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Paixão
e escândalo
Poucos escritores foram tão longe
no estudo da
obsessão sexual quanto
o japonês Tanizaki
Carlos
Graieb
Imagine
um escritor que combinasse os dotes de Machado de Assis e Nelson Rodrigues.
Um grande estilista, mas devotado a descrever perversões e taras,
sem deter-se diante do escândalo. Quem conceber essa figura estranha
terá uma idéia de quem foi Junichiro Tanizaki (1886-1965).
Em sua longa carreira, ele ergueu uma das maiores obras ficcionais do
Japão moderno. Fez-se herdeiro das milenares tradições
literárias de seu país, combinou-as com as formas de expressão
do século XX e ainda soube aproveitar influências do Ocidente.
Todo o seu domínio sobre a língua, no entanto, estava a
serviço da provocação. Poucos autores souberam ir
tão fundo no estudo da obsessão sexual quanto Tanizaki,
em romances como Voragem, agora publicado no Brasil (tradução
de Leiko Gotoda; Companhia das Letras; 240 páginas; 26 reais).
"Voragem"
é uma tradução bela, mas não-literal, do título
japonês do livro. Ingleses e franceses ficaram mais próximos
de uma versão fiel ao optar por "Suástica". O ideograma
utilizado por Tanizaki para dar nome ao romance contém a célebre
cruz de pontas dobradas. Mas atenção. A história
foi escrita entre 1928 e 1930, muito antes de os nazistas se apoderarem
do símbolo. E Tanizaki tampouco tinha em mente o significado religioso
do ideograma, que entre os budistas representa a felicidade e a salvação.
Era o formato da suástica que lhe interessava, pois ele sugere
à perfeição o caráter retorcido do relacionamento
entre os quatro personagens do romance. As engrenagens do enredo são
postas em movimento quando Sonoko e Mitsuko se envolvem numa irrefreável
paixão lésbica que traga para o seu vórtice
outros dois personagens, o marido de Sonoko e o jovem Watanuki.
"Considero
as mulheres seres superiores", afirmou certa vez Tanizaki. Já os
homens costumam ser criaturas débeis em seus livros masoquistas
sempre prontos a tirar prazer da humilhação. Sua obra está
repleta, por exemplo, de homens que se deixam pisar por mulheres de caráter
forte ou grande sensualidade. E se deixam pisar literalmente, dedicando-se
a adorar seus pés. Outra maneira peculiar de os homens manifestarem
servidão é fascinar-se pelos excrementos da amada. Em A
Mãe do Capitão Shigemoto, por exemplo, o autor zomba
de um conceito budista que prega a purificação por meio
da contemplação das impurezas deste mundo. No livro, pelo
contrário, quanto mais observa os excrementos de sua adorada, mais
o protagonista se sente prisioneiro dela. Voragem não tem
perversões como essas, mas o jogo de forças entre mulheres
e homens é o habitual. Watanuki é um dândi efeminado
e impotente. O marido de Sonoko tem vontade frágil e não
consegue saciá-la na cama. Já as duas mulheres são
voluntariosas, cheias de caprichos e capazes de mover montanhas para se
satisfazer.
Segundo a crítica especializada, Tanizaki lançou mão
de vários artifícios para escrever Voragem. Empregou
o dialeto aristocrático da região de Osaka para dar cor
e atmosfera à história. Além disso, deu à
narradora, Sonoko, falas dignas de uma personagem do dramaturgo clássico
Chikamatsu (uma espécie de Shakespeare japonês). São
características que não puderam ser reproduzidas na versão
brasileira. Mas a tradução fluente de Leiko Gotoda reserva
muitos prazeres. O humor de Tanizaki não se perde. E muito menos
a engenhosa arquitetura do livro, que a cada página apresenta uma
reviravolta desconcertante, nessa história em que a obsessão
sexual não se extingue nem mesmo depois da morte.
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