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Regis Filho

ELIANA
AMORIN JAYME,
53
anos, advogada paulistana
Três casamentos desfeitos, mora sozinha há sete
anos
Vantagem
"As pessoas vêm, ficam um tempo e vão embora.
A casa está sempre arrumadinha, e eu posso ficar sozinha quando
quero."
Desvantagem
"A gente vai criando um excesso de manias que dificulta
uma nova convivência a dois." |
A premência pode ter diminuído, está mais fácil
bancar o auto-suficiente, mas um certo sentimento de fracasso persiste
e, em muitos casos, a solidão atrapalha a vida. Segundo estudos
médicos, a falta de um parceiro contribui para debilitar a saúde.
Explica-se: os solitários tendem a levar dia-a-dia mais desregrado,
com menos rotina, o que do ponto de vista orgânico é uma
bomba-relógio. Perturbações de ordem psicológica
também podem surgir: a solidão força a pessoa a conviver
consigo mesma dentro de um quadro de introspecção que pode
tornar-se insuportavelmente sufocante. Tudo somado, as estatísticas
confirmam que solteiros e divorciados têm mais possibilidade de
cometer suicídio e são vítimas mais freqüentes
de depressão, diabetes, câncer de fígado e de pulmão.
Sua expectativa de vida é menor. Entre os casados com 48 anos de
idade, cerca de 90% deverão viver até os 65 anos. Já
entre os solteiros, essa proporção alcança 60%. "É
curioso notar que quem mora só e acredita estar bem assim afirma
que trocou a tensão, a raiva e o stress do convívio doméstico
pela tranqüilidade de viver sem ninguém", observa o psicanalista
carioca Luiz Alberto Py. "Viver só, no entanto, dá muito
trabalho. É chato não ter ninguém para cuidar da
casa ou de nós quando ficamos doentes. Além disso, nem sempre
é satisfatório ter de pegar a agenda de telefone e sair
pelos bares para dar um jeito na vida sexual", acrescenta. No limite,
cai-se doente.
Um homem
para chamar de seu
Mais numerosas no bloco do eu sozinho, as mulheres são vítimas
da chamada "compressão do mercado matrimonial", nome pomposo para
a conhecida falta de homens dispostos a casar. "Nos grupos de discussão
acompanhados por VEJA, percebe-se claramente como boa parte das mulheres
não consegue enxergar a possibilidade de casar-se", analisa a psicóloga
Suzy Cortoni, diretora da Comsenso. "Elas nem falam em filhos, porque
acreditam que só por um golpe de sorte vão constituir família.
Já o homem tem certeza de que vai encontrar uma parceira
se não para dividir o mesmo teto, pelo menos uma pessoa fixa para
fazer sexo, ficar junto no fim de semana e cuidar dele se ficar doente."
Outra conclusão do grupo feminino reunido pela agência é
que falta de oportunidade está longe de significar falta de vontade:
as mulheres querem, sim, um homem para chamar de seu. "Por mais emancipadas
que sejamos, sempre guardamos um véu e grinalda na bolsa", diz
a socióloga paulista Ana Lúcia Miranda, 46 anos, separada
há seis e morando sozinha há dois, desde que o único
filho casou. "A vida não compartilhada ainda é uma idéia
difícil de ser encarada por nós, brasileiras. Somos muito
ligadas à família."
Selmy Yassuda

CLAUDIA
DIAS,
34 anos, publicitária carioca
Separada, mora sozinha há quatro anos
Vantagem
"Pela primeira vez na vida, a casa é minha, tem
a minha cara."
Desvantagem
"É terrível estar sozinha quando o telefone
toca de madrugada." |
Dona de um instituto de pesquisa em São Paulo, o Nominal, Ana Lúcia
entrevista cerca de oitenta pessoas por semana e, nos últimos anos,
vem observando os hábitos e costumes de quem mora sozinho. Ela
constata que o homem só mora sozinho porque se separou ou passou
dos 30 anos e não deu mais para permanecer com papai e mamãe.
