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A nova Harley

Agora, a empresa americana
também faz motocicletas para
quem gosta de alta velocidade

Murilo Ramos


AP
Com maior conforto e aerodinâmica, as V-Rod tentam agradar aos jovens e ganhar a Europa


A fábrica americana de motocicletas Harley-Davidson completará 100 anos em 2003. É uma empresa tradicional, que ainda produz artesanalmente grande parte dos apetrechos com os quais equipa as motos. Havia quase meio século não lançava um modelo. Agora, está inovando de verdade. Fez um acordo com a fábrica de carros esportivos Porsche, da Alemanha, e desenhou uma motocicleta moderníssima, num estilo radicalmente diferente do que usava. As V-Rod, nome da nova família de motos da Harley, serão colocadas à venda no mercado americano no fim do ano. No Brasil, onde fica a única fábrica da Harley-Davidson fora dos Estados Unidos, ainda não há previsão de quando estarão disponíveis. Preço mínimo, na cotação atual do dólar: 40.000 reais – quatro vezes mais que uma CB 500 da Honda. É o valor de um bom carro, como o Vectra GLS, da GM, o Golf GTI turbo, da Volks, ou o Marea HLX, da Fiat.

As V-Rod são muito parecidas com as japonesas. Não são feitas para quem gosta de desfilar lentamente, mas para quem curte a velocidade. A começar porque o tanque é estreito e o guidom, baixo, o que torna o conjunto mais aerodinâmico. Muitas peças são de alumínio, mais leve que o aço usado até agora. O motor, Porsche, não é refrigerado a ar, e sim a água. O ronco é bem mais suave. E, como o aquecimento é menor, as máquinas correm mais. Os modelos antigos da marca atingem no máximo 200 quilômetros por hora. As V-Rod chegam a 225. Além disso, as novas motocicletas também são mais confortáveis que as tradicionais. Para os apreciadores do jeitinho Harley, as V-Rod são quase uma heresia. "Somos saudosistas. Achamos muito mais interessante uma moto robusta que uma máquina potente", diz Paul Richard Manasse, de 54 anos, advogado em Campinas, no interior de São Paulo, fã das Harley.

Motoqueiros, de maneira geral, formam uma corporação. São solidários entre si e unidos contra motoristas de automóvel. Nessa trupe, os proprietários de Harley-Davidson são a elite. Em todo o planeta, os associados ao clube de donos de moto Harley somam 400.000 pessoas. Só no Brasil há 4.000. Eles são, no mundo das motos, o que os proprietários de Porsche ou Rolls-Royce são no universo automobilístico. Os donos de Harley, mais exibidos e grupais que os proprietários de automóveis caros, distinguem-se portando broches e insígnias bordadas no casaco de couro. E têm uma linguagem de sinais muito própria, que usam em ruas e estradas para comentar o clima, as condições de trânsito ou para uma simples saudação. São homens de mais de 35 anos, em sua maioria, e de vida financeira sem sobressaltos. Possuir motocicleta, para eles, é um hobby.

A Harley tem uma história fascinante. Embora mais antiga, ela marcou a origem do rock e esteve ligada ao movimento hippie, da mesma forma que hoje é associada a senhores de meia-idade e vida estável. O que a fábrica está pretendendo, com a nova motocicleta, é atualizar-se. Isso porque os aficionados das velhas Harley estão minguando. Com a máquina mais veloz, a Harley tenta cair nas graças dos mais jovens. Com o motor Porsche, quer ganhar a simpatia dos europeus. A empresa continuará vendendo produtos personalizados. Quer dizer, um comprador poderá escolher seu modelo V-Rod equipado com mais ou menos espelhos, bagageiro, banco alto, franjas de couro – como fazem os compradores dos modelos antigos. Por isso, os que tiverem vontade de experimentar a novidade precisarão ter paciência. Tudo, na Harley, tem fila de espera. E a fila deverá aumentar, se o público de fato se expandir. "Temos uma marca muito forte. Podemos nos dar ao luxo de diversificar", diz o gerente-geral da Harley-Davidson no Rio de Janeiro, José Roberto Camargo.

   
 
   
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