Luiz
Felipe de Alencastro
Desdobramentos
do Brasil
"Há
16 000 sacerdotes
nas 250
dioceses brasileiras. Mas o número de
padres afro-brasileiros mal chega a 1 000"
Ilustração Ale Setti
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Dom Pedro Carlos Zilli, paulista de nascimento, ordenado bispo recentemente,
vai para a Guiné-Bissau a fim de assumir a diocese de Bafatá.
Registrada pela imprensa, a notícia não ganhou o destaque
que merecia. Pela primeira vez, o Vaticano nomeia um bispo brasileiro
para uma diocese estrangeira. Em si, a nomeação é
importante, mas o fato de o bispado pertencer a um país lusófono
africano dá ao evento uma dimensão histórica.
A saga da
Igreja portuguesa na África estendendo-se por mais de 500
anos aparece como uma sucessão de sacrifícios, de
sucessos, de dramas e de fiascos. Desde o século XVI o tráfico
negreiro português desorganizou a obra dos missionários em
favor das populações africanas. No regime salazarista (1928-1974),
a Igreja portuguesa engajou-se ao lado do autoritarismo, tanto na metrópole
como nas colônias africanas. Com o surgimento dos movimentos independentistas,
o Vaticano marcou distância do colonialismo obtuso praticado por
Lisboa e, em 1969, o papa Paulo VI recebeu em audiência os líderes
nacionalistas da África lusófona.
Todavia,
a independência de Moçambique, Angola, São Tomé
e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau provocou o êxodo
dos colonos portugueses, levando de roldão boa parte do clero católico
desses países. Perigavam 500 anos de catequese nas terras africanas.
Atento às ex-colônias portuguesas, o papa fez apelo à
experiência brasileira, nomeando para a chefia da Congregação
para a Evangelização dos Povos o ministério
do exterior do Vaticano monsenhor Agnelo Rossi, ex-arcebispo de
São Paulo. Tal é a perspectiva mais ampla em que se insere
a nomeação de dom Pedro Carlos Zilli para o bispado de Bafatá.
O novo bispo já conhece sua diocese, pois missionou na Guiné-Bissau
entre 1985 e 1998. Ele sabe dos antigos laços que ligavam os guineenses
aos brasileiros.
De fato,
a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778),
fundada pelo marquês de Pombal, detinha o monopólio do comércio
da Amazônia, mas também o governo da Guiné-Bissau.
De 1756 a 1801 perto de 40.000 escravos guineenses
desembarcaram em Belém e São Luís. Boa parte dos
afro-brasileiros do Norte do país descende desses deportados.
A Igreja
brasileira poderá revigorar o catolicismo na África lusófona?
Talvez. Mas é certo que suas chances e as chances do catolicismo
seriam maiores se ela tivesse sido mais aberta aos afro-brasileiros.
Segundo
um estudo dos missionários da Congregação Dom Orione,
há 16.000 sacerdotes nas 250 dioceses
brasileiras. Cerca de 12.000 são brasileiros
natos e os restantes pertencem a várias nacionalidades. No contingente
nacional, o número de sacerdotes afro-brasileiros mal chega a 1.000.
Há mais de trinta anos, o número desses padres era inferior
a 100. Assim, o aumento do clero negro no Brasil é recente e responde
às reformas do Concílio Vaticano II, da década de
60.
Quinhentos
anos depois do Descobrimento, a parcimônia dessas cifras representa
um desafio para a Igreja Católica brasileira.
Periodicamente,
as estatísticas demonstram os mecanismos ocultos e declarados que
restringem a ascensão social dos negros brasileiros. Situação
absurda que atinge, em sua generalidade, 43% da população,
ou seja, cerca de 73 milhões de nossos compatriotas. Paradoxalmente,
os princípios da democracia racial são largamente explicitados
na legislação e no ensino brasileiros. Aliás, um
dispositivo pouco lembrado da Constituição, o paragrafo
1° do artigo 242, é claro: "O ensino da História do
Brasil levará em conta as contribuições das diferentes
culturas e etnias para a formação do povo brasileiro".
Com todo
o respeito aos missionários e à obra da Igreja, talvez fosse
interessante incluir no regulamento dos seminários nacionais uma
adaptação desse dispositivo constitucional: "O ensino sacerdotal
incluirá os descendentes das diferentes culturas e etnias que contribuíram
para a formação do povo brasileiro".
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador
e professor titular da Universidade de Paris Sorbonne
(lfa@workmail.com)
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