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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

Desdobramentos
do Brasil

"Há 16 000 sacerdotes nas 250
dioceses brasileiras. Mas o número
de
padres
afro-brasileiros mal chega a 1 000"


Ilustração Ale Setti


Dom Pedro Carlos Zilli, paulista de nascimento, ordenado bispo recentemente, vai para a Guiné-Bissau a fim de assumir a diocese de Bafatá. Registrada pela imprensa, a notícia não ganhou o destaque que merecia. Pela primeira vez, o Vaticano nomeia um bispo brasileiro para uma diocese estrangeira. Em si, a nomeação é importante, mas o fato de o bispado pertencer a um país lusófono africano dá ao evento uma dimensão histórica.

A saga da Igreja portuguesa na África – estendendo-se por mais de 500 anos – aparece como uma sucessão de sacrifícios, de sucessos, de dramas e de fiascos. Desde o século XVI o tráfico negreiro português desorganizou a obra dos missionários em favor das populações africanas. No regime salazarista (1928-1974), a Igreja portuguesa engajou-se ao lado do autoritarismo, tanto na metrópole como nas colônias africanas. Com o surgimento dos movimentos independentistas, o Vaticano marcou distância do colonialismo obtuso praticado por Lisboa e, em 1969, o papa Paulo VI recebeu em audiência os líderes nacionalistas da África lusófona.

Todavia, a independência de Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau provocou o êxodo dos colonos portugueses, levando de roldão boa parte do clero católico desses países. Perigavam 500 anos de catequese nas terras africanas. Atento às ex-colônias portuguesas, o papa fez apelo à experiência brasileira, nomeando para a chefia da Congregação para a Evangelização dos Povos – o ministério do exterior do Vaticano – monsenhor Agnelo Rossi, ex-arcebispo de São Paulo. Tal é a perspectiva mais ampla em que se insere a nomeação de dom Pedro Carlos Zilli para o bispado de Bafatá. O novo bispo já conhece sua diocese, pois missionou na Guiné-Bissau entre 1985 e 1998. Ele sabe dos antigos laços que ligavam os guineenses aos brasileiros.

De fato, a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778), fundada pelo marquês de Pombal, detinha o monopólio do comércio da Amazônia, mas também o governo da Guiné-Bissau. De 1756 a 1801 perto de 40.000 escravos guineenses desembarcaram em Belém e São Luís. Boa parte dos afro-brasileiros do Norte do país descende desses deportados.

A Igreja brasileira poderá revigorar o catolicismo na África lusófona? Talvez. Mas é certo que suas chances – e as chances do catolicismo – seriam maiores se ela tivesse sido mais aberta aos afro-brasileiros.

Segundo um estudo dos missionários da Congregação Dom Orione, há 16.000 sacerdotes nas 250 dioceses brasileiras. Cerca de 12.000 são brasileiros natos e os restantes pertencem a várias nacionalidades. No contingente nacional, o número de sacerdotes afro-brasileiros mal chega a 1.000. Há mais de trinta anos, o número desses padres era inferior a 100. Assim, o aumento do clero negro no Brasil é recente e responde às reformas do Concílio Vaticano II, da década de 60.

Quinhentos anos depois do Descobrimento, a parcimônia dessas cifras representa um desafio para a Igreja Católica brasileira.

Periodicamente, as estatísticas demonstram os mecanismos ocultos e declarados que restringem a ascensão social dos negros brasileiros. Situação absurda que atinge, em sua generalidade, 43% da população, ou seja, cerca de 73 milhões de nossos compatriotas. Paradoxalmente, os princípios da democracia racial são largamente explicitados na legislação e no ensino brasileiros. Aliás, um dispositivo pouco lembrado da Constituição, o paragrafo 1° do artigo 242, é claro: "O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro".

Com todo o respeito aos missionários e à obra da Igreja, talvez fosse interessante incluir no regulamento dos seminários nacionais uma adaptação desse dispositivo constitucional: "O ensino sacerdotal incluirá os descendentes das diferentes culturas e etnias que contribuíram para a formação do povo brasileiro".

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador
e professor titular da Universidade de Paris – Sorbonne
(lfa@workmail.com)


 
 
   
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