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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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Regis Filho

ELIANA AMORIN JAYME,
53 anos, advogada paulistana
Três casamentos desfeitos, mora sozinha há sete anos
Vantagem
"As pessoas vêm, ficam um tempo e vão embora. A casa está sempre arrumadinha, e eu posso ficar sozinha quando quero."
Desvantagem
"A gente vai criando um excesso de manias que dificulta uma nova convivência a dois."


A premência pode ter diminuído, está mais fácil bancar o auto-suficiente, mas um certo sentimento de fracasso persiste e, em muitos casos, a solidão atrapalha a vida. Segundo estudos médicos, a falta de um parceiro contribui para debilitar a saúde. Explica-se: os solitários tendem a levar dia-a-dia mais desregrado, com menos rotina, o que do ponto de vista orgânico é uma bomba-relógio. Perturbações de ordem psicológica também podem surgir: a solidão força a pessoa a conviver consigo mesma dentro de um quadro de introspecção que pode tornar-se insuportavelmente sufocante. Tudo somado, as estatísticas confirmam que solteiros e divorciados têm mais possibilidade de cometer suicídio e são vítimas mais freqüentes de depressão, diabetes, câncer de fígado e de pulmão. Sua expectativa de vida é menor. Entre os casados com 48 anos de idade, cerca de 90% deverão viver até os 65 anos. Já entre os solteiros, essa proporção alcança 60%. "É curioso notar que quem mora só e acredita estar bem assim afirma que trocou a tensão, a raiva e o stress do convívio doméstico pela tranqüilidade de viver sem ninguém", observa o psicanalista carioca Luiz Alberto Py. "Viver só, no entanto, dá muito trabalho. É chato não ter ninguém para cuidar da casa ou de nós quando ficamos doentes. Além disso, nem sempre é satisfatório ter de pegar a agenda de telefone e sair pelos bares para dar um jeito na vida sexual", acrescenta. No limite, cai-se doente.

Um homem para chamar de seu – Mais numerosas no bloco do eu sozinho, as mulheres são vítimas da chamada "compressão do mercado matrimonial", nome pomposo para a conhecida falta de homens dispostos a casar. "Nos grupos de discussão acompanhados por VEJA, percebe-se claramente como boa parte das mulheres não consegue enxergar a possibilidade de casar-se", analisa a psicóloga Suzy Cortoni, diretora da Comsenso. "Elas nem falam em filhos, porque acreditam que só por um golpe de sorte vão constituir família. Já o homem tem certeza de que vai encontrar uma parceira – se não para dividir o mesmo teto, pelo menos uma pessoa fixa para fazer sexo, ficar junto no fim de semana e cuidar dele se ficar doente." Outra conclusão do grupo feminino reunido pela agência é que falta de oportunidade está longe de significar falta de vontade: as mulheres querem, sim, um homem para chamar de seu. "Por mais emancipadas que sejamos, sempre guardamos um véu e grinalda na bolsa", diz a socióloga paulista Ana Lúcia Miranda, 46 anos, separada há seis e morando sozinha há dois, desde que o único filho casou. "A vida não compartilhada ainda é uma idéia difícil de ser encarada por nós, brasileiras. Somos muito ligadas à família."


Selmy Yassuda

CLAUDIA DIAS,
34 anos, publicitária carioca
Separada, mora sozinha há quatro anos
Vantagem
"Pela primeira vez na vida, a casa é minha, tem a minha cara."
Desvantagem
"É terrível estar sozinha quando o telefone toca de madrugada."


