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AP![]() Confronto de véspera: antes do início do encontro do G-8 em Gênova os manifestantes já enfrentavam a polícia |
A cidade italiana de Gênova tem quase 3.000 anos e cerca de 600.000 habitantes. É um porto, localizado no norte do país. Sua região central, construída na Idade Média, tem ruas estreitas e sinuosas. É nesse cenário apertado que aconteceu, neste fim de semana, o que talvez seja o último embate entre manifestantes contrários à globalização e líderes de governo de países ricos. Estima-se que 100.000 pessoas, provenientes de todas as partes do planeta, se amontoaram nas ruas, escolas e pensões genovesas, ocupando também albergues em cidades vizinhas. Essa multidão marchou brandindo bandeiras das mais diversas cores: comunistas, anarquistas, ambientalistas, trabalhistas. O governo italiano pôs 15.000 policiais nas ruas. Murou o centro com placas de metal. Hospedou os líderes dos oito países industrializados (o G-8) num navio blindado e munido de equipamentos antimísseis batizado de Visão Européia. No caminho entre o porto e o Palazzo Ducale, onde ocorreram as reuniões, postaram-se atiradores de elite. Na sexta-feira, quando o encontro foi aberto, ocorreram os primeiros confrontos entre rebeldes e policiais. Um rapaz morreu com um tiro na cabeça. Pelo menos mais três pessoas sofreram ferimentos graves e foram hospitalizadas.
Na agenda do encontro do G-8 estavam propostas para melhorar as condições de vida nos países mais pobres do mundo: a eliminação de barreiras às importações, o perdão da dívida externa, a criação de um fundo internacional de combate à Aids e outras doenças infecciosas, além da elevação do nível educacional dos povos. As preocupações da turma dos oito ricos diferiam pouco das reivindicações dos revoltosos, mas não houve conversa entre os dois grupos. "Estou consternado porque as demandas feitas pelo povo são na maioria válidas e porque estamos trabalhando nelas", disse Renato Ruggiero, ministro das Relações Exteriores da Itália. "A falta de diálogo é um grande problema."
Fotos AP/AFP![]() |
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| Guerra nas ruas de Gênova, na abertura do encontro, sexta-feira: um morto com um tiro na cabeça e pelo menos três feridos graves | |
A questão está ficando séria. Líderes eleitos pela população de seu país e comandantes de organizações internacionais de ajuda aos necessitados (como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional) estão sendo intimidados pela turba que transita pelo planeta para marcar presença em cada reunião destinada a discutir os rumos da globalização. Em junho, o Banco Mundial (Bird) cancelou um encontro que deveria ocorrer em Barcelona, na Espanha. "Não é possível debater idéias por trás de um cordão policial. Estamos cancelando a reunião para nos posicionar contra os que se opõem ao livre debate", disse Elkyn Chapparo, consultor do Bird. O pessoal da instituição conversou via satélite, numa teleconferência. E, depois da experiência de Gênova, estuda-se a possibilidade de construção, em Bruxelas, de uma superfortaleza para abrigar os próximos encontros internacionais. Trata-se de um retrocesso aos tempos do obscurantismo medieval. Os manifestantes, que dizem lutar por mais democracia e transparência, estão tentando impedir o debate democrático à base de pancada. Conseguiram exatamente o oposto do que apregoavam: sob a ameaça que eles representam, os fóruns sobre a globalização tendem a ser cada vez mais fechados, ocultos, subterrâneos.
Há duas questões que podem ser levantadas em torno dos últimos acontecimentos. A primeira diz respeito às vantagens da existência de gente que pensa diferente. Um ambiente em que todos partilham as mesmas idéias, em que existe concordância absoluta, ou é mera utopia ou é totalitarismo. O debate é um caminho para o progresso. Os jovens rebeldes e sem juízo que ocuparam Woodstock acabaram promovendo a liberalização dos costumes em todo o mundo no fim da década de 60. Jovens pacifistas, engrossando marchas de cabeludos, também contribuíram para o fim da Guerra do Vietnã, que se arrastou por quase dez anos e provocou mais de 1 milhão de mortes. Desde a queda do Muro de Berlim, quando se tornaram indesmentíveis o atraso tecnológico, a poluição e a ignorância produzidos por regimes fechados, há consenso em torno da idéia de que a democracia, a abertura dos mercados e a liberdade de expressão produzem riqueza e promovem a evolução dos povos em todos os campos. A globalização, no ponto em que está, no entanto, não é livre de imperfeições. Ao contrário. Carrega muitos problemas. E essa é a segunda questão que merece atenção.
