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25 de julho de 2007
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Especial
Faces da tragédia
que comoveu o Brasil

Profissionais no auge da carreira, jovens cheios de planos, crianças voltando das férias, senhoras aposentadas, duas grávidas. Vidas ceifadas, sorrisos que não existem mais

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Nesta reportagem
Quadro: As vítimas

Depois que o pior acontece, gestos que se dissolveriam na banalidade do cotidiano ganham uma dimensão terrível. Por que o aspirante a piloto conseguiu entrar no vôo fatídico no último minuto? Por que o marido deixou a mulher e o filhinho embarcarem no último assento disponível? Como uma família inteira pega um avião para voltar de férias e é varrida do mapa? Como um pai vai esperar o filho no aeroporto e vê o avião desaparecer em chamas? São perguntas sem respostas, mas lembrar as histórias dos que se foram e o sofrimento dos que ficaram é uma forma de dizer que todas as vidas têm um valor intrínseco que nada apagará. Nestas páginas, algumas dessas histórias de vítimas e de sobreviventes.

 

"Eu deveria estar no lugar deles"

Roberto Setton


O amazonense Ildercler Ponce de Leão, de 42 anos, deixou o único lugar disponível no vôo 3054 para sua esposa, Jamile, de 21 anos, com o bebê do casal, Levi, de 1 ano e 7 meses. Nesse vôo, a mulher e a criança poderiam fazer uma conexão direta para Manaus, onde a família morava e Ildercler tem uma empresa de manutenção. Ele pegou outro vôo, da Gol, cuja conexão exigiria recolher as malas e fazer novo check-in em São Paulo. Foi uma decisão pragmática, banal, que iria adquirir dimensões trágicas. A família vinha de um passeio pela serra gaúcha. Tivera a sorte de ver neve em Gramado. Jamile e Ildercler tinham se casado havia três anos, depois de um namoro rapidíssimo. Recém-saído de um relacionamento amoroso, Ildercler costumava trocar confidências com uma amiga, Gisele. Quase sempre, quem atendia o telefone era a irmã mais nova dela, Jamile. "Ela tinha a capacidade de me tocar com palavras de fé e amor. Propus casamento em três meses", ele conta. Quando se despediu da mulher e do filho no aeroporto de Porto Alegre, o menino deixou com o pai seu carrinho de estimação. "Não consigo mais largar esse brinquedo", disse Ildercler a VEJA, na sexta-feira passada.

 

O gesto que salvou uma vida

Silvia Zamboni/Folha Imagem

O que acontece quando sua vida depende de um grito de socorro e você não tem mais forças nem para isso? O ascensorista Renato Soares dos Santos, 31 anos, estava no 2° andar do prédio da TAM Express quando o avião atingiu o edifício. Sua primeira reação foi chamar o elevador para ter certeza de que ninguém havia ficado preso. O elevador estava parado. Renato tentou então achar a saída pela escada. Não conseguiu. Foi quando sua irmã, Regina, que sabia que ele estava no prédio, ligou para seu celular: "Tentei acalmá-lo. Disse que os bombeiros já estavam com seu número de telefone e logo iriam resgatá-lo". Deitado de bruços no chão para evitar aspirar a fumaça, o ascensorista ainda ouvia os gritos de outros funcionários. Aos poucos, foi perdendo a consciência. Cerca de vinte minutos depois, quando os bombeiros chegaram, ouviu um deles perguntar se havia alguém no local. Sem voz nem forças para pedir ajuda, Renato fez o gesto que salvou sua vida: começou a bater com uma das mãos no chão. Conseguiu ser ouvido.

 

Ela já sabia: seria menina

Álbum de família


Nos últimos quatro meses, a advogada gaúcha Fabiana Hetzel Amaral, de 32 anos, passou a dividir o trabalho no escritório de advocacia Freitas de Siqueira, em Porto Alegre, com os preparativos para a chegada do bebê. Estava animadíssima. Afinal, passara um ano tentando engravidar. Há quinze dias, Fofa, como era chamada pelos amigos e pela família, fizera um exame pré-natal e descobrira que, muito provavelmente, teria uma menina. Feliz da vida, avisou as colegas: iria se chamar Maria Vitória. Como qualquer mãe de primeira viagem, saiu afoita em busca dos preparativos. Comprou o carrinho do bebê e até um aparelho daqueles que ajudam a tirar o leite dos seios. Também contratou uma arquiteta para decorar o quarto da filha, na casa que comprara com o marido havia dois anos. Era uma nova fase de sua vida. Na terça-feira, embarcou para São Paulo, onde apresentaria no dia seguinte uma palestra sobre precatórios, uma das áreas em que atuava. Deixou o carro no estacionamento da empresa porque a viagem seria curta. Quando a TV deu as primeiras informações sobre o acidente com o vôo da TAM, amigos e familiares pensaram no bebê. Fofa, sempre forte, iria sobreviver, acreditavam eles. Mas o final da história foi diferente.

