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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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Ainda não deu certo

Falta de apoio político emperra
pacote de ajuste e mantém a
Argentina à
beira do desastre

Raul Juste Lores


Reuters/Marcos Haupa
De la Rúa: o presidente isolado não consegue nem o apoio do seu partido


A economia da Argentina parece presa em um daqueles labirintos criados pela imaginação do escritor portenho Jorge Luis Borges. Por mais que elabore planos estratégicos, não consegue encontrar a saída. Uma semana depois de anunciado com pompa, o pacotão projetado pelo governo para zerar o déficit público e repor a economia nos trilhos transformou-se num, digamos, pacotinho. O plano inicial era cortar fundo nas aposentadorias e nos salários dos servidores para dar maior fôlego ao caixa do Estado. Uma greve do funcionalismo na quarta-feira passada e uma greve geral no dia seguinte, com a adesão de nove em cada dez trabalhadores, convenceram o presidente Fernando de la Rúa a abrandar as medidas. De olho no humor do eleitorado a três meses de eleições legislativas, deputados da oposição peronista e da própria coligação governista avisaram que vão vetar o ajuste no Congresso. Na sexta-feira, De la Rúa aliviou o item mais polêmico, o que previa redução de 13% em todas as aposentadorias acima de 300 pesos. O facão agora só podará pensões acima de 1.000 pesos. Ou seja, a Argentina voltou à estaca zero.


AP/La Nacion/Alfredo Sanchez
Aposentado levou o pão ao protesto: duas greves contra corte em salários e pensões


As repercussões do impasse vão muito além da politicagem doméstica. O ajuste das contas públicas é necessário porque a Argentina está quebrada, sem condições de pagar a dívida externa de 140 bilhões de dólares. Dar o calote seria ainda pior. O país ficaria isolado do sistema financeiro internacional, sem possibilidade de receber os recursos de que precisa desesperadamente para reativar a economia. Se a Argentina for a pique, o efeito tango será devastador também para a economia do Brasil, seu principal parceiro no Mercosul (
veja quadro). Para evitar o desastre, a Argentina necessita de dinheiro, crescimento econômico e estabilidade política. A penúria é tão grande que o governo pediu que as maiores empresas adiantassem o pagamento de parte do imposto de renda de 2002. A fragilidade política do governo só piora as perspectivas. Para obter o apoio dos governadores ao pacote do déficit zero, o ministro da Economia Domingo Cavallo precisou entregar 1 bilhão de dólares para que as províncias possam pagar os salários e fechar algumas contas. Ainda assim, a caciqueria provincial saiu da reunião no palácio do governo em Buenos Aires ameaçando renegar tudo o que tinha sido acertado momentos antes. Se nem o governo se entende, imagine se algum investidor vai arriscar seu dinheiro na Argentina. Depois da greve geral, o risco-país, índice que mede a confiança dos investidores estrangeiros, que tinha baixado para níveis mais civilizados, voltou a figurar entre os mais altos do mundo.


Reuters
Manifestantes queimam foto de Cavallo: pacotaço não passou no teste das ruas


Quando Cavallo foi ministro da Economia pela primeira vez, no começo dos anos 90, era aplaudido nos restaurantes. Foi dele a iniciativa de declarar que 1 peso valia 1 dólar. A paridade com a moeda americana acabou com a hiperinflação e permitiu alguns anos de crescimento e otimismo. Mas também encareceu os produtos argentinos e arrasou as exportações. Há quatro meses, Cavallo foi convocado para duas missões urgentes: 1) dissipar a suspeita de que a Argentina vai quebrar; 2) ressuscitar a economia do país, que está em recessão há três anos. Os argentinos esperavam milagres, mas o que estão recebendo é um pacote recessivo que piora a pasmaceira econômica. Se a Argentina continuar gastando mais do que pode e a economia não voltar a crescer, cedo ou tarde o país terá de dar um calote nos credores. De nada valem planos mirabolantes ou choques de confiança se o ministro da Economia não consegue ter o apoio sequer da coligação governista. Quanto mais os políticos se concentram em seus interesses imediatos, mais aumenta a impressão de que o país é ingovernável.

