Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo Moratória aérea,
já
A tragédia
de Congonhas decorreu de uma
inépcia conjuntural aliada a uma tibieza histórica
O desastre da Gol,
dez meses atrás, ficou escondido na floresta. Este,
ao contrário, ocorrido numa rua movimentada da mais
movimentada cidade do país, converteu-se num outdoor
da incompetência governamental brasileira. Se houvesse
coragem e vergonha na cara, a partir daquele exato momento
em que o avião da TAM escapou da pista, deu um rasante
sobre a avenida e foi embrechar-se no prédio do outro
lado, deveria ter sido decretada uma geral e inapelável
moratória aérea no país. Pousos e decolagens
seriam suspensos, em todo o território nacional, pelo
tempo necessário para uma ampla e definitiva rearrumação
de todas as etapas do tráfego aéreo. Dane-se
que famílias se veriam separadas, que autoridades se
achariam impedidas de executar suas funções,
que negócios deixariam de ser feitos, que muita atividade
seria paralisada e muito dinheiro perdido. Dane-se que se
condenariam milhões de pessoas a buscar socorro na
falida rede rodoviária nacional. Dane-se que o país
se converteria em alvo de chacota do mundo mesmo porque
já é. A verdade nua e crua, depois que, no curto
espaço de dez meses, foram quebrados dois recordes
em matéria de vítimas em acidentes aéreos,
é que o Brasil não é um país onde
se possa voar de modo seguro, para não falar em conforto
e observância de horários. Melhor, sendo assim,
é não voar de vez.
A causa ou as causas
exatas do acidente ainda demorarão para ser anunciadas,
se é que o serão um dia. Aguardam-nos, nos próximos
meses, a lengalenga e o empurra-empurra habituais. Mas é
certo 1) que a pista principal do Aeroporto de Congonhas,
na qual tentava pousar o avião da TAM, foi entregue
sem as ranhuras que possibilitam o escoamento da água,
depois de ter permanecido fechada, durante meses, para reformas
realizadas, precisamente, para prevenir derrapagens, e 2)
que dois casos de aviões que derraparam se registraram,
nos dias anteriores. Ou seja: é de palmar evidência
que a pista não apresentava boas condições.
Eis-nos diante de um caso, tão tipicamente Brasil,
de obra pública malfeita, ou feita pela metade. Tal
circunstância tipifica o acidente como fruto mais do
que provável de uma incompetência conjuntural,
aliada a uma tibieza histórica.
A incompetência
conjuntural é a do governo Lula. Jamais, neste país,
se viu governo que combinasse tanta papagaiada com tão
pouca ação. Nos dez meses em que, a partir do
acidente da Gol, a crise aérea aflorou em toda a sua
magnitude, num coquetel que mistura controladores de vôo
rebeldes, infra-estrutura deficiente e empresas aéreas
sem respeito pela clientela, o presidente rugiu, esbravejou
e ameaçou na mesma medida em que tomou providência
zero. O que ficou claro, nesse período, foram o caráter
decorativo do Ministério da Defesa; a inoperância
da Anac, a Agência Nacional de Aviação
Civil, vitimada, como as demais agências reguladoras,
pela ideológica má vontade petista; o atordoamento
da Aeronáutica, perdida entre a defesa dos sistemas
pelos quais é responsável e a luta pela preservação
de seus nichos na aviação civil; e as artimanhas
da Infraero, tão notória pelas lojas que multiplica
nos aeroportos quanto pelos escândalos que se esfalfa
por manter fora do alcance das investigações.
O fato de ter privilegiado uma ampla reforma nas instalações
de embarque e desembarque em Congonhas sobre a reforma da
pista diz tudo da filosofia da empresa. Ela age como um hospital
mais voltado para os bordados nos lençóis do
que para manter em ordem os bisturis dos cirurgiões.
A tibieza histórica
é a complacência com que, já há
muitos governos, se empurra o problema de Congonhas. Não
é só inconveniente, é louco ter num aeroporto
pequeno, cercado de ruas, trânsito intenso, prédios
e casas, o mais movimentado do país. Surge um acidente,
como o de 1996, em que um avião da TAM desabou sobre
casas da vizinhança, e o problema vem à tona.
Em seguida é esquecido. Os passageiros pressionam as
companhias aéreas, que pressionam as autoridades, e
uma quantidade crescente de vôos vai sendo alocada em
Congonhas, para fugir dos mais distantes Cumbica e Viracopos.
A conversa de construir um trem expresso para Cumbica, ou
mesmo para Viracopos, não serve senão de flauta
para encantar os carneirinhos. Se alguma coisa é líquida
e certa, neste último acidente, é que, se não
fosse em Congonhas, não ocorreria. O avião não
encontraria um prédio em sua arremetida. E muito menos
um prédio com um posto de gasolina ao lado até
posto de gasolina tem ali, grudado!
O apagão
aéreo, desdobrado em dupla tragédia, ocorre
no mesmo país em que se moldam as convicções
com mensalões, se assalta o Ministério da Saúde
com a compra de ambulâncias superfaturadas, empreiteiras
conhecem a prosperidade erguendo pontes do nada para lugar
nenhum, plataformas de exploração de petróleo
fazem jorrar ouro no bolso de espertalhões e o Congresso
Nacional serve de homizio para autores de crimes e malfeitorias.
Nada, na esfera pública, dá certo.