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Ainda não
deu certo
Falta
de apoio político
emperra
pacote
de ajuste e
mantém a
Argentina à beira
do desastre
Raul
Juste Lores
Reuters/Marcos Haupa
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De la Rúa: o
presidente isolado não consegue nem o apoio do seu partido |
A economia da Argentina parece presa em um daqueles labirintos criados
pela imaginação do escritor portenho Jorge Luis Borges.
Por mais que elabore planos estratégicos, não consegue encontrar
a saída. Uma semana depois de anunciado com pompa, o pacotão
projetado pelo governo para zerar o déficit público e repor
a economia nos trilhos transformou-se num, digamos, pacotinho. O plano
inicial era cortar fundo nas aposentadorias e nos salários dos
servidores para dar maior fôlego ao caixa do Estado. Uma greve do
funcionalismo na quarta-feira passada e uma greve geral no dia seguinte,
com a adesão de nove em cada dez trabalhadores, convenceram o presidente
Fernando de la Rúa a abrandar as medidas. De olho no humor do eleitorado
a três meses de eleições legislativas, deputados da
oposição peronista e da própria coligação
governista avisaram que vão vetar o ajuste no Congresso. Na sexta-feira,
De la Rúa aliviou o item mais polêmico, o que previa redução
de 13% em todas as aposentadorias acima de 300 pesos. O facão agora
só podará pensões acima de 1.000 pesos. Ou seja,
a Argentina voltou à estaca zero.
AP/La Nacion/Alfredo Sanchez
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Aposentado levou
o pão ao protesto: duas greves contra corte em salários
e pensões |
As repercussões do impasse vão muito além da politicagem
doméstica. O ajuste das contas públicas é necessário
porque a Argentina está quebrada, sem condições de
pagar a dívida externa de 140 bilhões de dólares.
Dar o calote seria ainda pior. O país ficaria isolado do sistema
financeiro internacional, sem possibilidade de receber os recursos de
que precisa desesperadamente para reativar a economia. Se a Argentina
for a pique, o efeito tango será devastador também para
a economia do Brasil, seu principal parceiro no Mercosul (veja
quadro).
Para evitar o desastre, a Argentina necessita de dinheiro, crescimento
econômico e estabilidade política. A penúria é
tão grande que o governo pediu que as maiores empresas adiantassem
o pagamento de parte do imposto de renda de 2002. A fragilidade política
do governo só piora as perspectivas. Para obter o apoio dos governadores
ao pacote do déficit zero, o ministro da Economia Domingo Cavallo
precisou entregar 1 bilhão de dólares para que as províncias
possam pagar os salários e fechar algumas contas. Ainda assim,
a caciqueria provincial saiu da reunião no palácio do governo
em Buenos Aires ameaçando renegar tudo o que tinha sido acertado
momentos antes. Se nem o governo se entende, imagine se algum investidor
vai arriscar seu dinheiro na Argentina. Depois da greve geral, o risco-país,
índice que mede a confiança dos investidores estrangeiros,
que tinha baixado para níveis mais civilizados, voltou a figurar
entre os mais altos do mundo.
Reuters
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Manifestantes queimam
foto de Cavallo: pacotaço não passou no teste das ruas |
Quando Cavallo foi ministro da Economia pela primeira vez, no começo
dos anos 90, era aplaudido nos restaurantes. Foi dele a iniciativa de
declarar que 1 peso valia 1 dólar. A paridade com a moeda americana
acabou com a hiperinflação e permitiu alguns anos de crescimento
e otimismo. Mas também encareceu os produtos argentinos e arrasou
as exportações. Há quatro meses, Cavallo foi convocado
para duas missões urgentes: 1) dissipar a suspeita de que a Argentina
vai quebrar; 2) ressuscitar a economia do país, que está
em recessão há três anos. Os argentinos esperavam
milagres, mas o que estão recebendo é um pacote recessivo
que piora a pasmaceira econômica. Se a Argentina continuar gastando
mais do que pode e a economia não voltar a crescer, cedo ou tarde
o país terá de dar um calote nos credores. De nada valem
planos mirabolantes ou choques de confiança se o ministro da Economia
não consegue ter o apoio sequer da coligação governista.
Quanto mais os políticos se concentram em seus interesses imediatos,
mais aumenta a impressão de que o país é ingovernável.
AP/La Nacion/Rodrigo ABD
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Festa
na hora errada
Em época de crise, o bom senso recomenda discrição. O ministro Domingo
Cavallo preferiu a ostentação. Três dias depois de encurtar salários
e aposentadorias, celebrou com luxo o casamento de sua filha. Duzentos
manifestantes atiraram ovos nos convidados, e a noiva teve de sair
pelos fundos, escondida em uma capa negra |
De
la Rúa não manda em seu próprio partido, que ainda
é liderado por um rival, o ex-presidente Raúl Alfonsín.
