jogar xadrez. Os campeões têm, sim, a mente estreita.
É preciso reconhecer que, para estar no topo da lista, não
há muita escapatória. Despejar toda a energia no jogo,
como eles fazem, torna-se um mal necessário. Eu tento fugir
dessa sina como posso. Leio, vou ao cinema, dou palestras, escrevo
livros, faço ginástica, penso nos meus filhos. Mas
acho que o escritor cometeu um equívoco em sua afirmação.
Veja Qual?
Kasparov Ele está olhando apenas para aquele
1% das pessoas que jogam xadrez profissionalmente. Para o resto,
o jogo não tem nada de limitador. Ao contrário, ajuda
a abrir a cabeça. Está comprovado que o xadrez ajuda
a melhorar a atenção, a disciplina, o pensamento lógico
e a imaginação. Não é por acaso que,
nas 13.000 escolas americanas onde se
ensina xadrez, as crianças têm melhor desempenho em
disciplinas como matemática e redação. Elas
também demonstram ter um senso de responsabilidade mais aguçado.
Veja Qual é a relação
entre xadrez e senso de responsabilidade?
Kasparov Está na moda dizer que tudo que acontece
de ruim é responsabilidade de todo mundo. O jogo coloca as
coisas no seu devido lugar: é você quem responde pelo
movimento de suas peças, e mais ninguém. Como na vida,
você é o único responsável pelos próprios
atos.
Veja O senhor considera o
xadrez um jogo mais inteligente que os outros?
Kasparov É o jogo mais inteligente. Demanda
raciocínio sofisticado e não conta com técnicos,
time nem sorte. O pôquer é complexo, mas, ainda assim,
um jogador ruim pode vencer uma partida porque recebeu as melhores
cartas. Num esporte de equipe, como o futebol, se o time vai bem,
um Ronaldinho tem um ambiente favorável para brilhar e fazer
gols. Já no xadrez, você está solitário
do primeiro ao último lance. Se é derrotado, o fracasso
é só seu.
Veja A derrota ainda lhe
causa sofrimento?
Kasparov Perder é terrível. A derrota
nunca deixa de doer fundo. Toda vez que isso ocorre, fico me punindo
mentalmente, refazendo a partida na cabeça: "Onde errei?".
E olha que jogo xadrez praticamente desde que saí da maternidade.
Veja Como era ser um jovem
campeão de xadrez na União Soviética, em plena
Guerra Fria?
Kasparov Certamente fui mais feliz do que os jovens
da minha idade que viveram na velha União Soviética.
A fama e o dinheiro me proporcionaram um artigo raro na época:
a liberdade. Enquanto meus colegas ficavam restritos às prateleiras
de produtos soviéticos, eu viajava pelo mundo e via filmes
que conseguia no mercado negro. Sim, porque o sistema era hipócrita.
Quem tinha dinheiro assistia em casa a filmes que jamais passariam
no cinema comunista, como O Poderoso Chefão e Apocalypse
Now. Fui privilegiado por ter acesso aos prazeres do Ocidente,
embora o governo não gostasse de mim.
Veja Por quê?
Kasparov Nos bastidores, eu era visto como um alienígena.
Primeiro, não gostavam da minha origem "pouco pura": sou
filho de pai judeu com mãe armênia. Depois, nunca me
manifestei a favor do governo russo eles sabiam, por exemplo,
que eu jamais serviria no Exército. Por causa de coisas como
essas, minha presença no pódio do xadrez soviético
era incômoda para o regime. Eles teriam preferido dar o ouro
a um sujeito como Anatoly Karpov, abertamente simpático ao
comunismo e de quem roubei o título mundial.
Veja O senhor chegou a ser
prejudicado pelo regime?
Kasparov Em 1984, Karpov ainda era o melhor do mundo
quando disputamos um torneio em Moscou. No início, ele estava
ganhando, mas bastou a situação começar a se
inverter para a federação suspender o campeonato,
alegando que estávamos intelectualmente exauridos, sem condição
de continuar. Eu me senti prejudicado. Um ano depois, contudo, faturei
o título mundial e o governo teve de se resignar com o fato.
