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Noites perigosas

O medo da Aids diminui, a
prevenção afrouxa e cresce
a infecção entre os gays jovens

Karina Pastore


Isabela Martini
Claudio Rossi
Festa gay, em São Paulo: sexo casual sem camisinha nas dark rooms F.G., de 22 anos, que descobriu ser portador do HIV em 1998: "Algo muito distante"

O estudante universitário F.G. tem 22 anos e é portador do vírus da Aids. Até dezembro de 1998, quando recebeu o diagnóstico positivo para HIV, foram pouquíssimas as vezes em que fez sexo seguro com os homens desconhecidos que encontrava em festas e boates. "A doença parecia estar muito distante do meu mundo", diz ele. F.G. é personagem exemplar de um novo capítulo da história da síndrome no Brasil: o recrudescimento da epidemia entre os homossexuais jovens. Em 1996, os rapazes de 15 a 24 anos representavam 8% das contaminações registradas nesse grupo. Hoje, somam 15%. O comportamento atual dos mais moços é bem diferente do da geração anterior. Há quinze anos, a Aids ainda carregava o estigma de "peste gay" e significava uma sentença de morte quase que imediata para o seu portador. Entre o diagnóstico e a fase terminal, transcorriam, em média, seis meses. A condenação estampava-se no corpo do paciente por meio da perda impressionante de peso e do aparecimento de manchas escuras na pele. O horror da doença levou a que a maioria dos homossexuais rapidamente adotasse o uso de preservativos e reduzisse o número de parceiros. Essas medidas de prevenção contribuíram para a mudança do perfil da Aids em meados da década de 90. Hoje, as relações heterossexuais se tornaram a principal forma de transmissão do HIV.

O aumento da incidência entre os gays jovens, antes preocupados em proteger-se, é outro indicativo de que a juventude está começando a vida sexual com a ilusão de que a Aids pode ser considerada doença crônica, com a qual é possível conviver sem grandes complicações. Essa ilusão se deve aos avanços no tratamento da síndrome, que afastaram os jovens do lado mais aterrador da epidemia. Capazes de inibir a proliferação do vírus, as novas drogas aumentaram extraordinariamente a sobrevida dos pacientes e a qualidade do seu cotidiano. Um sem-número de soropositivos apresenta um aspecto saudabilíssimo. Com isso, o medo da Aids arrefeceu e a prevenção afrouxou. "Muitos dos homossexuais que iniciam a vida sexual nos dias de hoje não viveram os dramas da geração anterior e não vêem a necessidade de adotar as mesmas práticas. Assim também agem milhões de adolescentes heterossexuais", sintetizou o médico Dráuzio Varella em um artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo.

No universo gay brasileiro, o sinal mais evidente desse fenômeno é a proliferação das dark rooms, uma invenção americana. Essas salas escuras se destinam única e exclusivamente à prática do sexo casual e anônimo. "Não há uma danceteria, bar ou festa gay que não tenha agora uma dark room", constata um rapaz de 24 anos, freqüentador da noite paulistana. Algumas são realmente um breu. Outras dispõem de fracas luzes estroboscópicas. Em uma sala escura de uma casa noturna de São Paulo, localizada no elegante bairro dos Jardins, exige-se que o cliente entre sem camisa. Uma vez lá dentro, as pessoas se apalpam, se beijam e mantêm relações de todo tipo – não raro com vários parceiros. Nessa festa, dificilmente a camisinha é coadjuvante.

O crescimento dos casos de Aids entre os homossexuais jovens serve de fermento para uma antiga crítica aos programas de prevenção conduzidos pelo governo brasileiro. "O Brasil é modelo para o mundo todo no que se refere à política de tratamento, mas no quesito prevenção ainda está bem atrasado", afirma o sanitarista Mario Scheffer, representante das ONGs Aids no Conselho Nacional de Saúde. Na opinião dos especialistas, embora a Aids seja uma epidemia que atinge igualmente a todos, ela deve ser prevenida com campanhas permanentes, direcionadas especificamente a cada grupo. O Ministério da Saúde jamais dedicou uma única peça de esclarecimento destinada ao público homossexual. Só agora, dada a velocidade com que o HIV se alastra entre os gays jovens, é que se pensa em fazer algo nesse sentido.

Um aspecto a ser divulgado maciçamente é que, apesar de todos os progressos na área farmacêutica, conviver com o HIV não é tão simples assim. Os remédios só fazem efeito se tomados à risca e a quantidade pode chegar até a vinte comprimidos. Como metade dos pacientes abandona o tratamento, há o risco de surgimento de tipos de vírus mais resistentes. Além disso, existe o perigo de o organismo simplesmente deixar de responder à terapia – e essa ameaça é maior quanto mais prolongado é o uso das drogas. O cotidiano de um portador que é obrigado a ingerir o coquetel contra a Aids está longe de ser um mar de rosas, ainda que os fabricantes dos medicamentos anunciem o contrário (veja quadro abaixo). "O que me apavora é saber que tenho de tomar todos esses remédios pelo resto da vida e verificar que muitos dos meus amigos também começam a cair doentes", lamenta F.G.

 

Ilusão em anúncios

"HIV. Seus dias estão contados." Pelo anúncio do laboratório Merck Sharp & Dohme, publicado na edição de março deste ano da revista inglesa +ve, destinada ao público homossexual soropositivo, tem-se a impressão de que a medicina conseguiu domar o vírus. Pura ilusão. Não há dúvida de que a chegada, em 1996, do coquetel anti-Aids revolucionou o tratamento da doença. Desde então, o Brasil registrou uma redução de 80% nos atendimentos do Sistema Único de Saúde relacionados às afecções oportunistas da Aids. Nos últimos cinco anos, a mortalidade caiu 50%. Viver à base do coquetel, porém, não é fácil. A curto prazo, os pacientes sofrem de náuseas, vômitos e diarréia. Passado um ano de terapia, muitos doentes são acometidos de reações adversas bem mais graves. Entre elas, aumento nas taxas de colesterol e triglicérides e maior suscetibilidade ao diabetes e à osteoporose. Alguns são vítimas ainda da chamada lipodistrofia, a má distribuição de gordura pelo corpo. Nada disso, evidentemente, é anunciado pelos fabricantes dos remédios.

 

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Rádio VEJA
  Entrevista com Mário Scheffer do grupo pela Vidda, sobre o crescimento da Aids entre jovens homossexuais

 

   
 
   
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