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A poderosa das
rotativas
A
trajetória de Kay Graham, a
mulher que construiu o prestígio
do Washington Post
AP
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| O
vigor de Katharine Graham: reviravolta como editora e empresária |
A
mulher mais influente da história da imprensa americana, Katharine
Graham, que morreu na semana passada, aos 84 anos, com ferimentos na cabeça
em decorrência de um tombo na calçada, tinha tudo para dar
errado quando começou suas atividades no comando do diário
The Washington Post e da revista semanal Newsweek, em 1963.
Era tímida, insegura, sem brilho intelectual e despreparada tanto
para a atividade jornalística quanto para o exercício dos
negócios. Dona-de-casa dedicada aos filhos, naquele ano ela recebeu
a notícia de que o marido, Philip Graham, havia cometido suicídio
com um tiro de espingarda, pondo fim a anos de depressão aguda
com passagens por manicômios. Aos poucos, entretanto, tendo a capital
do país como cenário, Kay, como era chamada pelos íntimos,
mudou o curso de sua vida e veio a se converter numa figura poderosa,
temida e reverenciada por chefes de Estado. Quando assumiu o novo cargo,
o Washington Post era um veículo provinciano. Sob a direção
dela, derrubou um presidente, Richard Nixon, com as célebres reportagens
do caso Watergate. Nas últimas décadas, Kay manteve relações
pessoais com mandatários como Lyndon Johnson e Ronald Reagan, o
francês Giscard d'Estaing, o alemão Willy Brandt ou o checo
Vaclav Havel, além do bilionário Bill Gates, da princesa
Diana e da feminista Gloria Steinem.
Eric Risberg/AP
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| Com
Richard Nixon: reportagens levaram à renúncia |
O
ingresso da família de Kay no ramo da imprensa remonta a 1933,
quando o pai, Eugene Meyer, um financista de Wall Street, resolveu arrematar
em leilão o falido Washington Post, o lanterninha dos cinco
diários da capital federal. Tão logo Kay se casou com Philip
Graham, um advogado bem-sucedido, Meyer levou o genro para ser seu editor
associado. Philip dedicou-se ao empreendimento com vigor e contribuiu
para melhorar a circulação do jornal. A partir do fim dos
anos 50, a vida de Kay virou um tormento com a doença do marido.
Não bastasse, ele tentou controlar sozinho a empresa e passou a
namorar uma funcionária do escritório parisiense da revista
Newsweek, recém-comprada pela corporação.
Reuters
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| Com
o casal Reagan: amizades na Casa Branca |
Do
ponto de vista profissional, quando se sentou na cadeira do ex-marido,
Kay Graham soube compensar suas deficiências, cercando-se de dois
colaboradores de talento e energia, já que de jornalismo ela tinha
apenas um diploma em Chicago e a experiência limitada como redatora
da seção de cartas dos leitores. Seu braço direito
editorial passou a ser o jornalista Ben Bradley, que modernizou a cobertura
de matérias, com estilo atrevido e vigoroso. Para os negócios,
valeu-se de Warren Buffet, um tarimbado investidor do mercado de capitais.
A alma que faltava ao jornal se materializou em 1971, com a revelação
dos Documentos do Pentágono, uma caudalosa coletânea de textos
secretos sobre a participação americana na Guerra do Vietnã,
trazidos à luz por Daniel Ellsberg, um antigo colaborador do Pentágono
e doutor em economia pela Universidade Harvard. Em junho, o New York
Times começou a publicá-los, mas foi impedido de continuar
por uma ordem judicial, a primeira vez que uma restrição
desse tipo ocorreu na História do país. Quando o Post
obteve uma cópia da papelada, coube-lhe a tarefa de desafiar o
poder. "Engoli em seco e mandei ir adiante, vamos publicar", contou mais
tarde Kay Graham. Foi uma decisão difícil, tomada contra
o parecer dos advogados, que aconselhavam prudência, pois a revelação
de documentos secretos poderia ser comparada a crime de espionagem e ameaça
à segurança nacional. O caso foi parar na Suprema Corte
e os dois diários venceram, num episódio que se tornou referência
internacional para a defesa da liberdade de expressão.
Warner Bros
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| Watergate:
redação vira filme com Redford e Hoffman |
Pouco
depois, o Post cravou outra cobertura memorável, do que
veio a ser chamado de Escândalo do Watergate, com o arrombamento
de um comitê do Partido Democrata, em Washington. Os repórteres
Bob Woodward e Carl Bernstein puxaram o fio de uma meada cujo desdobramento
levaria o então presidente Richard Nixon a renunciar ao cargo,
em 1974, acusado de mandar abafar o registro do caso. "O que estávamos
vendo era a legendária ponta do iceberg", relatou Kay Graham, mais
tarde, em seu livro Uma História Pessoal, vencedor do disputado
Prêmio Pulitzer. "E talvez nunca viéssemos a saber o tamanho
do iceberg se não fossem os extraordinários esforços
investigativos de Woodward e Bernstein." Reside aí uma das qualidades
mais decantadas dela a de dar garantias para o trabalho independente
de jornalistas, tão fundamental para um veículo que habita
na vizinhança do poder.
Na biografia de Kay Graham há também muito glamour, ela
mesma uma festeira capaz de promover bailes em Washington tão disputados
quanto os da Casa Branca. São deliciosas as histórias sobre
as cortes de que foi alvo. Recentemente, por exemplo, começaram
a ser reproduzidas no rádio as gravações das conversas
telefônicas feitas pelo ex-presidente Johnson, no Salão Oval
da Casa Branca, com trechos de paquera explicíta. Entre elas, um
diálogo dos dois. "Oi, querida, tudo bem? Sabia que a única
coisa que me desagrada neste trabalho é o fato de ser casado e
nunca poder ver você?", galanteou o garanhão texano. "Quando
ouço sua doce voz, sempre pelo telefone, minha vontade é
sair correndo daqui derrubando todas as cercas, como se fosse um daqueles
potros selvagens que tenho lá no meu rancho", Johnson avançou
no assédio, aparentemente sem sucesso. Boa parte do encanto de
Kay vinha do fato de assumir o lado prosaico de suas preferências,
como gostar de escapar, durante o expediente, para ir ao cinema com a
jornalista Meg Greenfield, responsável pelos editoriais do Post.
A dupla podia ser vista no saguão de cinemas onde passavam coisas
como Loucademia de Polícia, filmes de ninjas ou histórias
românticas para adolescentes.
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