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O gigante
quer
ir mais rápido
A
Nestlé corta custos,
melhora
a gestão e aposta em seu
crescimento no
Terceiro Mundo
Ruth de Aquino, de Vevey, Suíça
Harmen Hoogland
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| Na
matriz, em Vevey: prédio de vidro e aço, junto de um lago, abriga
pessoas vindas de 62 países |
Certa
vez, a revista americana de negócios Business Week chamou
a Nestlé de "elefante". A comparação com um paquiderme
é adequada no que se refere ao tamanho da companhia, líder
mundial no ramo de alimentação e bebidas mas não
faz justiça à agilidade com que a multinacional suíça
está se movendo para manter seu espaço privilegiado no mercado
global. Até o fim do ano, ela pretende completar a maior aquisição
de sua história, a Ralston Purina, principal fabricante de ração
para animais dos Estados Unidos, avaliada em 10,8 bilhões de dólares.
Com isso, se tornará líder mundial também no setor
de ração animal. É uma decisão estratégica:
o mercado de rações cresce a uma taxa duas vezes maior que
o de alimentação humana. Outra empresa que poderá
cair nas mãos dos suíços pelo mesmo motivo é
a L'Oréal afinal, a indústria da beleza também
cresce mais que a da alimentação A Nestlé já
possui 49% das ações da líder mundial em cosméticos.
Os outros 51% pertencem à septuagenária Madame Bettancourt,
da família proprietária do negócio. Fora essas duas
megaoperações, não há planos de comprar mais
nada. A política agressiva de aquisições era a marca
de Helmut Malcher, o presidente que levou a Nestlé à liderança
mundial no fim dos anos 80. Seu sucessor, Peter Brabeck-Letmathe, acredita
mais numa política de crescimento interno, reforçada por
cortes sistemáticos nos custos e pela expansão nos mercados
emergentes. "Manter a liderança é tão ou mais difícil
que conquistá-la", disse Brabeck-Letmathe a VEJA na magnífica
sede da empresa, próxima às margens do lago Leman, em Vevey,
na Suíça.
Desde 1968 na empresa, Brabeck-Letmathe assumiu o timão há
quatro anos. No dia da posse, transferiu ou aposentou todos os dez integrantes
do conselho executivo para, como ele diz, "trocar a tripulação
para o barco andar mais rápido e mostrar que não existe
lugar para a complacência. O sucesso é mau professor". A
Nestlé é conhecida pela cautela e pelas margens de lucro
bem inferiores às de concorrentes como Heinz e Procter & Gamble
daí a qualificação de "elefante". "Mudanças
radicais e freqüentes não são saudáveis nem
para a companhia nem para o consumidor", ensina Brabeck-Letmathe. Ele
fala com segurança, pois tem bons resultados para exibir: praticamente
dobrou o valor do grupo na bolsa em três anos. Nesse período,
a Nestlé economizou quase 2 bilhões de dólares de
custo operacional. Só no ano passado cortou 6.000 funcionários
da folha e se livrou de 38 fábricas (entre vendidas e fechadas).
Pôde escapar incólume da patrulha sindical porque as demissões
ocorreram sobretudo com a venda das unidades. De qualquer forma, o número
total de empregados em todo o mundo cresceu 23.000 desde 1991.
A matriz em Vevey, a quinze minutos de Lausanne, é um colosso de
35.000 metros quadrados, com funcionários de 62 nacionalidades.
A arquitetura de vidros e aço garante vista deslumbrante para o
Lago Leman e para a cadeia de montanhas em que reina o Mont Blanc, que
o presidente Peter Brabeck-Letmathe costuma escalar nos fins de semana.
Criada modestamente pelo químico Henri Nestlé em 1866, que
produzia uma farinha láctea nos fundos de uma farmácia em
Vevey, a empresa está presente na cozinha de uma parte considerável
da humanidade. Produz celebridades como o leite Moça, a farinha
láctea, o leite em pó Ninho, o caldo Maggi e o Nescafé.
No cotidiano do brasileiro, entrou há oitenta anos, quando foi
fundada em 1921 a primeira fábrica, em Araras, no interior de São
Paulo, que hoje emprega 1.000 pessoas. Ciente de que a demanda por comida
na Europa e nos Estados Unidos cresce a meros 2% ao ano, a Nestlé
está azeitando suas máquinas nos países emergentes.
A conta que faz é simples: para uma pessoa se tornar consumidora
regular de Nescafé ou de qualquer outro dos 12.000 produtos que
oferece, ela precisa ganhar o equivalente a 1.500 dólares por ano.
Até 2010, a empresa calcula que surgirá 1 bilhão
de possíveis consumidores em países como Brasil, Paquistão
e México. Em 2000, introduziu na China a água Nestlé
Pure Life, testada primeiro no Paquistão e no Brasil e depois lançada
na Tailândia, nas Filipinas, no México e na Argentina. Só
na China, as vendas da Nestlé cresceram incríveis 40%. Os
mercados mais maduros não têm, naturalmente, tanto potencial
de crescimento.
