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Todo
mundo fala assim
Vem aí uma gramática anistiando
os principais desvios da linguagem
oral. Mas atenção: o
português
continua a merecer respeito
Leonardo
Coutinho
Deu dez horas ou deram dez horas? Hoje é quinze ou hoje são
quinze? Assisti o filme ou assisti ao filme? (Veja
respostas.)
A
vida é cheia dessas dúvidas, principalmente quando se quer
caprichar. Quem se angustia diante dessas questões vai ter uma
surpresa e um alívio: vem aí um habeas-corpus para uma infinidade
de pecados gramaticais, principalmente na língua falada. Será
lançada no segundo semestre a Gramática do Português
Culto Falado no Brasil, dando um carimbo acadêmico ao verdadeiro
português utilizado pelos brasileiros. Preparado por especialistas
de doze universidades, o trabalho não revoga as normas da boa sintaxe.
Apenas identifica a lógica gramatical praticada no dia-a-dia por
pessoas instruídas até o curso superior. Numa comparação
simples, as gramáticas tradicionais baseiam suas regras nos textos
dos melhores autores do idioma, enquanto esse novo trabalho desvenda o
português que as pessoas de fato andam falando por aí. Pela
tradicional lei da gramática, trata-se de um compêndio que
analisa a estrutura da fala coloquial. Dito à maneira do estudo:
é um livro que mostra o jeito como a gente conversa.
"O
objetivo era descobrir como se fala corretamente no Brasil", diz o coordenador
do projeto, Ataliba de Castilho, presidente da Associação
de Lingüística e Filologia da América Latina. Isso
deu um trabalhão. Em quase trinta anos de pesquisa, 32 estudiosos
dissecaram mais de 1.500 horas de gravações feitas em cinco
capitais brasileiras. Foram entrevistadas 2.356 pessoas com formação
superior, cujos pais também nasceram nas capitais escolhidas para
pesquisa: Salvador, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São
Paulo. A escolha não se deu porque se supunha que nessas cidades
se fale mais corretamente, mas, sim, porque elas foram consideradas as
que têm as características claramente identificáveis.
"Dá para dizer: é assim que se fala em tal lugar", exemplifica
Ataliba de Castilho. As gravações serviram para encontrar
os desvios mais freqüentes, em relação à norma
culta, e depois destrinchar a lógica que rege essas construções.
Graças a essa análise, os brasileiros se tornarão
o primeiro povo, entre os que falam línguas derivadas do latim,
a ter sua linguagem oral debulhada e sistematizada.
No ano passado, a professora Maria Helena de Moura Neves, da Universidade
Estadual Paulista, lançou sua Gramática de Usos do Português
(Editora Unesp, 1.037 páginas, R$ 70,00), que analisa as estruturas
mais correntes usadas nos jornais, na dramaturgia e na literatura moderna.
Ela integra o grupo que preparou o novo projeto e diz que a virtude dessas
iniciativas é admitir que a língua vive em transformação,
ao contrário do que se vê na maioria das gramáticas
tradicionais. "Ninguém tem autoridade para dizer o que é
certo ou não em um idioma", afirma Maria Helena. Isso cutuca o
vespeiro dos beletristas.
O professor Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras
e considerado um dos maiores gramáticos brasileiros em atividade,
dá sua apreciação sobre o resultado do projeto Norma
Urbana Culta: "Desde a Antiguidade, a gramática foi sempre o registro
dos fatos da língua observado no uso das pessoas, principalmente
daquelas que podiam servir de modelo. O trabalho vem ratificar uma realidade
já antes intuída e até trabalhada pelos estudiosos
do passado. A verdadeira e saudável educação da competência
lingüística é colocar ao alcance das pessoas o maior
número de informações para o uso do idioma. Repito
sempre que a educação lingüística tem de fazer
de cada pessoa um poliglota em sua própria língua". Numa
tradução livre, o professor Bechara diz que não há
nenhuma novidade no trabalho sobre a língua oral e que o melhor
ensino do português continua sendo o tradicional. A partir do ano
que vem, no entanto, as escolas poderão decidir se seguem ou não
esse conselho. A primeira edição da nova gramática
é apenas para professores e estudiosos, mas dentro de alguns meses
sai um subproduto, voltado para estudantes, bem nos moldes dos guias práticos
utilizados atualmente para o ensino do português. Só é
preciso avisar aos mais afoitos que o insuportável uso que se vem
fazendo do gerúndio (amanhã estarei fazendo ou ele
vai estar falando, por exemplo) continua a ser um crime inafiançável
contra o idioma.
Ilustrações Fábrica de quadrinhos
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Ilustrações Fábrica
de quadrinhos
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Quase todos ignoram, mas
a norma culta manda chegar a algum lugar |
Só se usa onde quando
se quer dar a idéia de lugar. Neste caso, o certo é
aonde |
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Na gramática tradicional, só se aceita
aonde quando na expressão
existe a idéia de destino, direção |
O futuro do presente é quase ignorado na
linguagem oral. Pela
norma culta, o certo é farei |

O
verbo reter deve ser conjugado como
o verbo ter. Logo, o correto é retiver |
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Este é um caso de
samba do pronome doido. A frase mistura a terceira pessoa do singular
com a segunda |
| De
acordo com a gramática tradicional, o certo em cada caso é:
"assisti ao filme" (o verbo assistir, no sentido de presenciar, pede
a preposição a); "deram dez horas" e "hoje são
quinze" (na ausência de sujeito, o verbo deve concordar com
a palavra seguinte). |

Veja também |
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