Dona de um instituto de pesquisa em São Paulo, o Nominal, Ana Lúcia entrevista cerca de oitenta pessoas por semana e, nos últimos anos, vem observando os hábitos e costumes de quem mora sozinho. Ela constata que o homem só mora sozinho porque se separou ou passou dos 30 anos e não deu mais para permanecer com papai e mamãe. Já no caso da mulher, é comum o desejo de viver só aos 20 e poucos anos, como afirmação de independência e reconhecimento pelo esforço dedicado à profissão. Outra diferença é que, quando se separa, o homem quer provar à ex e ao mundo que consegue trabalhar e cuidar da casa ao mesmo tempo: contrata diarista, compra todo tipo de eletrodoméstico, adora fazer supermercado e aprende a cozinhar. A mulher foge do fogão porque não quer nem mesmo lembrar-se dos tempos de dona-de-casa. Prefere os congelados e pratos prontos. Aliás, nos últimos três anos, o mercado de pratos prontos cresceu 323% no Brasil. De acordo com a indústria, isso se deve ao aumento do número de pessoas sós. Quem vai sempre ao supermercado percebe a mudança de padrões: os congelados vêm em porções menores, queijos e doces são oferecidos em embalagens individuais, abre-se espaço para a meia garrafa de vinho. "Comer sozinha à mesa, nem pensar. Só se for um lanchinho na frente da TV e ainda falando ao telefone com alguma amiga", diz a advogada paulistana Eliana Jayme, 53 anos, que decorou com bons quadros a cozinha, lugar que raramente freqüenta. Apesar de ter quatro televisões, três videocassetes e três aparelhos de som, Eliana pouco pára em casa. "Gosto de morar sozinha, mas tenho uma vida profissional e social muito agitada", conta ela.

Bichos de estimação – Há um estilo masculino e outro feminino de encarar a solidão. Elas saem com outras mulheres e freqüentam bastante restaurantes, teatros e cinemas. Eles só saem com outros homens para paquerar, ver jogo de futebol ou praticar esportes. As mulheres não gostam de passar fins de semana sozinhas; os homens, em matéria de convivência social, no máximo saem para almoçar na casa da mãe. "Vivo me comunicando com os outros. Passo a semana toda tendo almoços, jantares, eventos. A última coisa que quero fazer quando estou em casa é me comunicar. Quero tranqüilidade", diz o carioca Claudio Versiani, 35 anos, subprefeito da Zona Sul do Rio de Janeiro, que saiu da casa dos pais há dois anos. Em comum, os sozinhos de ambos os sexos dedicam-se integralmente à profissão, maior fonte de prazer e reconhecimento dos que não têm uma família. "Desde que me mudei, estou podendo dedicar todo o tempo do mundo ao trabalho", alegra-se Versiani. Muitos adiam os planos de casar e ter filhos até o ponto em que, cheios de manias e acostumados a viver sozinhos, percebem que já não conseguem compartilhar a casa com ninguém. "No futuro, as pessoas vão viver a maior parte do tempo sozinhas e passar somente alguns períodos ao lado de alguém", aposta a psicóloga Magdalena Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.


Liane Neves

ATÍLIO MANZOLI JR.,
44 anos, empresário gaúcho
Separado, mora sozinho há dezessete anos
Vantagem
"Sou muito organizado. Não suporto toalha molhada em cima da cama ou tubo de pasta de dente apertado no meio."
Desvantagem
"Não gosto de comer sozinho em casa, nem em restaurante. Sempre tenho de convidar alguém."


Para os negócios, o bloco dos bem-sucedidos que moram sozinhos é uma mina de ouro: gente com a gana consumista de um jovem e a conta bancária de quem tem a vida feita. "Em vez de economizarem para a educação dos filhos, essas pessoas investem nelas, gastando o que querem com personal trainers, salões de beleza, spas e tudo que lhes propiciar conforto e prazer no dia-a-dia", comenta Ana Paula Cortat, diretora de pesquisa da agência de publicidade Leo Burnett. "Preenchem o cotidiano com diversas atividades, para não se sentirem sós: fazem cursos, experimentam terapias alternativas, e por aí vai." Quem mais tira proveito desse emergente grupo social são os setores de serviços e entretenimento. Nos Estados Unidos, onde em trinta anos seu número aumentou 50%, os singles, como são chamados, movimentam 80 bilhões de dólares por ano. No Brasil, a Associação Brasileira de Agências de Viagens estima que esse grupo foi responsável por 30% dos 4,5 milhões de viagens a passeio feitas no ano passado. Metade dos aparelhos de DVD e um terço dos telefones celulares do país (sendo o telefone, como se sabe, o melhor amigo de quem mora sozinho) estão nas mãos de solteiros, divorciados e viúvos.

