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Esporte
bretão
Para os ingleses, um dia perfeito
é aquele que
se passa no jardim,
de pazinha na mão
Isabela Boscov, de Hampton Court
A
sensação é a de entrada de estádio de futebol
em dia de clássico: sol escaldante, muita confusão e milhares
de pessoas pisando nos calcanhares alheios na tentativa de dar um passo
à frente. A multidão, contudo, dá pistas de que o
esporte que se pratica é bem outro. Velhinhas de cabelo arrumado,
casais com crianças pequenas e jovens de short e camiseta se atropelam
para, simplesmente, apreciar os milhares de plantas e flores expostos
no Hampton Court Palace Flower Show. É o maior festival do gênero
no mundo e só poderia acontecer na Inglaterra, um país ímpar
na sua fixação pela jardinagem. Calcula-se que 20 milhões
de britânicos cerca de um terço da população
se entreguem habitualmente aos prazeres do cultivo e da poda, em espaços
que vão de propriedades históricas às floreiras de
janela. É um gosto que atravessa todas as classes sociais. Aristocratas
e celebridades freqüentam o Chelsea Flower Show, realizado num bairro
chique de Londres, em que os convidados consomem até 3.000 garrafas
de champanhe enquanto comentam as últimas trapalhadas da família
real, que costuma inaugurar as festividades. Quem não tem brasão
familiar vai a feiras como a de Hampton Court, a meia hora de trem da
capital inglesa, que em sua última edição atraiu
200.000 visitantes. Lá, numa área de 100.000 metros quadrados
adjacente ao palácio em estilo Tudor onde viveu o rei Henrique
VIII, é possível se refrescar com cerveja a bom preço,
sentar na grama para comer um sanduíche levado de casa e, acima
de tudo, regatear sem dó. De sistemas de irrigação
sofisticados a humildes pacotinhos de sementes sem esquecer os anões
de jardim , vende-se de tudo em Hampton Court.
Esse movimento comercial intenso cerca de 600 expositores participam
da feira é um dos orgulhos da Real Sociedade de Horticultura,
que organiza eventos como os de Chelsea e Hampton Court, entre dezenas
de outros. É sinal de que seus esforços para despertar o
jardineiro que existe dentro de cada cidadão inglês vêm
tomando o rumo certo. Mas não se pode desprezar a mãozinha
que a economia do país vem dando a essa campanha. Desde meados
da década passada, com o fim dos tempos bicudos da economia britânica,
as vendas de compostos para plantio deram um salto impressionante e
quase tudo foi parar nas mãos de amadores, que já respondem
por 70% do mercado. Essa explosão fez surgir fenômenos curiosos,
como o dos astros da jardinagem televisiva. É o caso de Charlie
Dimmock, uma ruiva simpática que ensina seus truques ao público
do programa Ground Force, da rede estatal BBC. Desde que Charlie
começou a pregar as benesses dos deques de madeira como piso para
jardim, por exemplo, as vendas do produto passaram de irrisórios
7.000 dólares anuais para 22,5 milhões em uma única
rede de lojas. Os ingleses andam investindo tanto em seus jardins que
foi detectada uma modalidade de infração batizada de "crime
verde" o furto de plantas ou equipamentos do jardim de terceiros. Por
causa dessa onda, muitas seguradoras oferecem cobertura especial para
essa parte da casa em suas apólices.
Os ingleses não estão sozinhos nessa obsessão. Pesquisas
indicam que a jardinagem já é o passatempo preferido também
de americanos e australianos. Há alguns anos, virou febre entre
os japoneses. Em todos os casos, a maioria dos novos adeptos é
de gente na faixa dos 30 anos (embora um passeio por Hampton Court prove
que o apelo das flores é irresistível para a terceira idade).
Nenhum país, entretanto, tem solo tão fértil para
a paixão pelo verde quanto a Inglaterra. Seus jardins e gramados
são objeto de admiração há séculos.
Mais da metade de Londres, uma das cidades mais populosas do planeta,
está coberta por áreas verdes. Um terço desse total,
pasme, corresponde aos jardins das residências. Também lá
há gente que gosta de "plantar" bicicletas velhas e pneus murchos
no quintal, mas é surpreendente a proporção de canteiros
bem-cuidados. Sem falar, claro, no espetáculo que são os
jardins públicos nesta época do ano e não há
visão mais rara no país do que aquelas infames plaquinhas
de "proibido pisar na grama". A grama inglesa foi produzida para ser pisada.
O que mais chama a atenção, contudo, é a forma como
duas manias autenticamente inglesas a da jardinagem e a das associações
se combinam à perfeição. A estrela de todas as
flores, a rosa, tem uma sociedade dedicada a ela desde 1876 (cuja figura
de proa é ninguém menos que a centenária rainha-mãe).
Quem fica sócio tem direito a desconto na entrada para os mais
prestigiados roseirais do país e dispõe de assessoria para
todos os seus problemas com rosas, por telefone ou pessoalmente como
no caso da reportagem de VEJA, agraciada por um dos diretores da sociedade
com uma dúzia de dicas para melhorar a qualidade dos seus botões
domésticos. Um dos pavilhões mais visitados em Hampton Court
foi o do Conselho Nacional para a Conservação de Plantas
e Jardins, cuja finalidade é salvar das modas, das mudanças
climáticas e da expansão urbana as espécies tradicionais
dos canteiros ingleses. O conselho já tem 630 coleções
de plantas, de jardinzinhos modestos a um parque monumental mantido pelo
príncipe Charles que, no Chelsea Flower Show deste ano, expôs
uma réplica de um de seus jardins. Quase todas essas entidades
dependem em parte de caridade para sobreviver. Não faltam doações.
Só a Real Sociedade de Horticultura computou quase 800 000 dólares
legados a ela em testamento no ano passado. Tanto furor para inventar
e preservar garante que os britânicos, hoje, possam escolher entre
cerca de 80.000 espécies decorativas, segundo os cálculos
do conselho. Nada mau para uma ilha que saiu da última Idade do
Gelo com apenas 200 espécies de plantas quase todas, monótonos
musgos.
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