 

Atrasado, ele correu para embarcar

Álbum de família

Ao chegar ao aeroporto de Porto Alegre para embarcar para São Paulo, Diogo Casagrande Salcedo, 25 anos, foi informado de que o check-in do vôo das 17 horas já estava encerrado. Como ele viajava por conta da companhia aérea, a funcionária do balcão decidiu ajudá-lo. Deu nova olhada no computador e avisou que, se Diogo corresse, conseguiria embarcar. Foi o que ele fez. Queria chegar logo a São Paulo, onde tinha marcado um exame psicotécnico, última etapa do processo seletivo para se tornar piloto da TAM. Nas duas terças-feiras anteriores, Diogo havia feito o mesmo percurso para realizar provas de seleção. "Nosso azar foi a funcionária ter conseguido embarcá-lo", lamenta seu pai, Luiz Antonio Salcedo. Se passasse no exame, Diogo realizaria um antigo sonho. Na infância, o tema favorito de seus desenhos eram os aviões. Na adolescência, praticou aeromodelismo. Adulto, tornou-se piloto de táxi aéreo. Antes de viajar, Diogo esboçou a apresentação que faria no dia seguinte: "Nas horas vagas gosto de praticar esportes, entre eles tênis e natação. Tenho uma namorada há seis anos com quem pretendo me casar. Estou muito interessado em fazer parte da TAM e ajudar...".

 

"Meu filho só queria chegar mais cedo em casa"

Roberto Setton

O paulista Lamir Buzzanelli, de 67 anos, aguardava o desembarque do filho, o engenheiro químico Claudemir Buzzanelli Arriero, ao lado de seu táxi, estacionado em frente ao aeroporto. Foi surpreendido por um forte estrondo seguido de labaredas a apenas 70 metros de distância. O taxista consultou o relógio. Eram 18h45, minutos depois do horário previsto para a aterrissagem do avião no qual viajava Claudemir. Pensou logo no pior: "Tive a certeza no meu coração de que aquele era o avião em que estava meu filho". Lamir ficou alguns minutos sem ação, desnorteado, até começar a perguntar sobre o acidente a todo mundo que passava. Ainda tentou seguidas vezes falar com Claudemir no celular, sem sucesso. Minutos antes de entrar no avião, o engenheiro químico, que havia viajado a Porto Alegre a trabalho, avisou ao pai e à mulher, Rosely, que conseguira antecipar seu vôo e chegaria mais cedo em casa. Estava ansioso para voltar a tempo de jantar com a família naquela noite. Aos 41 anos, ele tinha dois filhos, um de 21 e outro de 13 anos. "Um acidente como esse destrói famílias inteiras", desabafa Rosely.

 

"Não sei mais o que será de mim sem eles"

Que mãe não sentiu o coração encolher ao ouvir pela televisão o "não" vindo do fundo das entranhas de Christiane Bueno? Ao receber a confirmação da queda do avião em que estavam seus dois filhos, a estilista de 40 anos literalmente desabou. A viagem era comum na vida de Rafaella Bueno Dalprat, de 17 anos, e Caio, de 12. Desde pequenos, eles faziam a mesma coisa nas férias escolares de janeiro e de julho: pegavam um avião para Porto Alegre e iam ver o avô, Ítalo Dalprat, e outros parentes gaúchos. "Era para ser mais uma viagem de rotina, nada além disso. Eles fizeram isso inúmeras vezes e nada aconteceu. Por que agora?", perguntava-se Christiane, a dor indizível apenas entorpecida por tranqüilizantes. "Não sei mais o que será de mim sem eles." Caio estava na 7ª série. Era um garoto meigo, capaz de expressar a paixão pelo avô Ítalo de forma comovente. "Vovô, você nem sabe quanto eu te amo", disse ele ao deixar Porto Alegre. Rafaella, a quem Caio chamava de "anjo da guarda", gostava de música e de sair com as amigas. Em janeiro, tinha passado no vestibular para o curso de rádio e TV.

 

Quatro meses de felicidade e muitos planos

Há quatro meses, o gaúcho Peter Max Finzsch, 28 anos, casou-se com Helena Braga, 26, namorada desde a faculdade. Eles tinham acabado de comprar um apartamento em Porto Alegre. No domingo, dois dias antes de ele embarcar no Airbus da TAM, o casal passeou pelo bairro onde fica o imóvel. Na ocasião, ele confidenciou à mulher: "Nunca fui tão feliz". Analista de sistemas na siderúrgica Gerdau, Peter tinha planos de morar nos Estados Unidos, para onde viajava freqüentemente a trabalho. "Ele estava no melhor momento profissional da sua vida e muito contente com o casamento", lembra o pai, Horst Max Finzsch. Na terça-feira, minutos antes de embarcar no fatídico vôo da TAM, Peter conversou pelo celular com o pai. Disse que acabara de entrar no avião e, assim que chegasse a São Paulo, ligaria de volta.

 

Uma família inteira riscada do mapa

Férias de inverno na florida Gramado, vida consolidada na ensolarada Natal. No percurso de volta, o aeroporto de Congonhas seria apenas uma escala para a família Cunha. Ivanaldo Arruda da Cunha, de 51 anos, tinha o perfil do homem que vai atrás de oportunidades. Nascido em Santana do Matos, no interior do Rio Grande do Norte, mudou-se para São Paulo aos 17 anos, em busca de trabalho. Na capital paulista conheceu Zenilda. Casaram-se, tiveram dois filhos, deram-lhes nomes imponentes – Caio Felipe e Ana Carolina. Em 2003, com medo da violência, a família decidiu se estabelecer em Natal, onde o empresário era dono de dois postos de gasolina. Nos últimos meses, Caio havia descoberto as corridas de kart. "Apesar de ser um empresário ocupado, Ivanaldo encontrava tempo para se divertir com a família. Eles apareciam aqui todos os fins de semana", conta Ribamar Cavalcante, administrador do kartódromo de Natal. Um dia antes do acidente, na segunda-feira, Cavalcante recebeu um telefonema de Gramado. Era Caio, feliz da vida, contando que o pai havia lhe dado um kart de presente. Ele estava com 13 anos; Ana Carolina, com 10.

 

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