Pouco afeto às nuances da política econômica, Alfonsín
legou a seu sucessor, Carlos Menem, o país mergulhado na hiperinflação.
O peronismo está fragmentado e Menem, seu principal líder,
encontra-se preso. "Dentro e fora do governo, muita gente quer a cabeça
de Cavallo. Sem respaldo político, não dá para fazer
pacote algum", avalia o analista Carlos Pagni, colunista do diário
Ámbito Financiero, o maior jornal econômico do país.
A instabilidade política atual tem raízes na história
da Argentina. O país nunca aprendeu a viver sem um caudilho que
tome as decisões, bata na mesa e fale grosso. Logo depois da ditadura
militar e do vexame da Guerra das Malvinas, os argentinos escolheram Alfonsín
e Menem, dois caciques que tinham total controle das estruturas de seus
partidos e que faziam e aconteciam. De la Rúa é outro tipo
de governante. De voz quase inaudível e sem nenhuma liderança,
só foi candidato porque o caudilho da União Cívica
Radical, Alfonsín, estava muito desgastado depois do desastre de
seu governo. O presidente argentino está completamente isolado
e Cavallo não pode convencer investidor algum de que ele realmente
manda na economia. Como no Brasil, onde a impopularidade do presidente
e as fraturas na base de sustentação do governo só
geram instabilidade, o cenário argentino só dá mais
medo. A aprovação do superministro, que era de 41% há
dois meses, caiu para 25%. Se o ajuste não sair e Cavallo ficar
com as mãos atadas, vai ser difícil para De la Rúa
convencer o mundo de que a Argentina tem conserto.
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DE
NOVO O REMÉDIO AMARGO DOS JUROS
O
Brasil eleva as taxas e enfrenta a ameaça de contágio
que a crise da Argentina representa
AP/Eraldo Peres
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| O
presidente do BC, Armínio Fraga: juro alto para conter
inflação |
que a crise da Argentina representa
AP/Eraldo Peres
 |
| O
presidente do BC, Armínio Fraga: juro alto para conter
inflação |
Ao elevar a taxa de juro básico do Banco Central de 18,25%
para 19% ao ano, na semana passada, o Conselho de Política
Monetária (Copom) atarraxou um pouco mais a economia brasileira.
A previsão, agora, é que o Brasil não consiga
crescer mais que 2% neste ano. A perspectiva não é
das melhores. Seis meses atrás, o governo previa um crescimento
de 4%. A providência, no entanto, era inevitável. Com
a elevação dos juros, o governo atinge os seguintes
objetivos:
torna o país mais atraente para investidores que aplicam
no mercado financeiro. O Brasil precisa de poupança. Precisa
também trazer investimentos externos. Para impedir uma desvalorização
muito grande do real, numa fase de insegurança em que pessoas
e empresas andam comprando muitos dólares, o Banco Central
vem vendendo, em média, 50 milhões de dólares
no mercado todos os dias. Os cofres agüentam bem a sangria.
As reservas internacionais brasileiras estavam na semana passada
em 36 bilhões de dólares. Mas dinheiro novo é
bem-vindo. E os estrangeiros, ressabiados com a crise argentina,
só desembarcam no Brasil se o prêmio for alto;
reduz o consumo e com isso impede o reajuste dos preços.
Acontece que, com a alta do dólar, muitas peças e
componentes importados ficaram mais caros para a indústria
brasileira. Seria natural que ela elevasse o preço ao consumidor,
se estivesse vendendo bem. Mas não está. A crise de
energia já reduziu bastante o consumo. Só no setor
de eletrodomésticos houve queda de 31% nas vendas em junho,
em relação ao mesmo mês do ano passado. A elevação
do juro básico do BC tem um efeito multiplicador na economia.
O crédito encarece. Quem usa cheque especial hoje paga em
média 170% de juros ao ano. No cartão de crédito,
a mordida é de 230%. É muito. Espera-se que as pessoas
evitem gastanças. Assim, a inflação não
superará os 6% nível máximo projetado
pelo governo para 2001.
O ano não tem sido aquela maravilha que se esperava. A crise
argentina se agravou e prejudicou o crescimento brasileiro. A crise
energética foi outro tranco. E, para piorar as coisas, Estados
Unidos, Japão e Europa também estão atolados.
Já não importam muito nem oferecem tanto crédito
aos países menos desenvolvidos. Entre os economistas que
acompanham o cenário internacional, alguns acreditavam que
o Copom seria mais incisivo, na semana passada. Havia expectativas
de que o juro básico poderia chegar a 22%. Ao que parece,
o governo decidiu guardar munição para o caso de as
coisas piorarem.

Veja também |
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