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Entre
a fé
e a lei
Nos Estados Unidos, um padre
viola o segredo do confessionário.
Na França, um bispo será julgado
por guardar sigilo
Moses Saman/AP/Newsday
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AFP
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O
padre Joseph Towle (à esq.) teria de manter o compromisso com
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Moses Saman/AP/Newsday
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AFP
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| O
padre Joseph Towle (à esq.) teria de manter o compromisso com
o sacramento mesmo após a morte do assassino. Na prática, assinou
a própria expulsão da Igreja. No caso do bispo Pierre Pican, a recusa
em revelar a um tribunal se sabia ou não que tinha um subordinado
molestando crianças o colocou sob risco de condenação por cumplicidade |
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Dois
religiosos estão sentindo na carne o drama de viver sob dogmas
divinos. Um, o padre Joseph Towle, mora em Nova York e livrou-se de um
peso na consciência, na segunda-feira da semana passada, ao revelar
um segredo de confessionário que manteve por doze anos. O outro,
o bispo francês Pierre Pican, pode ser condenado como cúmplice
de um molestador de crianças por sustentar um sigilo. O jesuíta
americano revelou aos integrantes de um tribunal federal de recursos o
nome de um dos autores de um assassinato cometido em 1987, no bairro do
Bronx. Durante esses anos, dois outros homens estiveram presos, condenados
pelo crime. Mas só em 1997, quando o verdadeiro assassino morreu,
o padre passou a cogitar de revelar o que sabia. Jesus Fornes, o criminoso,
contou a Towle ter participado do homicídio, a facadas, tempos
depois do fato. Não foi uma confissão com todos os rituais
determinados pela religião, feita numa igreja, por exemplo, mas
ao final daquela conversa ele deu a absolvição a Fornes.
Para a Igreja, isso caracteriza uma relação sagrada, a do
confessor com um fiel arrependido. Por ter violado esse sacramento, o
padre Towle pode ser automaticamente excomungado expulso da Igreja.
"Não
há meio-termo quando se trata de violação do sigilo
do confessionário depois da absolvição", explica
o vigário episcopal da Arquidiocese de São Paulo, monsenhor
Arnaldo Beltrami. As regras são essas desde 1547, quando a confissão
ganhou a forma atual estabelecida pelo Concílio de Trento, durante
o processo de reação da Igreja à Reforma Protestante.
A punição está definida no cânon nº 1
388: "O confessor que violar diretamente o sigilo sacramental incorre
em excomunhão latae sententiae (automática)". Antes
que se adotasse essa regra, houve épocas em que, dentro de grupos
mais convictos, o penitente revelava seus pecados em público, diante
de outros fiéis. No caso do padre Towle, mais uma testemunha conviveu
por muito tempo com a certeza de que havia inocentes pagando pelos culpados.
O advogado Stanley Cohen também ficou sabendo por Fornes, depois
do julgamento, quem era o real culpado pelo crime . e na época
o aconselhou a calar-se sobre isso. A ética dos advogados não
permite que eles mintam, mas não os obriga a incriminar seus clientes.
AP
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casamento do bispo Emmanuel Milingo, celebrado pelo reverendo Moon
no Hilton Hotel de Nova York: "Deus me chamou para isso" |
Para
os padres, uma vez proferido o perdão, que se crê de origem
divina, nada pode romper o segredo. Essa condição já
deu origem a obras instigantes, como o filme A Tortura do Silêncio,
de Alfred Hitchcock. O ator Montgomery Clift vive o padre Logan, que
recebe uma confissão de assassinato e sofre um duro martírio
por não poder revelar o que sabe. Acaba ele mesmo acusado pelo
crime do qual ninguém mais conhece o autor. Mas a vida real não
deve nada à ficção. Na França, o bispo da
província de Bayeux aguarda julgamento desde fevereiro por ter
cumprido a regra da Igreja. Promotores o acusam de ter ouvido, em 1996,
uma confissão do padre René Bissey em que admitia ter estuprado
um menino diversas vezes e molestado outros. Ainda segundo a acusação,
o bispo teria punido Bissey com um afastamento temporário e a remoção
para outra paróquia, na qual seis meses depois o padre voltou a
lidar com crianças. No julgamento de Bissey, o bispo Pierre Pican
se recusou a dizer se tinha ou não conhecimento do comportamento
anormal do padre, invocando o sigilo do confessionário.
Quando confrontados com essas questões, os guardiões da
doutrina encontram respostas rapidamente. "Se o caso é de um crime
que ainda vai ter conseqüências, como uma bomba colocada em
algum lugar, eu simplesmente não dou a absolvição
e chamo a polícia", diz o padre Beltrami. No Vaticano, a análise
desses casos cabe à Congregação para a Doutrina da
Fé, presidida pelo cardeal Joseph Ratzinger. Mesmo quando a excomunhão
é considerada automática, é normal que a Santa Sé
se pronuncie publicamente em casos notórios, para reafirmar os
dogmas. Isso envolve também os casos de padres que violam o celibato,
abandonam a Igreja ou excedem a competência religiosa. Num episódio
recente, a Congregação analisa o comportamento de um arcebispo
que conseguiu infringir todos os preceitos ao mesmo tempo. Trata-se de
Emmanuel Milingo, de 71 anos, da Zâmbia, mas há anos atuando
em Roma. Seu primeiro problema era a prática do curandeirismo e
do exorcismo, contra os quais o Vaticano, tolerante, chegou a divulgar
um documento disciplinador, sem citá-lo nominalmente. "Qualquer
coisa que se assemelhe a histeria, histrionice, teatralidade ou sensacionalismo
deve ser mantida distante", reza uma norma do documento publicado no ano
passado.
Para Milingo, isso não adiantou nada. Dois meses atrás,
histriônico e teatral, ele se casou com a coreana Maria Sung, de
43 anos, no Hilton Hotel de Nova York. A cerimônia foi celebrada
pelo controverso reverendo Sun Myung Moon, da seita Unificação
pela Paz Mundial. "Deus me chamou para o casamento", disse o noivo. "A
hipótese de ser excomungado não me afeta em nada." O Vaticano
ainda vai analisar oficialmente se Milingo se enquadra num caso de apostasia
renúncia da fé. "Mas esse já é um caso
resolvido de antemão", diz o padre Eduardo Rodrigues, do Tribunal
Eclesiástico em São Paulo. "Na prática, ele se auto-excomungou,
renunciando até ao batismo ao se submeter aos ritos de outra seita."
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