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O teste da eleição
Artigo
de cientista político
entregue a FHC por Olavo
Setúbal fala dos riscos para
a democracia após 2002
Reuters

O coronel
golpista: Hugo Chávez, da Venezuela, apoio popular
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A possibilidade
de um candidato de esquerda chegar à Presidência da República
integra há muito tempo a lista de preocupações do
empresariado nacional. Era assim antes do regime militar de 1964 e continua
sendo até hoje. O receio empresarial é permanente, mas aumenta
no período eleitoral. Em 1989, a possibilidade de Lula ganhar a
eleição e suceder a José Sarney produziu uma frase
lendária, destemperada e alarmista do então presidente da
Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo, Mario Amato: "Oitocentos mil empresários deixarão
o país se Lula ganhar as eleições", disse ele. Com
a divulgação das pesquisas eleitorais neste ano, a perspectiva
de vitória de um candidato de esquerda voltou a freqüentar
a discussão do empresariado. Na semana passada, um grupo de dez
pesos-pesados da economia, como Lázaro Brandão, do Bradesco,
Olavo Setúbal, do Itaú, e Jorge Gerdau, do grupo homônimo,
convidou o presidente Fernando Henrique Cardoso para uma conversa genérica
sobre o Brasil. Os presentes receberam do anfitrião, Olavo Setúbal,
um artigo escrito pelo cientista político Fábio Wanderley
Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais. Intitulado "Brasil ao quadrado?
Democracia, subversão e reforma", o texto do professor propõe
uma discussão madura a respeito da solidez institucional do país.
Diz ele a certa altura: "Creio haver boas razões para reservas
quanto à perspectiva de que um Lula ou assemelhado assuma o poder
presidencial e o exerça sem mais até o momento de transferi-lo
ao sucessor. Falta a nossa democracia passar por este teste".
Sempre que
ocorre uma reunião como a da semana passada, nas condições
em que ela se deu, juntando um pedaço do PIB brasileiro com o presidente
da República, sob os vapores de um texto acadêmico que define
as candidaturas de esquerda como um "teste para a democracia", há
grande probabilidade de que alguém aponte o encontro como algo
conspiratório. Foi o que ocorreu no fim da semana passada. Quando
a notícia do encontro saiu nos jornais, alguns integrantes da oposição
reagiram imediatamente. O mais feroz deles foi o candidato Ciro Gomes,
do PPS. "Pareceu uma reunião da Oban", acusou Ciro, referindo-se
à sigla de Operação Bandeirantes, organização
paramilitar criada em 1969 com a ajuda financeira de empresários
para combater a luta armada. O deputado federal José Genoíno,
braço direito de Lula, alimentou a discussão. Segundo ele,
Ciro só não estava "totalmente certo porque não havia
armas e tanques no jantar". Na terça-feira, o presidente Fernando
Henrique, que foi preso no governo militar, reagiu em uma entrevista ao
jornal O Estado de S. Paulo: "Eu estive na Oban. Fui encapuzado
lá, ele (Ciro) não tem autoridade moral para falar nisso".
Lindauro Gomes/Ag. Estado
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Juca Varella/Folha Imagem
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| Lula:
sua eleição é apontada como o teste que falta
a nossa democracia |
Ciro
Gomes: reação feroz à reunião de Fernando
Henrique com os empresários |
Essa discussão,
descabida e grosseira, pode ser resultado da disputa eleitoral. Nem assim
insultos como os proferidos por Ciro Gomes se justificam. Fernando Henrique
conversa com artistas, intelectuais, sindicalistas e economistas. Também
fala freqüentemente com empresários. Nada de alarmante que
tenha reunido representantes de cerca de 10% do PIB nacional num jantar
para falar de política e das perspectivas do governo de fazer seu
sucessor. Um dos integrantes do encontro explicou a um amigo na semana
passada que os empresários não estão exatamente satisfeitos
com o trabalho desempenhado por Fernando Henrique e seria fácil
apontar diversas falhas em sua administração. Na opinião
deles, no entanto, o governo FHC tem certas características que
gostariam de ver repetidas numa futura administração, entre
elas o respeito pelo equilíbrio fiscal, a batalha contra a inflação
e a intenção de modernizar o país.