Falou-se que a solidão pode ser boa e relaxante. Ela é importante para a concentração, a memória, a reflexão e para expandir a criatividade. O problema é que quem vive só não consegue mais escolher quando e quanto deseja desfrutar esses momentos – ele está sempre sozinho, e a vida fica sem graça. Para quem já se aposentou, está velho e não tem um trabalho como motivação, a solidão, quando ataca, pode ser ainda mais acachapante. "Nunca tive família. Minha família sempre foram meus amigos. O que me entristece é que muitos deles já se foram e é disso que tenho medo: viver demais e acabar sem ninguém com quem eu possa dividir meu passado", diz Margarita Schullman, que, aos 78 anos, mora no asilo Lar Golda Meir, em São Paulo. Não há, na vida de quem é sozinho, uma medida que permita diferenciar, como no colesterol, a quantidade de solidão "boa" da "ruim". Uma pessoa pode passar a maior parte do tempo sozinha e se sentir bem, ser boa companhia para si mesma. Outra pode estar cercada de gente e se sentir a única no mundo – o que é fruto das circunstâncias (um casamento infeliz, por exemplo) ou de uma dimensão mais existencial, cósmica (a solidão descrita por poetas e escritores).

Para evitar a solidão, há os que têm bichos de estimação e os que se apegam a afilhados e parentes. Ter família, ou alguma companhia, é uma apólice de seguro para a velhice, e quem não tem sente que precisa arranjar alguém para exercer esse papel. "Estreitar os vínculos com os amigos vai ganhando importância com a idade", comenta a psicóloga Ceres Alves de Araújo, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Outro morador do Lar Golda Meir, o carioca Bernardo Mejlachowicz, 80 anos, confirma: momentos de solidão profunda podem ser atenuados quando se tem muita gente em volta. "Meu truque para afastar a solidão é deitar na cama, fechar os olhos e reviver minha vida: penso na minha mulher, que já morreu mas por quem sou apaixonado até hoje, e nos filhos espalhados por aí. Isso me deixa feliz. Mas às vezes vejo na TV uma cena de família fazendo festa e fico muito triste", revela. "Aí, eu choro. Choro bastante. Depois lavo o rosto e vou dançar. Prefiro isso a enfiar a mão no bolso e ficar andando de cabeça baixa." Mejlachowicz encara da melhor forma possível um dos piores pesadelos de quem mora sozinho: o de terminar seus dias num asilo de velhos.

Com reportagem de Bel Moherdaui,
Thaís Oyama e Diogo Schelp

 

BOM NEGÓCIO

O número crescente de pessoas que moram sozinhas está ajudando a promover uma revolução no comércio. Os solitários, principalmente as mulheres, não gostam muito de ir para a cozinha e apreciam a praticidade na hora de preparar uma refeição. Para atendê-los, a meia garrafa de vinho e as embalagens com quantidades pequenas de pão, queijo, ovos e outros produtos ganharam espaço nas prateleiras dos supermercados. A seu lado, aumenta, diversifica-se e ganha qualidade a oferta de pratos prontos, congelados ou de preparo instantâneo – nos últimos três anos, esse mercado teve um crescimento de 323% no país. Solteiros e separados também apreciam os eletrônicos: compram metade dos aparelhos de DVD e um terço de todos os telefones celulares produzidos no Brasil.


Fotos Fabio Mangabeira/Romero Cruz/divulgação



   
 
   
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