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Teoria da involução

Grandes atores às vezes se rendem
a filmes
rasteiros. Julianne Moore
acaba de fazer isso

Isabela Boscov

A ruiva Julianne Moore é um caso raro no cinema americano. É bonita, inteligente, excelente atriz – e reconhecida como tal. Nos últimos anos, não lhe têm faltado sólidas ofertas de trabalho. Julianne atrai diretores bons de bilheteria, como Steven Spielberg, e é igualmente popular entre cineastas "cabeça", como Robert Altman, que a adora. Aos 39 anos, já foi indicada ao Oscar duas vezes – pelas suas atuações dilacerantes em Boogie Nights e Fim de Caso. Merecia ter entrado no páreo também por Magnólia, em que fazia uma caça-dotes que se descobre apaixonada pelo marido idoso e moribundo. Com créditos desse quilate, é difícil entender que raios Julianne está fazendo numa comédia tão rasteira quanto Evolução, em cartaz no país.

Evolução é uma tentativa do diretor Ivan Reitman de repetir o sucesso que teve nos anos 80 com a série Os Caça-Fantasmas. Em vez de espectros, ele agora recorre a alienígenas, despejados na Terra a bordo de um meteoro. É só uma desculpa para mostrar monstros idiotas e toda sorte de vulgaridade, como cenas deasteira quanto Evolução, em cartaz no país.

Evolução é uma tentativa do diretor Ivan Reitman de repetir o sucesso que teve nos anos 80 com a série Os Caça-Fantasmas. Em vez de espectros, ele agora recorre a alienígenas, despejados na Terra a bordo de um meteoro. É só uma desculpa para mostrar monstros idiotas e toda sorte de vulgaridade, como cenas de sexo bizarro com amebas gigantes. É humilhante para David Duchovny, que anda patinando desde que deixou o seriado Arquivo X. No caso de Julianne, é enigmático. Primeiro, porque ela tem opções melhores. E depois porque Evolução não é um desses filmes que parecem bons no papel e saem ruins por incompetência dos realizadores. Ele pertence a uma corrente cada vez mais forte, a de fitas projetadas para serem péssimas e cativar os adeptos da baixaria. À guisa de explicação Julianne diz que, depois de se torturar emocionalmente com tantos papéis difíceis, precisava de "um refresco".

A atriz, é verdade, foi poupada das grosserias de maior calibre. Sua tarefa em Evolução se resume a tropeçar e fazer cara de pateta, e é improvável que esse erro de julgamento manche seu currículo. Desde que não se converta em hábito. Estrelar bombas é um passatempo perigoso, especialmente para quem tem algum prestígio em jogo. Que o diga o espanhol Antonio Banderas, que desembarcou em Hollywood há nove anos com uma bagagem de peso – cinco filmes com o diretor Pedro Almodóvar. O ator, porém, achou que não faria mal começar por baixo na nova pátria e aceitar a tipificação de "latino" em filmes de segunda, até se estabelecer. Quase se enforcou com a própria corda. Só recentemente conseguiu fazer o estereótipo trabalhar em seu favor e aumentar o número de acertos – como A Máscara do Zorro ou Pequenos Espiões – em relação ao de erros. "Ter um fiasco ou outro é um ótimo exercício de humildade", resigna-se.

Pior do milênio – O caso de John Travolta é mais esquisito. Travolta tinha chegado ao fundo do poço até ser redescoberto pelo diretor Quentin Tarantino em Pulp Fiction, em 1994. Foi um renascimento singular. A agenda do ator ficou lotada e ele voltou a ser um dos intérpretes mais bem pagos do mundo. Creditou muito do seu sucesso aos preceitos da cientologia, uma religião estranha da qual é seguidor fervoroso – tanto que decidiu produzir e protagonizar uma ficção científica escrita pelo mentor da seita, L. Ron Hubbard. Conseguiu uma unanimidade: é difícil que o patético A Reconquista venha a ser desbancado do posto de "pior filme do milênio", para o qual foi imediatamente eleito pelo público e pela crítica. Travolta, porém, não dá o braço a torcer. Diz que o filme é ótimo e que irá rodar uma continuação. Alguém aí tem uma camisa-de-força?

Mais do que a teimosia, a ingenuidade ou prováveis surtos de insanidade, como o de Julianne Moore, o apelo que os filmes ruins exercem sobre os bons atores é simplesmente o do dinheiro ganho sem grande empenho intelectual. Por isso Anthony Hopkins pode ser visto no medonho Instinto, ou Jeremy Irons aceita trabalhar numa bobagem como Dungeons & Dragons, que estreou na semana passada no país. O caso de almanaque, porém, ainda é o de Michael Caine. O inglês é uma das feras do cinema mundial, mas confessadamente não é de fazer luxo na hora de pagar o aluguel. Só seu imenso talento o salvou do ridículo. Até hoje, porém, Caine agüenta piadas sobre fiascos como A Mão ou Tubarão 4 – sem jamais perder o humor.

 

O humilde e o teimoso

Rico Torres/Tristar

Pandora Filmes

Banderas, como Zorro: aprendendo a duras penas a domar o estereótipo de galã latino Travolta, na ficção A Reconquista: recusa em admitir que a homenagem à cientologia fez dele alvo de piada

 

   
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