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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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O escudo funcionou

Interceptador de míssil acerta o
alvo no
quarto teste e dá fôlego
ao projeto de Bush

Era simulação, mas a festa com o sucesso foi digna de uma batalha de verdade. Depois de três testes sem êxito, o escudo antimíssil finalmente funcionou, no sábado 14. Um míssil balístico disparado da Califórnia foi destruído no espaço por uma ogiva antimíssil vinda de uma base militar americana no Pacífico. Um novo fiasco poderia minar a continuação dos pesados investimentos no polêmico projeto do presidente George W. Bush, que pretende interligar armas de defesa em terra, mar, ar e satélites no espaço. Por isso, a tensão era grande na Base Aérea de Vandenberg, ao norte de Los Angeles, quando uma versão adaptada do Minuteman II foi lançada. O míssil "atacante" estava desarmado, mas poderia transportar ogivas de até 2 megatons, potência equivalente à de 133 bombas iguais à jogada sobre Hiroshima na II Guerra Mundial. Ele rasgou o céu a 24.000 quilômetros horários e em 21 minutos fez o que estava programado: liberou a ogiva vazia e um balão, para despistar a defesa inimiga.

Nas tentativas anteriores, as falhas ocorreram justamente quando entrava em cena uma das vedetes do escudo, as ogivas programadas para perseguir e destruir os mísseis agressores. Lançado de uma base nas Ilhas Marshall, do outro lado do Pacífico, o foguete antimíssil percorreu 2.250 quilômetros em direção ao "atacante". Ao ultrapassar as três camadas da atmosfera, liberou uma ogiva apelidada de "Matador", que rastreou o míssil-alvo apenas com seu sistema de sensores infravermelhos. O Matador não carrega explosivos. Viaja a 26.000 quilômetros horários e destrói o míssil inimigo apenas com o impacto da colisão. A precisão exigida é a mesma para acertar com um tiro uma garrafa solta no oceano. O desafio era evitar que artefatos usados como isca, como o balão, iludissem seus sensores. No primeiro teste, em outubro de 1999, o Matador destruiu o balão, e não o míssil. Nos testes seguintes, saiu-se pior: apresentou falhas mecânicas e acabou vagando pelo espaço.

Desta vez, a ogiva antimíssil foi programada para não se deixar enganar pelo balão. Algo bem diferente de uma situação real, na qual um míssil inimigo lançaria várias ogivas e artefatos dissimuladores ao mesmo tempo. O Pentágono comemorou esse primeiro feito, pois ficou demonstrado que as dificuldades técnicas do Matador podem ser contornadas a médio prazo. O desenvolvimento do sistema de escudo apresenta desafios tecnológicos mais complexos. Um deles é instalar canhões de raio laser no nariz de um Jumbo para acertar, com precisão, um míssil a 400 quilômetros de distância. Por enquanto, ninguém sabe como conseguir tal proeza, essencial nos planos de defesa antimíssil. A previsão para cobrir todos os buracos do projeto é de duas décadas de pesquisas, a um custo que pode chegar a 300 bilhões de dólares. Mesmo assim, Rússia e China, duas potências nucleares, reagiram ao sucesso da experiência americana. Pequim e Moscou enterraram meio século de divergências e selaram na semana passada um acordo cujo objetivo é combater o projeto de Bush. Ambos temem que o escudo dê aos Estados Unidos uma supremacia militar sem precedentes no planeta.

 
 

 


Ilustração sobre foto AP
   
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