Como eu era campeão, eles eram forçados a me tratar
como um animal sagrado, um troféu nacional.
Veja O xadrez era tão
popular na União Soviética como o futebol no Brasil?
Kasparov O xadrez nunca esteve perto de ser na União
Soviética uma paixão nacional capaz de fazer um país
inteiro chorar ou ir ao delírio, como acontece com o futebol
no Brasil. Sempre foi um jogo utilizado como ferramenta ideológica
do regime. Ganhar um torneio mundial de xadrez era uma forma de
mostrar a supremacia intelectual soviética sobre o Ocidente
"decadente". Por isso, o governo nunca investiu na massificação
do esporte. O objetivo era apenas encontrar os supertalentos no
meio de 1 milhão de pretendentes e estampá-los na
vitrine do país. Foi sorte minha ter sido pescado na multidão.
Veja O senhor acredita em
sorte?
Kasparov Para quem é brilhante, a sorte pesa
menos. Quando o talento de uma pessoa é excepcional, como
no meu caso, fica mais difícil passar uma vida inteira sem
que ele seja descoberto. Beethoven e Verdi, por exemplo, eram considerados
alunos de música ruins, mas acabaram tendo seu talento desvendado.
O problema é quando as pessoas têm algum talento, mas
nada que seja excepcional. Nesse caso, a sorte é mais importante.
As que contam com ela vão bem na vida. Já a massa
está fadada à mesmice e ao anonimato, mesmo sendo
talentosa. Por quê? Azar do destino. Nesse ponto, acho que
falo a mesma língua do Paulo Coelho. É um escritor
que me serve de referência filosófica.
Veja O que o senhor gosta
na obra do Paulo Coelho?
Kasparov Consulto sempre O Alquimista, que
fica na minha mesinha-de-cabeceira. Ele mostra como a intuição
é importante no processo de tomada de decisão. Uso
isso no xadrez, que, diferentemente do que muita gente acredita,
não é um jogo matemático finito, previsível.
O xadrez é matematicamente infinito. Coloca diante de você
milhares de possibilidades. Por isso, a intuição é
importante: você tem de recorrer a ela na hora de optar por
um movimento no tabuleiro.
Veja Nas partidas que disputou
contra o computador, o senhor ganhou e perdeu. Na sua opinião,
quem é mais forte: o homem ou a máquina?
Kasparov A desvantagem do homem em relação
à máquina é que o computador é psicologicamente
preciso, perfeito. Não tem instabilidade, mau humor, irritação,
dor de cabeça. Já a vantagem do homem sobre o computador
é a flexibilidade. O computador nasce programado para olhar
o jogo de um determinado jeito, com uma estratégia preestabelecida,
amarrada. E não muda. Eu, não. Tenho a habilidade
de refazer a estratégia, trocar minhas prioridades. A máquina
é movida pela lógica do cálculo perfeito. O
homem tem o poder de fazer julgamentos. Tenho certeza de que o melhor
homem, no seu melhor dia, ainda bate a eficiência da máquina
e vai ser assim durante muito tempo. Quando digo "o melhor
homem", estou me referindo a não mais que quatro, cinco jogadores
no mundo inteiro. Eu já provei ser um deles. Venci, mas fiquei
exaurido, estraçalhado. Jogar me cansa cada vez mais.
Veja A idade atrapalha?
Kasparov Atrapalha. Não tenho mais a concentração
de antes porque a minha cabeça está cheia de preocupações
que passavam longe da minha juventude em Moscou. O acúmulo
de atribuições típicas da minha idade contribui
para fragilizar a concentração, vital para vencer
o jogo. Também não sou mais movido por aquela fome
louca de ganhar, ganhar e ganhar. Tenho essa voracidade em alguns
jogos, não mais em todas as partidas como antes. E, para
completar, o xadrez está se tornando um esporte cada vez
mais físico, o que definitivamente coloca os mais velhos
como eu em franca desvantagem.
Veja Como assim, "mais físico"?