Já no caso da mulher, é comum o desejo de viver só
aos 20 e poucos anos, como afirmação de independência
e reconhecimento pelo esforço dedicado à profissão.
Outra diferença é que, quando se separa, o homem quer provar
à ex e ao mundo que consegue trabalhar e cuidar da casa ao mesmo
tempo: contrata diarista, compra todo tipo de eletrodoméstico,
adora fazer supermercado e aprende a cozinhar. A mulher foge do fogão
porque não quer nem mesmo lembrar-se dos tempos de dona-de-casa.
Prefere os congelados e pratos prontos. Aliás, nos últimos
três anos, o mercado de pratos prontos cresceu 323% no Brasil. De
acordo com a indústria, isso se deve ao aumento do número
de pessoas sós. Quem vai sempre ao supermercado percebe a mudança
de padrões: os congelados vêm em porções menores,
queijos e doces são oferecidos em embalagens individuais, abre-se
espaço para a meia garrafa de vinho. "Comer sozinha à mesa,
nem pensar. Só se for um lanchinho na frente da TV e ainda falando
ao telefone com alguma amiga", diz a advogada paulistana Eliana Jayme,
53 anos, que decorou com bons quadros a cozinha, lugar que raramente freqüenta.
Apesar de ter quatro televisões, três videocassetes e três
aparelhos de som, Eliana pouco pára em casa. "Gosto de morar sozinha,
mas tenho uma vida profissional e social muito agitada", conta ela.
Bichos
de estimação
Há um estilo masculino e outro feminino de encarar a solidão.
Elas saem com outras mulheres e freqüentam bastante restaurantes,
teatros e cinemas. Eles só saem com outros homens para paquerar,
ver jogo de futebol ou praticar esportes. As mulheres não gostam
de passar fins de semana sozinhas; os homens, em matéria de convivência
social, no máximo saem para almoçar na casa da mãe.
"Vivo me comunicando com os outros. Passo a semana toda tendo almoços,
jantares, eventos. A última coisa que quero fazer quando estou
em casa é me comunicar. Quero tranqüilidade", diz o carioca
Claudio Versiani, 35 anos, subprefeito da Zona Sul do Rio de Janeiro,
que saiu da casa dos pais há dois anos. Em comum, os sozinhos de
ambos os sexos dedicam-se integralmente à profissão, maior
fonte de prazer e reconhecimento dos que não têm uma família.
"Desde que me mudei, estou podendo dedicar todo o tempo do mundo ao trabalho",
alegra-se Versiani. Muitos adiam os planos de casar e ter filhos até
o ponto em que, cheios de manias e acostumados a viver sozinhos, percebem
que já não conseguem compartilhar a casa com ninguém.
"No futuro, as pessoas vão viver a maior parte do tempo sozinhas
e passar somente alguns períodos ao lado de alguém", aposta
a psicóloga Magdalena Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal
e Família da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo.
Liane Neves

ATÍLIO
MANZOLI JR.,
44 anos, empresário gaúcho
Separado, mora sozinho há dezessete anos
Vantagem
"Sou muito organizado. Não suporto toalha molhada em
cima da cama ou tubo de pasta de dente apertado no meio."
Desvantagem
"Não gosto de comer sozinho em casa, nem em restaurante.
Sempre tenho de convidar alguém." |
Para os negócios, o bloco dos bem-sucedidos que moram sozinhos
é uma mina de ouro: gente com a gana consumista de um jovem e a
conta bancária de quem tem a vida feita. "Em vez de economizarem
para a educação dos filhos, essas pessoas investem nelas,
gastando o que querem com personal trainers, salões de beleza,
spas e tudo que lhes propiciar conforto e prazer no dia-a-dia", comenta
Ana Paula Cortat, diretora de pesquisa da agência de publicidade
Leo Burnett. "Preenchem o cotidiano com diversas atividades, para não
se sentirem sós: fazem cursos, experimentam terapias alternativas,
e por aí vai." Quem mais tira proveito desse emergente grupo social
são os setores de serviços e entretenimento. Nos Estados
Unidos, onde em trinta anos seu número aumentou 50%, os singles,
como são chamados, movimentam 80 bilhões de dólares
por ano. No Brasil, a Associação Brasileira de Agências
de Viagens estima que esse grupo foi responsável por 30% dos 4,5
milhões de viagens a passeio feitas no ano passado. Metade dos
aparelhos de DVD e um terço dos telefones celulares do país
(sendo o telefone, como se sabe, o melhor amigo de quem mora sozinho)
estão nas mãos de solteiros, divorciados e viúvos.
