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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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A poderosa das rotativas

A trajetória de Kay Graham, a
mulher que construiu o prestígio
do Washington Post

AP
O vigor de Katharine Graham: reviravolta como editora e empresária

A mulher mais influente da história da imprensa americana, Katharine Graham, que morreu na semana passada, aos 84 anos, com ferimentos na cabeça em decorrência de um tombo na calçada, tinha tudo para dar errado quando começou suas atividades no comando do diário The Washington Post e da revista semanal Newsweek, em 1963. Era tímida, insegura, sem brilho intelectual e despreparada tanto para a atividade jornalística quanto para o exercício dos negócios. Dona-de-casa dedicada aos filhos, naquele ano ela recebeu a notícia de que o marido, Philip Graham, havia cometido suicídio com um tiro de espingarda, pondo fim a anos de depressão aguda com passagens por manicômios. Aos poucos, entretanto, tendo a capital do país como cenário, Kay, como era chamada pelos íntimos, mudou o curso de sua vida e veio a se converter numa figura poderosa, temida e reverenciada por chefes de Estado. Quando assumiu o novo cargo, o Washington Post era um veículo provinciano. Sob a direção dela, derrubou um presidente, Richard Nixon, com as célebres reportagens do caso Watergate. Nas últimas décadas, Kay manteve relações pessoais com mandatários como Lyndon Johnson e Ronald Reagan, o francês Giscard d'Estaing, o alemão Willy Brandt ou o checo Vaclav Havel, além do bilionário Bill Gates, da princesa Diana e da feminista Gloria Steinem.

Eric Risberg/AP
Com Richard Nixon: reportagens levaram à renúncia

O ingresso da família de Kay no ramo da imprensa remonta a 1933, quando o pai, Eugene Meyer, um financista de Wall Street, resolveu arrematar em leilão o falido Washington Post, o lanterninha dos cinco diários da capital federal. Tão logo Kay se casou com Philip Graham, um advogado bem-sucedido, Meyer levou o genro para ser seu editor associado. Philip dedicou-se ao empreendimento com vigor e contribuiu para melhorar a circulação do jornal. A partir do fim dos anos 50, a vida de Kay virou um tormento com a doença do marido. Não bastasse, ele tentou controlar sozinho a empresa e passou a namorar uma funcionária do escritório parisiense da revista Newsweek, recém-comprada pela corporação.

Reuters
Com o casal Reagan: amizades na Casa Branca

Do ponto de vista profissional, quando se sentou na cadeira do ex-marido, Kay Graham soube compensar suas deficiências, cercando-se de dois colaboradores de talento e energia, já que de jornalismo ela tinha apenas um diploma em Chicago e a experiência limitada como redatora da seção de cartas dos leitores. Seu braço direito editorial passou a ser o jornalista Ben Bradley, que modernizou a cobertura de matérias, com estilo atrevido e vigoroso. Para os negócios, valeu-se de Warren Buffet, um tarimbado investidor do mercado de capitais. A alma que faltava ao jornal se materializou em 1971, com a revelação dos Documentos do Pentágono, uma caudalosa coletânea de textos secretos sobre a participação americana na Guerra do Vietnã, trazidos à luz por Daniel Ellsberg, um antigo colaborador do Pentágono e doutor em economia pela Universidade Harvard. Em junho, o New York Times começou a publicá-los, mas foi impedido de continuar por uma ordem judicial, a primeira vez que uma restrição desse tipo ocorreu na História do país. Quando o Post obteve uma cópia da papelada, coube-lhe a tarefa de desafiar o poder. "Engoli em seco e mandei ir adiante, vamos publicar", contou mais tarde Kay Graham. Foi uma decisão difícil, tomada contra o parecer dos advogados, que aconselhavam prudência, pois a revelação de documentos secretos poderia ser comparada a crime de espionagem e ameaça à segurança nacional. O caso foi parar na Suprema Corte e os dois diários venceram, num episódio que se tornou referência internacional para a defesa da liberdade de expressão.

Warner Bros
Watergate: redação vira filme com Redford e Hoffman

Pouco depois, o Post cravou outra cobertura memorável, do que veio a ser chamado de Escândalo do Watergate, com o arrombamento de um comitê do Partido Democrata, em Washington. Os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein puxaram o fio de uma meada cujo desdobramento levaria o então presidente Richard Nixon a renunciar ao cargo, em 1974, acusado de mandar abafar o registro do caso. "O que estávamos vendo era a legendária ponta do iceberg", relatou Kay Graham, mais tarde, em seu livro Uma História Pessoal, vencedor do disputado Prêmio Pulitzer. "E talvez nunca viéssemos a saber o tamanho do iceberg se não fossem os extraordinários esforços investigativos de Woodward e Bernstein." Reside aí uma das qualidades mais decantadas dela – a de dar garantias para o trabalho independente de jornalistas, tão fundamental para um veículo que habita na vizinhança do poder.

Na biografia de Kay Graham há também muito glamour, ela mesma uma festeira capaz de promover bailes em Washington tão disputados quanto os da Casa Branca. São deliciosas as histórias sobre as cortes de que foi alvo. Recentemente, por exemplo, começaram a ser reproduzidas no rádio as gravações das conversas telefônicas feitas pelo ex-presidente Johnson, no Salão Oval da Casa Branca, com trechos de paquera explicíta. Entre elas, um diálogo dos dois. "Oi, querida, tudo bem? Sabia que a única coisa que me desagrada neste trabalho é o fato de ser casado e nunca poder ver você?", galanteou o garanhão texano. "Quando ouço sua doce voz, sempre pelo telefone, minha vontade é sair correndo daqui derrubando todas as cercas, como se fosse um daqueles potros selvagens que tenho lá no meu rancho", Johnson avançou no assédio, aparentemente sem sucesso. Boa parte do encanto de Kay vinha do fato de assumir o lado prosaico de suas preferências, como gostar de escapar, durante o expediente, para ir ao cinema com a jornalista Meg Greenfield, responsável pelos editoriais do Post. A dupla podia ser vista no saguão de cinemas onde passavam coisas como Loucademia de Polícia, filmes de ninjas ou histórias românticas para adolescentes.

 
 
   
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