Kasparov O xadrez é o mais violento dos esportes.
Como numa guerra, o objetivo é minar o inimigo psicologicamente
para trucidá-lo no tabuleiro. Nessa batalha, tem mais chances
de vencer quem consegue despejar mais energia e manter mais concentração
na partida. Energia e concentração, infelizmente,
encolhem com a idade. Não é por acaso que os bons
jogadores são cada vez mais jovens. A média de idade
dos campeões é de 30 anos e está caindo.
Veja O senhor acha que as
pessoas que não conseguem aprender xadrez são menos
inteligentes do que aquelas que aprendem e jogam bem?
Kasparov Pessoas que tenham um mínimo de interesse
pelo jogo assimilam pelo menos o básico. Quem consegue superar
esse nível rudimentar demonstra uma rara capacidade para
fazer julgamentos e tomar decisões. Se fosse um executivo
e quisesse recrutar um funcionário para a minha equipe, certamente
ficaria com aquele que venceu os concorrentes no jogo.
Veja Em suas palestras, o
senhor diz que o uso de estratégias do xadrez pode ser útil
nos negócios. Pode explicar melhor?
Kasparov Acho que alguns ensinamentos extraídos
do jogo podem servir de ferramenta para aumentar a produtividade
em grandes companhias, por exemplo. Falo para os executivos nas
palestras que dou pelo mundo que eles perdem tempo demais com detalhes.
Digo que é importante ter distanciamento para olhar o jogo
inteiro, uma visão panorâmica que permita traçar
estratégias. Poucos conseguem virar essa chave.
Veja Que tipo de conselho
o senhor dá para que consigam?
Kasparov O primeiro passo é prestar atenção
na própria personalidade, mapeando defeitos e qualidades
profissionais, para depois fazer a mesma coisa em relação
ao oponente. O objetivo é criar um ambiente de negócios
favorável a você um ambiente em que as suas
qualidades possam sobressair. É exatamente como no xadrez:
é preciso conhecer o padrão do jogo, o estilo do adversário
e seu desempenho nas últimas negociações. Outro
ponto de minhas palestras, talvez o mais difícil, é
como fazer o empresário entender que é necessário
mudar a fórmula que já o levou ao sucesso uma vez.
Ele tende a repeti-la. Ocorre que, se já deu certo, dificilmente
dará de novo, porque a fórmula já terá
se tornado previsível.
Veja O senhor acha que seria
um bom executivo?
Kasparov Confesso que não. Prefiro a solidão
do xadrez.
Veja Os esportes de equipe
não o atraem?
Kasparov Tenho trauma de esportes de equipe. Certa
vez, estava jogando uma partida de futebol. Fui dar uma cabeçada
e consegui quebrar o nariz no confronto com outro jogador. Tenho
nariz achatado até hoje por causa desse episódio.
Esportes que demandam contato físico me metem medo. Por isso,
não jogo vôlei nem basquete. Prefiro ficar nas modalidades
individuais. Pratico remo e natação, por exemplo.
Em termos de contato físico, o que mais gosto é de
falar em público e ser parado na rua por um admirador.
Veja O senhor parece gostar
muito da fama.
Kasparov É bom ser uma celebridade. Você
ganha dinheiro, come a melhor comida, fica nos melhores hotéis
e, no meu caso, tem liberdade de expressão. Por outro lado,
por uma questão de segurança, vivo como se houvesse
um vidro me separando do resto da humanidade. Isso é angustiante.
Fui ao Rio de Janeiro em 1996 e me disseram que era uma cidade perigosa.
A coisa mais ousada que consegui fazer foi visitar um bufê
self-service de sorvete. Outro problema do sucesso é que
ele traz inimigos.
Veja O senhor tem muitos?
Kasparov Tenho vários. Quem está no
topo tanto tempo como eu coleciona inimigos. A maioria das pessoas
odeia quando você ganha. Mas que fique claro: não estou
nem aí para os meus oponentes. Sei que, se jogo bem, ganho.
Sou como a Seleção Brasileira de Futebol. No xadrez,
não existe ninguém à minha altura.
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