Até o ano passado, a filial brasileira foi a mais importante da
América Latina. Com o mesmo número de funcionários
e muito mais agressividade, a Nestlé-México conseguiu suplantar
a do Brasil e provocou uma mudança de comando. O brasileiro Ivan
Fábio Zurita, diretor da filial mexicana, foi transferido neste
ano para a terra natal porque a Nestlé não se conforma em
vender apenas 2 bilhões de dólares num mercado com potencial
estimado em 5 bilhões. A empresa já conhece a predileção
do brasileiro por doce e, por isso, tem uma linha de sobremesas e pudins
semiprontos que só vende no Brasil. No negócio global da
nutrição, a Nestlé opera em três vertentes:
infantil, de performance e clínica. A primeira precisa de leite;
a segunda, formada por atletas, de barras de cereais; e a terceira, composta
de consumidores com mais de 55 anos, de suplementos alimentares adicionados
ao leite e aos iogurtes. São os chamados ingredientes ativos. Várias
dessas substâncias, depois transformadas em marcas o Omega 3,
por exemplo , foram desenvolvidas nos centros de pesquisas da empresa
e depois patenteadas.
A Nestlé investe 560 milhões de dólares por ano em
pesquisa e desenvolvimento de produtos e tecnologias e destina a esse
setor uma tropa de 3.600 funcionários. O resultado é, quase
sempre, adaptado a cada país. O Nescafé é diferente
nos Estados Unidos, na Ásia, no Brasil e, mesmo dentro da Europa,
não é o mesmo para suecos e italianos. O conceito é
que tudo que o consumidor pode ver, tocar, cheirar ou provar deve ser
adaptado ao gosto local. O resto pode ter uma versão regional ou
global. Aliás, o Nescafé foi desenvolvido no Brasil. Surgiu
nos anos 30, quando o mercado brasileiro, atormentado pela queda nos preços
internacionais do café, exigiu um produto que não se estragasse
facilmente. Resultado de dois anos de pesquisas, o café solúvel
foi globalizado pelos soldados aliados na II Guerra. Hoje, a cada segundo,
são consumidas 3.000 xícaras de Nescafé no mundo.
Todo esse esforço é incapaz de diluir uma preocupação:
a crescente "caretice" do café. A geração dos sucos
e vitaminas de frutas acha o café amargo e "coisa de velho"
ou dos pais. Uma pesquisa do jornal francês Le Monde diz
que 82% dos adultos tomam pelo menos um cafezinho por dia, enquanto só
57% dos jovens de 16 a 25 anos se rendem ao aroma da bebida favorita dos
brasileiros. O consumo de café em grão aumentou apenas 2%
nos últimos dez anos, ainda que o café solúvel tenha
crescido 25% no mesmo período. Para evitar a constante sangria
dos jovens para refrigerantes ou chá gelado, a Nestlé tenta
convencer a moçada de que o café também é
"um drinque". Por isso, criou outros produtos cold coffee, iced coffee,
em latas, cappuccinos, em sachês, tubinhos e barras. A última
ofensiva é o Sweet and Coffee, um produto instantâneo nos
sabores caramelo e baunilha, vendido na Europa. Em parceria milionária
com a MTV, a Nestlé lançou uma campanha mundial associando
o café a ousadia, tecnologia e misticismo para conquistar as tribos
tecno, desportista e zen. Será que o cafezinho vai sobreviver ao
rolo compressor de clones modernosos?
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Um
vendedor de sangue-frio
Wolfgang Knapp
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Brabeck-Letmathe: "Vendi mais sorvete que
os outros e fui sendo promovido" |
Com os esquis nas costas, o austríaco Peter Brabeck-Letmathe
costuma realizar nos fins de semana escaladas de oito horas até
atingir o local ideal de descida no Mont Blanc, um dos pontos mais
elevados da Europa. Bronzeado, 1,88 metro de altura, 84 quilos,
57 anos, o presidente da Nestlé tem o sangue-frio de um vendedor.
Contratado pela Nestlé em 1968 na Áustria quando tinha
23 anos, ele começou vendendo sorvetes a lojas, quiosques
e supermercados. Aceitou o emprego, em parte, porque sonhava com
os Andes desde a infância. Como tinha aprendido espanhol na
faculdade de economia, foi logo transferido para o Chile. "A carreira
não estava acima de meus projetos de vida, mas vendi mais
sorvete que os outros e fui sendo promovido", diz. Também
o atraía a possibilidade de viver em várias partes
do mundo. Depois da América Latina, trabalhou na Ásia
e na Europa. Pai de três filhos adultos, afirma ser conservador
na vida pessoal, mas só até certo ponto. "Como minha
mulher, que é chilena, não quis voltar para a América
Latina comigo nos anos 80, pedi divórcio." Onze anos depois,
casou pela segunda vez com a mesma mulher, a mãe de seus
filhos. Discreto, Brabeck-Letmathe não tem computador em
sua sala. Só com esforço se descobre que é
dono de um avião, piloto e que toca piano. A experiência
no Chile, Equador, Venezuela e Brasil tornou-o um fã da América
Latina. "As constantes incertezas políticas e econômicas
deixaram-me mais flexível e apto a me adequar ao ritmo vertiginoso
de mudanças de hoje, com as novas tecnologias", analisa.
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