Cochilo perigoso
Doentes
de apnéia causam
mais acidentes que bêbados

Neide Oliveira
Christian Parente

Bateu:
motoristas nem se dão conta de ter dormido |
Os motoristas
que sofrem de apnéia surtos de interrupção
da respiração durante o sono estão sete vezes
mais propensos a se envolver em acidentes de trânsito que pessoas
que não apresentam o distúrbio. E o pior: os apnéicos
têm o dobro de probabilidade de bater o carro quando comparados
com quem dirige alcoolizado. Portanto, uma parcela considerável
das 40.000 mortes por ano no trânsito
brasileiro acontece por causa de uma doença que pode ser tratada,
mas é ignorada pela maioria das pessoas que a têm. "O total
de acidentes com doentes de apnéia pode ser até maior",
diz o médico Geraldo Rizzo, coordenador do Laboratório do
Sono, o Sonolab, de Porto Alegre, onde um estudo de casos concluiu que
pelo menos 20% das colisões envolvem um motorista sonolento ou
adormecido. "Muita gente nem se dá conta de que dormiu ao volante."
O diretor
do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo, Sérgio
Tufik, explica que as noites maldormidas há casos de pessoas
que acordam mais de uma centena de vezes sem perceber têm
efeito cumulativo no organismo. Essa é a principal diferença
entre o apnéico e o alcoólatra. Quem bebe em geral retoma
a consciência depois do porre. Quem dorme mal está cada dia
mais sonolento e sujeito a desastres. Na maioria dos casos, o doente cochila
quando está dirigindo numa reta, sozinho, e não faz nada
para evitar a batida. O médico mineiro José Reinaldo Mol
ficou paraplégico num acidente assim. Dormiu ao volante, não
fez uma curva e bateu no barranco. "Só me lembro de ter caído
violentamente no chão", diz José Reinaldo.
Uma pesquisa
do Instituto do Sono detectou que 43% dos motoristas de ônibus interestaduais
sofrem de sonolência excessiva. Estima-se que 70% da população
brasileira tenha algum tipo de distúrbio do sono e que 8 milhões
possam ser classificados como apnéicos. É possível
curá-los com cirurgia ou com o uso de aparelhos que impedem as
paradas respiratórias noturnas. O diagnóstico exige dormir
uma noite numa clínica, monitorado por equipamentos. Nos Estados
Unidos e no Canadá, apnéicos são considerados inaptos
para dirigir até que se tratem. No Brasil, uma resolução
em debate no Conselho Nacional de Trânsito propõe medida
semelhante.
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