Todos sabem que a globalização não é um fenômeno novo. Pode-se dizer que começou quando o primeiro homem deixou o continente africano, espalhando-se pelo planeta. Em seu Manifesto Comunista, escrito em 1848, Karl Marx considerava a globalização um movimento revolucionário altamente positivo e libertador. Eis as palavras de Marx: "A grande indústria criou o mercado mundial. As velhas indústrias nacionais foram aniquiladas e continuam a sê-lo dia a dia. Elas são suplantadas por novas, cujos produtos se consomem simultaneamente tanto no próprio país como em todos os continentes. Em lugar das velhas necessidades, atendidas pelos produtos do próprio país, surgem necessidades novas, que exigem, para a sua satisfação, produtos dos países mais longínquos e de climas diversos. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, todas as relações que as substituem envelhecem antes de se consolidarem. Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar".
AP![]() Marcha sobre Gênova na semana passada: a cidade tem tradição anarquista |
Os problemas gerados pelo processo de mundialização econômica são conhecidos. Ele torna mais fácil o enriquecimento dos que já são ricos. Para os que vivem na miséria, a coisa não é tão simples. Embora os pobres melhorem de vida, o aumento na prosperidade dos ricos é mais acelerado, e, assim, o fosso que separa os dois grupos tende a se ampliar. No entanto, é indiscutível que nas últimas décadas diminuiu muito a diferença entre países como a Coréia do Sul, Taiwan ou Cingapura e as nações mais ricas. Também é fato que nenhum país pobre enriqueceu se isolando dos mercados globais. Alguns gostariam de participar do jogo da globalização, mas são tão frágeis que não conseguem. É o caso das desesperadas nações africanas, pelas quais as empresas globalizadas não demonstram interesse algum. Outras nações simplesmente decretaram que ficarão fechadas à economia internacional por opção ideológica, como a Coréia do Norte, uma ostra devastada pelo atraso, pela fome e pelo fetiche comunista. Entre os dois extremos, países como o Brasil fazem o possível para entrar no ritmo da globalização, tirando daí as vantagens que estiverem ao seu alcance.
Entre os antiglobalizantes há linhas de pensamento muito diversas. Alguns compreendem que é preciso encontrar formas de vencer as dificuldades caminhando para diante, e não retrocedendo. Um dos ídolos dessa corrente é um acadêmico italiano sessentão chamado Antonio Negri. Ele foi líder da esquerda revolucionária italiana na década de 70. Recentemente, lançou um livro chamado Empire, editado pela Universidade Harvard nos Estados Unidos e tido pelos seus seguidores como o manifesto comunista dos tempos modernos. Segundo Negri, a globalização é a chance que a humanidade tem de assumir a cidadania global, livre das amarras dos Estados nacionais. Lamentavelmente, os que pensam como Negri são minoria.
A grande massa é radical e tem idéias anacrônicas. O papa desses novos anarquistas é um americano de ascendência checa, John Zerzan. Ele é um escritor que vive num trailer estacionado em Eugene, no Estado de Oregon, uma cidade de tradição anarquista. Não tem televisão, computador, automóvel. É completamente contrário a qualquer aparato tecnológico. Financia a publicação de seus escritos vendendo seu sangue em hospitais e trabalhando como babá. Prega a destruição da civilização. "A globalização é o último dos excessos que a humanidade cometeu", diz. Sua proposta (acredite quem quiser): que o mundo alcance o que chama de "futuro primitivo", algo parecido com o que havia antes do desenvolvimento da agricultura.