Falou-se
que a solidão pode ser boa e relaxante. Ela é importante
para a concentração, a memória, a reflexão
e para expandir a criatividade. O problema é que quem vive só
não consegue mais escolher quando e quanto deseja desfrutar esses
momentos ele está sempre sozinho, e a vida fica sem graça.
Para quem já se aposentou, está velho e não tem um
trabalho como motivação, a solidão, quando ataca,
pode ser ainda mais acachapante. "Nunca tive família. Minha família
sempre foram meus amigos. O que me entristece é que muitos deles
já se foram e é disso que tenho medo: viver demais e acabar
sem ninguém com quem eu possa dividir meu passado", diz Margarita
Schullman, que, aos 78 anos, mora no asilo Lar Golda Meir, em São
Paulo. Não há, na vida de quem é sozinho, uma medida
que permita diferenciar, como no colesterol, a quantidade de solidão
"boa" da "ruim". Uma pessoa pode passar a maior parte do tempo sozinha
e se sentir bem, ser boa companhia para si mesma. Outra pode estar cercada
de gente e se sentir a única no mundo o que é fruto
das circunstâncias (um casamento infeliz, por exemplo) ou de uma
dimensão mais existencial, cósmica (a solidão descrita
por poetas e escritores).
Para evitar
a solidão, há os que têm bichos de estimação
e os que se apegam a afilhados e parentes. Ter família, ou alguma
companhia, é uma apólice de seguro para a velhice, e quem
não tem sente que precisa arranjar alguém para exercer esse
papel. "Estreitar os vínculos com os amigos vai ganhando importância
com a idade", comenta a psicóloga Ceres Alves de Araújo,
professora da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Outro morador do Lar Golda Meir, o carioca Bernardo Mejlachowicz,
80 anos, confirma: momentos de solidão profunda podem ser atenuados
quando se tem muita gente em volta. "Meu truque para afastar a solidão
é deitar na cama, fechar os olhos e reviver minha vida: penso na
minha mulher, que já morreu mas por quem sou apaixonado até
hoje, e nos filhos espalhados por aí. Isso me deixa feliz. Mas
às vezes vejo na TV uma cena de família fazendo festa e
fico muito triste", revela. "Aí, eu choro. Choro bastante. Depois
lavo o rosto e vou dançar. Prefiro isso a enfiar a mão no
bolso e ficar andando de cabeça baixa." Mejlachowicz encara da
melhor forma possível um dos piores pesadelos de quem mora sozinho:
o de terminar seus dias num asilo de velhos.
Com
reportagem de Bel Moherdaui,
Thaís Oyama e Diogo Schelp
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BOM
NEGÓCIO
O
número crescente de pessoas que moram sozinhas está
ajudando a promover uma revolução no comércio.
Os solitários, principalmente as mulheres, não gostam
muito de ir para a cozinha e apreciam a praticidade na hora de preparar
uma refeição. Para atendê-los, a meia garrafa
de vinho e as embalagens com quantidades pequenas de pão,
queijo, ovos e outros produtos ganharam espaço nas prateleiras
dos supermercados. A seu lado, aumenta, diversifica-se e ganha qualidade
a oferta de pratos prontos, congelados ou de preparo instantâneo
nos últimos três anos, esse mercado teve um
crescimento de 323% no país. Solteiros e separados também
apreciam os eletrônicos: compram metade dos aparelhos de DVD
e um terço de todos os telefones celulares produzidos no
Brasil.
Fotos Fabio Mangabeira/Romero Cruz/divulgação
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