Conta
que insulta
A
Philip Morris diz que checos
têm um bom
lucro com a morte
precoce de fumantes
Anna Paula
Buchalla
O cigarro
anda fazendo mal ao bom senso. Na semana passada, veio a público
um relatório da Philip Morris com o mais extravagante dos argumentos:
que o vício do tabaco faz bem à saúde financeira
de um país porque faz mal à saúde da população.
Conforme um estudo encomendado pela fábrica de cigarros americana
à empresa de="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="1">Anna Paula
Buchalla
O cigarro
anda fazendo mal ao bom senso. Na semana passada, veio a público
um relatório da Philip Morris com o mais extravagante dos argumentos:
que o vício do tabaco faz bem à saúde financeira
de um país porque faz mal à saúde da população.
Conforme um estudo encomendado pela fábrica de cigarros americana
à empresa de consultoria Arthur D. Little, graças à
morte precoce de fumantes o governo da República Checa poupou 30
milhões de dólares só no ano de 1999. Esse dinheiro,
diz o trabalho, equivale ao que seria gasto com tratamentos médicos,
pensões e aposentadorias dessas pessoas caso elas tivessem continuado
vivas. O documento reconhece que os cofres públicos perdem em arrecadação
de impostos com a morte do viciado. Mas contrapõe que o lugar do
morto pode ser preenchido por um desempregado e aí o poder
público economiza com os encargos sociais do auxílio-desemprego.
Resumindo os argumentos: a maior fabricante de cigarros do mundo tenta
provar que seu produto é bom para a economia porque mata os consumidores.
Claro que o estudo também relaciona o lucro de 147,1 milhões
de dólares, em taxas e impostos que o governo checo arrecadou dos
fumantes no mesmo período.
O
relatório da Philip Morris pretende ser uma resposta ao governo
da República Checa, que acusara a indústria de produzir
rombos no cofres públicos por causa dos tratamentos de males causados
pelo fumo. Dos cerca de 10 milhões de checos, 46% são fumantes.
Destes, oito em cada dez fumam cigarros da Philip Morris. Segundo a empresa,
a pesquisa é "um mero estudo sobre o impacto econômico do
cigarro nas finanças". O dinheiro que o cigarro gera, aliás,
é o último recurso dos executivos do tabaco para justificar
o vício. O mercado mundial de cigarros movimenta 300 bilhões
de dólares anuais. As fábricas geram empregos e impostos
que vão direto para os cofres públicos, argumentam. No Brasil,
por exemplo, o cigarro propicia uma arrecadação anual de
5,5 bilhões de reais em impostos. Em torno de 2 bilhões
são gastos com o tratamento de saúde dos fumantes. Ou seja,
sobram aos cofres públicos 3,5 bilhões.
Pelos critérios
do relatório, as doenças e mortes estão produzindo
um superávit considerável para o governo. Os antitabagistas
explicam que as falhas do documento vão além da insanidade
dos argumentos. As contas não consideraram, por exemplo, o fato
de que, quando adoecem ou são submetidos a uma cirurgia, os fumantes
têm de fazer exames mais custosos e passam por tratamentos mais
longos. Com esse dado na balança, provavelmente se demonstraria
que o governo checo tem razão de reclamar. Outra falha do trabalho
foi desconsiderar que a maioria dos óbitos de fumantes é
registrada entre os 35 e 69 anos, quando as pessoas estão no auge
de sua capacidade produtiva.
O relatório
é um sinal do nível de tensão a que chegou a indústria
do tabaco. Em todo o mundo, ela tem sido alvo de processos milionários,
movidos por ex-fumantes ou parentes de viciados mortos. No Brasil, oito
pessoas morrem por hora em conseqüência de males que podem
ser detonados ou agravados pelo fumo. Mais de 25% das mortes por doenças
cardiovasculares e 90% dos casos de câncer de pulmão são
atribuídos ao cigarro. No próximo estudo, espera-se que
as fábricas de cigarros façam contas também sobre
o impacto econômico representado pelas pessoas que abandonam o vício
e passam a gastar seu dinheiro com coisas mais saudáveis.
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