
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
A
mesma arma
dos bandidos
Armados
e encapuzados, policiais
ameaçam a
sociedade. Isso é motim,
e não pode ser
tolerado
A greve dos policiais militares da Bahia, encerrada há cinco dias,
produziu o efeito temido. Na semana passada, o movimento se espalhou por
outros Estados. Em Alagoas, os PMs se negaram a sair do quartel para vigiar
as ruas. Agências bancárias e ônibus foram apedrejados.
No Paraná, mulheres de soldados cercaram o prédio do quartel-general.
No Tocantins, os policiais conseguiram um aumento de 35% depois de tomar
os quartéis. Em São Paulo, o governador, Geraldo Alckmin,
enfrentou manifestações de policiais. Em outros dez Estados,
as associações que representam a classe avisaram que querem
negociar aumentos salariais. Essa nova onda de greves chamou a atenção
para a dependência que a sociedade tem da polícia e provocou
uma sensação desconcertante: a impotência de ser refém
sem ter a quem pedir ajuda. "Nem nós imaginávamos a dimensão
de nosso poder e de como isso iria assustar as pessoas", disse Agnaldo
Pinto, da Associação de Cabos e Soldados da Bahia.
O Brasil já se havia acostumado à imagem de encapuzados
carregando facas e armas de fogo. Ocorre que o capuz era símbolo
dos bandidos amotinados das cadeias e penitenciárias. Ver funcionários
públicos com o capuz dos bandidos, como ocorreu na Bahia, é
muito mais assustador, pois no primeiro caso é possível
chamar a polícia. No segundo, as pessoas só podem trancar-se
em casa e esperar pelo pior, como fizeram baianos e alagoanos. Tropas
do Exército foram mandadas à Bahia pelo governo federal
com o objetivo de executar duas missões: garantir a segurança
pública e conter os grevistas. Nenhuma das duas tarefas pôde
ser realizada com eficiência. Em Salvador, a criminalidade aumentou
mesmo com a presença de soldados do Exército pelas esquinas.
Não se discute que a vida dos policiais é sofrida. Um PM
no Nordeste ganha um piso médio de 500 reais. No Sudeste, o salário-base
é 1.000 reais. Difícil imaginar que esse dinheiro compense
o risco de patrulhar cidades violentas. Num ambiente desses, como resolver
o problema e evitar novas greves? Os especialistas não vêem
solução a curto prazo. De nada adiantaria aumentar o salário
de uma força de baixa qualificação. E também
não se conseguiria recrutar gente de melhor nível pagando
pouco. A única solução de consenso, estudada há
mais de dez anos e jamais encarada com a devida seriedade pelos governantes,
é a completa reformulação do modelo policial. "A
polícia precisa ser feita de novo", diz o coronel José Vicente
da Silva Filho, um estudioso do assunto. "É assustador, mas quanto
mais se evita a solução pior fica." A questão central
é esta: o país não pode tolerar que homens encarregados
de manter a ordem a descumpram eles próprios. Pior: funcionários
armados não podem em hipótese alguma desafiar a autoridade
que os comanda. Isso não é greve. Isso é motim
e quem deles participa deve ser exemplarmente punido.
|
|
 |