AP/La Nacion/Rodrigo ABD
Festa na hora errada
Em época de crise, o bom senso recomenda discrição. O ministro Domingo Cavallo preferiu a ostentação. Três dias depois de encurtar salários e aposentadorias, celebrou com luxo o casamento de sua filha. Duzentos manifestantes atiraram ovos nos convidados, e a noiva teve de sair pelos fundos, escondida em uma capa negra

De la Rúa não manda em seu próprio partido, que ainda é liderado por um rival, o ex-presidente Raúl Alfonsín. Pouco afeto às nuances da política econômica, Alfonsín legou a seu sucessor, Carlos Menem, o país mergulhado na hiperinflação. O peronismo está fragmentado e Menem, seu principal líder, encontra-se preso. "Dentro e fora do governo, muita gente quer a cabeça de Cavallo. Sem respaldo político, não dá para fazer pacote algum", avalia o analista Carlos Pagni, colunista do diário Ámbito Financiero, o maior jornal econômico do país. A instabilidade política atual tem raízes na história da Argentina. O país nunca aprendeu a viver sem um caudilho que tome as decisões, bata na mesa e fale grosso. Logo depois da ditadura militar e do vexame da Guerra das Malvinas, os argentinos escolheram Alfonsín e Menem, dois caciques que tinham total controle das estruturas de seus partidos e que faziam e aconteciam. De la Rúa é outro tipo de governante. De voz quase inaudível e sem nenhuma liderança, só foi candidato porque o caudilho da União Cívica Radical, Alfonsín, estava muito desgastado depois do desastre de seu governo. O presidente argentino está completamente isolado e Cavallo não pode convencer investidor algum de que ele realmente manda na economia. Como no Brasil, onde a impopularidade do presidente e as fraturas na base de sustentação do governo só geram instabilidade, o cenário argentino só dá mais medo. A aprovação do superministro, que era de 41% há dois meses, caiu para 25%. Se o ajuste não sair e Cavallo ficar com as mãos atadas, vai ser difícil para De la Rúa convencer o mundo de que a Argentina tem conserto.

DE NOVO O REMÉDIO AMARGO DOS JUROS

O Brasil eleva as taxas e enfrenta a ameaça de contágio que a crise da Argentina representa


que a crise da Argentina representa


AP/Eraldo Peres
O presidente do BC, Armínio Fraga: juro alto para conter inflação
AP/Eraldo Peres
O presidente do BC, Armínio Fraga: juro alto para conter inflação


Ao elevar a taxa de juro básico do Banco Central de 18,25% para 19% ao ano, na semana passada, o Conselho de Política Monetária (Copom) atarraxou um pouco mais a economia brasileira. A previsão, agora, é que o Brasil não consiga crescer mais que 2% neste ano. A perspectiva não é das melhores. Seis meses atrás, o governo previa um crescimento de 4%. A providência, no entanto, era inevitável. Com a elevação dos juros, o governo atinge os seguintes objetivos:

torna o país mais atraente para investidores que aplicam no mercado financeiro. O Brasil precisa de poupança. Precisa também trazer investimentos externos. Para impedir uma desvalorização muito grande do real, numa fase de insegurança em que pessoas e empresas andam comprando muitos dólares, o Banco Central vem vendendo, em média, 50 milhões de dólares no mercado todos os dias. Os cofres agüentam bem a sangria. As reservas internacionais brasileiras estavam na semana passada em 36 bilhões de dólares. Mas dinheiro novo é bem-vindo. E os estrangeiros, ressabiados com a crise argentina, só desembarcam no Brasil se o prêmio for alto;

reduz o consumo e com isso impede o reajuste dos preços. Acontece que, com a alta do dólar, muitas peças e componentes importados ficaram mais caros para a indústria brasileira. Seria natural que ela elevasse o preço ao consumidor, se estivesse vendendo bem. Mas não está. A crise de energia já reduziu bastante o consumo. Só no setor de eletrodomésticos houve queda de 31% nas vendas em junho, em relação ao mesmo mês do ano passado. A elevação do juro básico do BC tem um efeito multiplicador na economia. O crédito encarece. Quem usa cheque especial hoje paga em média 170% de juros ao ano. No cartão de crédito, a mordida é de 230%. É muito. Espera-se que as pessoas evitem gastanças. Assim, a inflação não superará os 6% – nível máximo projetado pelo governo para 2001.

O ano não tem sido aquela maravilha que se esperava. A crise argentina se agravou e prejudicou o crescimento brasileiro. A crise energética foi outro tranco. E, para piorar as coisas, Estados Unidos, Japão e Europa também estão atolados. Já não importam muito nem oferecem tanto crédito aos países menos desenvolvidos. Entre os economistas que acompanham o cenário internacional, alguns acreditavam que o Copom seria mais incisivo, na semana passada. Havia expectativas de que o juro básico poderia chegar a 22%. Ao que parece, o governo decidiu guardar munição para o caso de as coisas piorarem.

 

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