O movimento antiglobalização é uma organização dos tempos modernos, ou seja, é global. Suas tropas são mobilizadas pela internet e cruzam fronteiras em aviões, trens e ônibus fretados. É a globalização que faz com que sejam possíveis as demonstrações que se vêm tornando freqüentes desde 1999. As viagens aéreas internacionais já não são um luxo reservado aos ricos. O princípio da liberdade de expressão, inclusive dos antiglobalistas, é reconhecido como direito, e não como um privilégio regulado pelos governos. O site protest.net, editado em Bruxelas, coordena a cruzada. Todo tipo de gente atende ao chamado. Na maioria, proveniente de países ricos. Entre eles há sindicalistas preocupados com a redução do emprego em seu território, religiosos e estudantes idealistas, interessados em ajudar países subdesenvolvidos, ambientalistas preocupados com a degradação ecológica e anarquistas que são contra todas as formas de regulamentação. Alguns dizem representar os pobres, mas defendem o protecionismo agrícola nos países ricos. É o caso de José Bové, líder dos agricultores franceses, que nunca tosou uma ovelha e passa a vida viajando pelo mundo, atrás de uma boa encrenca. É um agitador profissional. Antes da reunião do G-8, foi preso em Israel, numa passeata em favor dos direitos do povo palestino.
Entre os grupos contrários à globalização, os mais ativos e poderosos são as organizações não governamentais (ONGs). Elas são verdadeiras multinacionais. De acordo com estudo feito pela Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, no mundo interiro as ONGs empregam 19 milhões de pessoas e têm orçamento de cerca de 1,1 bilhão de dólares. Uma delas, a World Wildlife Fund, está presente em 28 países e, em 2000, gastou 357 milhões de dólares três vezes mais que a Organização Mundial do Comércio. A canadense Alternatives Action, formada em 1994 para promover a educação dos menos favorecidos, recebeu 4 milhões de dólares do governo federal e outros 200.000 da província de Quebec no ano passado. É a ponta-de-lança da resistência à globalização em seu país.
Pode-se criticar os ativistas dos tempos atuais por escamotear suas reais intenções, por recorrer à violência e recusar o diálogo. Ou ainda por manipular uma multidão de jovens ingênuos. Mas é preciso reconhecer que seu trabalho já ensejou algumas providências positivas. Dois terços da dívida de 23 países paupérrimos foram perdoados. O Bird deixou de financiar projetos faraônicos e separou mais dinheiro para aplicar em saúde, educação e nutrição. Também passou a bancar instituições alternativas. No ano passado, mais de dois terços dos projetos apoiados pelo Bird envolveram ONGs que trabalham contra o desmatamento e o aquecimento global.
Os governos democráticos estão tendo dificuldade para enfrentar a resistência à globalização. Eles estão enfraquecidos. Diante da mundialização da cultura e da economia, têm poder de decisão cada vez menor. E sabem que há muitos problemas a resolver, que apenas 10% da população mundial recebe 70% da renda total do planeta e que cerca de metade da humanidade vive com menos de 2 dólares por dia. Não é fácil encarar esse quadro. A globalização não é o paraíso. É, por assim dizer, um mal menor. Tem de ser aperfeiçoada. Intelectuais e ativistas que demonstram ter tanta disposição para marchas e quebra-quebras poderiam aproveitar essa energia para tarefas mais úteis. Poderiam buscar, com outros grupos preocupados com o destino do planeta, formas de melhorar o mundo. E pôr mãos à obra.
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A HISTÓRIA DAS BATALHAS Alguns dos eventos que marcaram o crescimento do movimento antiglobalização Manifestantes favoráveis ao perdão da dívida externa dos mais pobres do planeta formaram um cordão em torno do prédio onde acontecia o encontro dos países mais industrializados (G-8) 100 000 manifestantes protestam diante de uma reunião da Organização Mundial do Comércio. O encontro é interrompido
Manifestações perturbam o encontro de políticos e empresários no Fórum Econômico Mundial
10 000 manifestantes, incluindo ambientalistas, agricultores e ativistas em defesa dos países mais pobres, tumultuam a reunião anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional
Jovens de 54 países debatem efeitos da globalização econômica. Há confrontos com a polícia
No encontro das Américas a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e canhões de água
Embates violentos entre manifestantes e a polícia sueca marcam discussão que pretendia ampliar a integração da União Européia
Encontro do Banco Mundial marcado para discutir formas de combater a pobreza no mundo foi cancelado por falta de segurança. O debate aconteceu por teleconferência
A cidade foi protegida com placas metálicas e 15 000 policiais saíram às ruas para enfrentar 100 000 manifestantes. Três cartas-bomba foram despachadas às vésperas do início da reunião dos líderes do G-8 |
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