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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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Esporte bretão

Para os ingleses, um dia perfeito
é aquele
que se passa no jardim,
de pazinha na mão

Isabela Boscov, de Hampton Court

A sensação é a de entrada de estádio de futebol em dia de clássico: sol escaldante, muita confusão e milhares de pessoas pisando nos calcanhares alheios na tentativa de dar um passo à frente. A multidão, contudo, dá pistas de que o esporte que se pratica é bem outro. Velhinhas de cabelo arrumado, casais com crianças pequenas e jovens de short e camiseta se atropelam para, simplesmente, apreciar os milhares de plantas e flores expostos no Hampton Court Palace Flower Show. É o maior festival do gênero no mundo e só poderia acontecer na Inglaterra, um país ímpar na sua fixação pela jardinagem. Calcula-se que 20 milhões de britânicos – cerca de um terço da população – se entreguem habitualmente aos prazeres do cultivo e da poda, em espaços que vão de propriedades históricas às floreiras de janela. É um gosto que atravessa todas as classes sociais. Aristocratas e celebridades freqüentam o Chelsea Flower Show, realizado num bairro chique de Londres, em que os convidados consomem até 3.000 garrafas de champanhe enquanto comentam as últimas trapalhadas da família real, que costuma inaugurar as festividades. Quem não tem brasão familiar vai a feiras como a de Hampton Court, a meia hora de trem da capital inglesa, que em sua última edição atraiu 200.000 visitantes. Lá, numa área de 100.000 metros quadrados adjacente ao palácio em estilo Tudor onde viveu o rei Henrique VIII, é possível se refrescar com cerveja a bom preço, sentar na grama para comer um sanduíche levado de casa e, acima de tudo, regatear sem dó. De sistemas de irrigação sofisticados a humildes pacotinhos de sementes – sem esquecer os anões de jardim –, vende-se de tudo em Hampton Court.

Esse movimento comercial intenso – cerca de 600 expositores participam da feira – é um dos orgulhos da Real Sociedade de Horticultura, que organiza eventos como os de Chelsea e Hampton Court, entre dezenas de outros. É sinal de que seus esforços para despertar o jardineiro que existe dentro de cada cidadão inglês vêm tomando o rumo certo. Mas não se pode desprezar a mãozinha que a economia do país vem dando a essa campanha. Desde meados da década passada, com o fim dos tempos bicudos da economia britânica, as vendas de compostos para plantio deram um salto impressionante – e quase tudo foi parar nas mãos de amadores, que já respondem por 70% do mercado. Essa explosão fez surgir fenômenos curiosos, como o dos astros da jardinagem televisiva. É o caso de Charlie Dimmock, uma ruiva simpática que ensina seus truques ao público do programa Ground Force, da rede estatal BBC. Desde que Charlie começou a pregar as benesses dos deques de madeira como piso para jardim, por exemplo, as vendas do produto passaram de irrisórios 7.000 dólares anuais para 22,5 milhões em uma única rede de lojas. Os ingleses andam investindo tanto em seus jardins que foi detectada uma modalidade de infração batizada de "crime verde" – o furto de plantas ou equipamentos do jardim de terceiros. Por causa dessa onda, muitas seguradoras oferecem cobertura especial para essa parte da casa em suas apólices.

Os ingleses não estão sozinhos nessa obsessão. Pesquisas indicam que a jardinagem já é o passatempo preferido também de americanos e australianos. Há alguns anos, virou febre entre os japoneses. Em todos os casos, a maioria dos novos adeptos é de gente na faixa dos 30 anos (embora um passeio por Hampton Court prove que o apelo das flores é irresistível para a terceira idade). Nenhum país, entretanto, tem solo tão fértil para a paixão pelo verde quanto a Inglaterra. Seus jardins e gramados são objeto de admiração há séculos. Mais da metade de Londres, uma das cidades mais populosas do planeta, está coberta por áreas verdes. Um terço desse total, pasme, corresponde aos jardins das residências. Também lá há gente que gosta de "plantar" bicicletas velhas e pneus murchos no quintal, mas é surpreendente a proporção de canteiros bem-cuidados. Sem falar, claro, no espetáculo que são os jardins públicos nesta época do ano – e não há visão mais rara no país do que aquelas infames plaquinhas de "proibido pisar na grama". A grama inglesa foi produzida para ser pisada.

O que mais chama a atenção, contudo, é a forma como duas manias autenticamente inglesas – a da jardinagem e a das associações – se combinam à perfeição. A estrela de todas as flores, a rosa, tem uma sociedade dedicada a ela desde 1876 (cuja figura de proa é ninguém menos que a centenária rainha-mãe). Quem fica sócio tem direito a desconto na entrada para os mais prestigiados roseirais do país e dispõe de assessoria para todos os seus problemas com rosas, por telefone ou pessoalmente – como no caso da reportagem de VEJA, agraciada por um dos diretores da sociedade com uma dúzia de dicas para melhorar a qualidade dos seus botões domésticos. Um dos pavilhões mais visitados em Hampton Court foi o do Conselho Nacional para a Conservação de Plantas e Jardins, cuja finalidade é salvar das modas, das mudanças climáticas e da expansão urbana as espécies tradicionais dos canteiros ingleses. O conselho já tem 630 coleções de plantas, de jardinzinhos modestos a um parque monumental mantido pelo príncipe Charles – que, no Chelsea Flower Show deste ano, expôs uma réplica de um de seus jardins. Quase todas essas entidades dependem em parte de caridade para sobreviver. Não faltam doações. Só a Real Sociedade de Horticultura computou quase 800 000 dólares legados a ela em testamento no ano passado. Tanto furor para inventar e preservar garante que os britânicos, hoje, possam escolher entre cerca de 80.000 espécies decorativas, segundo os cálculos do conselho. Nada mau para uma ilha que saiu da última Idade do Gelo com apenas 200 espécies de plantas – quase todas, monótonos musgos.

   
 
   
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