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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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Cochilo perigoso

Doentes de apnéia causam
mais acidentes que bêbados

Neide Oliveira

 

Christian Parente

Bateu: motoristas nem se dão conta de ter dormido

Os motoristas que sofrem de apnéia – surtos de interrupção da respiração durante o sono – estão sete vezes mais propensos a se envolver em acidentes de trânsito que pessoas que não apresentam o distúrbio. E o pior: os apnéicos têm o dobro de probabilidade de bater o carro quando comparados com quem dirige alcoolizado. Portanto, uma parcela considerável das 40.000 mortes por ano no trânsito brasileiro acontece por causa de uma doença que pode ser tratada, mas é ignorada pela maioria das pessoas que a têm. "O total de acidentes com doentes de apnéia pode ser até maior", diz o médico Geraldo Rizzo, coordenador do Laboratório do Sono, o Sonolab, de Porto Alegre, onde um estudo de casos concluiu que pelo menos 20% das colisões envolvem um motorista sonolento ou adormecido. "Muita gente nem se dá conta de que dormiu ao volante."

O diretor do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo, Sérgio Tufik, explica que as noites maldormidas – há casos de pessoas que acordam mais de uma centena de vezes sem perceber – têm efeito cumulativo no organismo. Essa é a principal diferença entre o apnéico e o alcoólatra. Quem bebe em geral retoma a consciência depois do porre. Quem dorme mal está cada dia mais sonolento e sujeito a desastres. Na maioria dos casos, o doente cochila quando está dirigindo numa reta, sozinho, e não faz nada para evitar a batida. O médico mineiro José Reinaldo Mol ficou paraplégico num acidente assim. Dormiu ao volante, não fez uma curva e bateu no barranco. "Só me lembro de ter caído violentamente no chão", diz José Reinaldo.

Uma pesquisa do Instituto do Sono detectou que 43% dos motoristas de ônibus interestaduais sofrem de sonolência excessiva. Estima-se que 70% da população brasileira tenha algum tipo de distúrbio do sono e que 8 milhões possam ser classificados como apnéicos. É possível curá-los com cirurgia ou com o uso de aparelhos que impedem as paradas respiratórias noturnas. O diagnóstico exige dormir uma noite numa clínica, monitorado por equipamentos. Nos Estados Unidos e no Canadá, apnéicos são considerados inaptos para dirigir até que se tratem. No Brasil, uma resolução em debate no Conselho Nacional de Trânsito propõe medida semelhante.

   
 
   
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