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O
escudo funcionou
Interceptador de míssil acerta o
alvo no quarto
teste e dá fôlego
ao projeto de Bush
Era
simulação, mas a festa com o sucesso foi digna de uma batalha
de verdade. Depois de três testes sem êxito, o escudo antimíssil
finalmente funcionou, no sábado 14. Um míssil balístico
disparado da Califórnia foi destruído no espaço por
uma ogiva antimíssil vinda de uma base militar americana no Pacífico.
Um novo fiasco poderia minar a continuação dos pesados investimentos
no polêmico projeto do presidente George W. Bush, que pretende interligar
armas de defesa em terra, mar, ar e satélites no espaço.
Por isso, a tensão era grande na Base Aérea de Vandenberg,
ao norte de Los Angeles, quando uma versão adaptada do Minuteman
II foi lançada. O míssil "atacante" estava desarmado, mas
poderia transportar ogivas de até 2 megatons, potência equivalente
à de 133 bombas iguais à jogada sobre Hiroshima na II Guerra
Mundial. Ele rasgou o céu a 24.000 quilômetros horários
e em 21 minutos fez o que estava programado: liberou a ogiva vazia e um
balão, para despistar a defesa inimiga.
Nas tentativas anteriores, as falhas ocorreram justamente quando entrava
em cena uma das vedetes do escudo, as ogivas programadas para perseguir
e destruir os mísseis agressores. Lançado de uma base nas
Ilhas Marshall, do outro lado do Pacífico, o foguete antimíssil
percorreu 2.250 quilômetros em direção ao "atacante".
Ao ultrapassar as três camadas da atmosfera, liberou uma ogiva apelidada
de "Matador", que rastreou o míssil-alvo apenas com seu sistema
de sensores infravermelhos. O Matador não carrega explosivos. Viaja
a 26.000 quilômetros horários e destrói o míssil
inimigo apenas com o impacto da colisão. A precisão exigida
é a mesma para acertar com um tiro uma garrafa solta no oceano.
O desafio era evitar que artefatos usados como isca, como o balão,
iludissem seus sensores. No primeiro teste, em outubro de 1999, o Matador
destruiu o balão, e não o míssil. Nos testes seguintes,
saiu-se pior: apresentou falhas mecânicas e acabou vagando pelo
espaço.
Desta vez, a ogiva antimíssil foi programada para não se
deixar enganar pelo balão. Algo bem diferente de uma situação
real, na qual um míssil inimigo lançaria várias ogivas
e artefatos dissimuladores ao mesmo tempo. O Pentágono comemorou
esse primeiro feito, pois ficou demonstrado que as dificuldades técnicas
do Matador podem ser contornadas a médio prazo. O desenvolvimento
do sistema de escudo apresenta desafios tecnológicos mais complexos.
Um deles é instalar canhões de raio laser no nariz de um
Jumbo para acertar, com precisão, um míssil a 400 quilômetros
de distância. Por enquanto, ninguém sabe como conseguir tal
proeza, essencial nos planos de defesa antimíssil. A previsão
para cobrir todos os buracos do projeto é de duas décadas
de pesquisas, a um custo que pode chegar a 300 bilhões de dólares.
Mesmo assim, Rússia e China, duas potências nucleares, reagiram
ao sucesso da experiência americana. Pequim e Moscou enterraram
meio século de divergências e selaram na semana passada um
acordo cujo objetivo é combater o projeto de Bush. Ambos temem
que o escudo dê aos Estados Unidos uma supremacia militar sem precedentes
no planeta.
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