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Mulher-máquina

Uma andróide sedutora é protagonista
de um
romance do francês Villiers
de L'Isle-Adam

Moacyr Scliar*

Roger Viollet
O excêntrico Villiers: "literatura de antecipação"


A revolução científica no século XIX deu asas à imaginação dos escritores. O caso mais célebre é o da inglesa Mary Shelley, autora de Frankenstein, em que uma criatura disforme e artificial ganha vida graças à eletricidade. Em A Eva Futura (tradução de Ecila de Azeredo Grünewald; Edusp; 417 páginas; 35 reais), do francês Villiers de L'Isle-Adam, temos uma versão diferente, mas não menos original, dessa história. De família aristocrática, culto e excêntrico, Villiers (1838-1889) foi contemporâneo e amigo de escritores como o romancista Gustave Flaubert e os poetas Charles Baudelaire e Stéphane Mallarmé. Todos já eram, na época, figuras literárias de maior envergadura que ele, mas nem por isso deixavam de tê-lo na mais alta conta. O prestígio de Villiers sobreviveu à sua morte. Tanto que, no século XX, o crítico americano Edmund Wilson inspirou-se em um personagem do autor para escrever O Castelo de Axel, seu célebre balanço da literatura moderna.

A Eva Futura tem como cenário a casa-laboratório do cientista e inventor americano Thomas Alva Edison em Menlo Park, no Estado de Nova Jersey – casa que ainda existe, transformada em museu. Lá, um Edison ficcionalizado recebe a visita de um jovem amigo inglês, Lorde Ewald. Rejeitado pela mulher que venera, a bela mas pouco brilhante Alicia Clary, o nobre está desesperado. Edison, que lhe deve um favor, assume então o papel de um amável doutor Frankenstein. A uma andróide que fabricou, Hadaly, ele confere os atributos físicos de Alicia Clary, convenientemente reforçados por uma boa carga cultural armazenada em fonógrafos – aparelho do qual Edison foi o inventor. Duas outras figuras femininas juntam-se a essa complexa geometria emocional, criando um clima de suspense – quem é quem? – habilmente conduzido por Villiers.

A Eva Futura é um exemplo típico da "literatura de antecipação", que fez a fama de escritores como o francês Júlio Verne. Para o bem e para o mal. A narrativa de Villiers ressente-se de um problema comum a esse gênero: entusiasmado pela ciência, o autor explica longamente como funciona a andróide, ou "criatura eletro-humana", e que procedimentos Edison adotará para conseguir seu objetivo. Compare-se com A Metamorfose, do checo Franz Kafka. No primeiro parágrafo, Kafka informa-nos que o personagem Gregor Samsa transformou-se num monstruoso inseto. Não lhe interessa descrever como isso aconteceu. Interessa-lhe tão-somente – e por isso ele é um escritor fundamental – o drama humano que resulta dessa transformação.

Felizmente, Villiers não se restringe ao falatório pseudocientífico. O livro é também uma meditação sobre a condição feminina e sobre a relação entre homem e mulher. E, convenhamos, o tema do andróide e da criação da vida permanece atual, agora reforçado pelos recentes e polêmicos avanços da biologia e também pelas "utopias da informática" de que fala o crítico Augusto de Campos na apresentação do volume. O último filme do cineasta americano Steven Spielberg, Inteligência Artificial, que deve estrear em setembro no Brasil, bem poderia ter como subtítulo O Adão Futuro: é a história de robôs que amam e fazem sexo. Villiers de L'Isle-Adam sabia o que estava fazendo quando, com ironia, dedicou o livro aos sonhadores e aos zombadores. Eles compõem a maioria do público de todos os tempos – de escritores, cineastas ou qualquer outro tipo de agente cultural que venha a surgir.

 

Uma espécie de ser

"Nas paredes côncavas e semicirculares, cascatas de tafetá negro, que caíam suntuosamente de um arco de jade até o mármore branco do chão, tinham os amplos panejamentos presos em falenas de ouro que se espalhavam nas dobras profundas do tecido. Ereto, sob esse dossel, surgia uma espécie de Ser, cujo aspecto causava o frêmito do desconhecido. A visão parecia ter um rosto de trevas. Uma couraça flexível, em folhas de prata, de um branco radioso e opaco, deixava entrever, moldada com mil nuanças perfeitas, formas femininas esbeltas e virginais."

Trecho de A Eva Futura


* Moacyr Scliar é escritor, autor de A Mulher que Escreveu a Bíblia, entre outros livros

   
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