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Corrida para salvar as relíquias chinesas

A China vai remover prédios
históricos antes que sejam
submersos em lago de hidrelétrica

O governo chinês está iniciando o mais audacioso projeto de resgate arqueológico já visto: serão removidos e remontados em outro lugar 118 monumentos históricos que se encontram na rota da inundação que encherá o lago da hidrelétrica de Três Gargantas, a maior do mundo. O reservatório terá 600 quilômetros de extensão quando estiver pronto, em 2009. O centro da operação de salvamento é a cidade de Dachang, com 150.000 habitantes, às margens do Rio Yang Tsé. Dentro de dois anos, a cidade estará submersa a 140 metros de profundidade. Desde o mês passado, sob o comando de uma equipe de arqueólogos, vêm sendo desmontados os portões, a muralha que cerca a cidade e 38 edificações construídas mais de quatro séculos atrás. Os monumentos serão remontados a 5 quilômetros de distância e a reconstrução se elevará à categoria de cidade-museu. Também será removido o templo de Zhang Fei, erguido há 1.800 anos na margem esquerda do rio.

A maior parte das relíquias a ser preservadas em Dachang data da dinastia Ming (1368­1644) e tem valor histórico inestimável. Cada pilar, azulejo ou pedra retirado da cidade está sendo numerado para não haver erro na hora de remontar o quebra-cabeça. As peças deterioradas ou que se perderam na transferência serão reconstituídas com material similar ao das originais, com a utilização das mesmas técnicas empregadas na construção. Os esforços para salvar o patrimônio cultural só estão começando agora, quase uma década depois do início das obras, devido à péssima repercussão causada pelas notícias da devastação iminente. Além dos monumentos e prédios históricos, estima-se que 8.000 sítios de interesse arqueológico sejam destruídos. O governo chinês anunciou que vai gastar 12 milhões de dólares para escavar e estudar 224 deles antes que a água suba. Até Três Gargantas ficar pronta, pelo menos 21 cidades e 365 vilarejos serão engolidos pela água. Cerca de 2 milhões de moradores serão transferidos para outros locais. Com capacidade de geração 50% superior à de Itaipu, a nova hidrelétrica será suficiente para produzir 10% de toda a eletricidade de que os chineses precisam.

O único resgate de patrimônio histórico de dimensões comparáveis às do que está em curso na China ocorreu durante a construção da Represa de Assuã, no Egito, na década de 60. Com ajuda internacional, catorze templos, entre eles o famoso Abu Simbel, com quatro estátuas gigantescas do faraó Ramsés II, foram removidos em blocos de 30 toneladas. Vagões de trem foram especialmente construídos para transportá-los e evitar que submergissem nos 500 quilômetros de extensão do Lago Nasser. "As barragens melhoram o clima, regulam as enchentes e ampliam a oferta de energia elétrica, mas apagam boa parte da História, por mais esforços que se façam", diz Antonio Brancaglion, professor de arte egípcia do Museu de Arte de São Paulo. "No Egito, pedras com gravações pré-históricas se perderam para sempre", completa. No ano passado, mais de 250 trabalhadores chefiados por arqueólogos europeus resgataram boa parte de uma das mais ricas coleções existentes de mosaicos romanos. As peças adornavam ruínas de 2.000 anos às margens do Rio Eufrates e estavam prestes a desaparecer sob as águas da Represa de Birecik. O salvamento do mosaico foi um feito, mas não evitou que o restante da história do local afundasse para sempre nas profundezas de uma represa, como vai ocorrer com quase tudo nas margens do Rio Yang Tsé.

   
 
   
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