"Empresário
não fica de olho em nomes, mas em programas. É com isso
que nos preocupamos", diz um dos grandes banqueiros brasileiros. "Nossa
fidelidade não é com o candidato do governo, mas com aquele
que nos ofereça a melhor perspectiva de país." Nesta fase
pré-eleitoral, os empresários brasileiros estão interessados
em decifrar todas as pedras do tabuleiro, do petista Luís Inácio
Lula da Silva, hoje menos radical e mais risonho, ao impetuoso Ciro Gomes,
o evangélico e populista Anthony Garotinho e o ex-presidente e
atual governador de Minas Gerais, Itamar Franco. A razão para o
interesse é que as candidaturas de oposição somam
algo como 70% das intenções de voto atualmente, enquanto
o candidato do governo com melhor desempenho nas pesquisas é José
Serra, que aparece com algo entre 5% e 7% das intenções
de voto, tecnicamente empatado com Enéas. "Seja quem for o vencedor,
nós teremos de sentar e conversar, para que não aconteçam
erros que prejudiquem a todos", afirma o empresário Antônio
Ermírio de Moraes, que estava no encontro com Fernando Henrique.
Na conversa,
realizada na sexta-feira, no apartamento do banqueiro Olavo Setúbal,
em São Paulo, os empresários apresentaram suas dúvidas
sobre os candidatos de oposição e perguntaram qual seria,
afinal, o candidato do governo? FHC não deu nenhuma resposta conclusiva,
mas deixou a impressão de que José Serra é mesmo
a aposta número 1, no momento. A repercussão do encontro
entre os oposicionistas nada teve a ver com esse tipo de comentário
trocado entre empresários e presidente da República. Deveu-se
mais ao trabalho acadêmico do professor Fábio Wanderley Reis,
que Olavo Setúbal distribuiu antes do jantar mas que não
chegou a ser analisado pelo grupo. O estudo não é inédito
nem foi desenvolvido a pedido dos empresários. Foi apresentado
em maio, num fórum de debates organizado pelo ex-ministro João
Paulo dos Reis Velloso.
Segundo
seu autor, a democracia brasileira vai bem, mas ainda não passou
pela prova final, que consiste em repetidas sucessões, sem crise.
"A oposição ainda não chegou ao poder. Só
depois que isso acontecer poderemos ter uma impressão exata a respeito
de como a sociedade vai reagir", diz ele. O professor faz algumas indagações
perturbadoras. Um governo de oposição conseguiria formar
uma base no Congresso para superar as divergências políticas
e governar com eficiência? A população estaria disposta
a tolerar um governo inoperante e amarrado diante do Congresso? O que
conclui Fábio Wanderley Reis, e boa parte dos cientistas políticos,
é que talvez a resposta para esta última pergunta seja negativa
daí a repercussão barulhenta que o estudo de Wanderley
recebeu de Ciro Gomes e do PT. A verdade é que os três últimos
presidentes que tentaram governar sem o Congresso, Jânio Quadros,
João Goulart e Fernando Collor, acabaram fora antes do tempo previsto.
Sergio Lima/Folha Imagem

Itamar:
os candidatos da oposição têm, somados, 70% das
intenções de voto |
Fábio Wanderley Reis preocupa-se em definir alguns conceitos para
orientar as discussões. Há a crise de governança,
como aquela que atormentou Celso Pitta, o ex-prefeito de São
Paulo, e a que persegue o atual governador do Espírito Santo, José
Ignacio Ferreira, ambos atolados em denúncias de corrupção.
Nesse caso, o governante acaba limitado a um gerente de crises e não
consegue promover as mudanças para as quais foi eleito. Há
outra crise, muito pior, segundo o trabalho de Fábio Wanderley,
a da governabilidade. Ela ocorre quando a maior parte da sociedade
se volta contra o governante ou contra as instituições e
provoca o que se chama de uma ruptura. É o caso da crise que antecedeu
o impeachment do presidente Collor e da que levou ao afastamento do presidente
Alberto Fujimori, no Peru. Outra modalidade de sintoma seria o que ocorre
neste momento na Venezuela, onde o coronel Hugo Chávez fez um plebiscito
para eleger um novo Congresso favorável a ele, produziu uma Constituição
na medida para seu programa de governo, demitiu 90% dos juízes
e detém um poder incontornável no país. Essa também
é uma crise de governabilidade, se olhada pelo prisma da democracia.
Na opinião do professor, diante de dificuldades mais sérias
na vida de uma nação, as pessoas podem desesperar-se e chamar
um salvador com carta branca para destruir as instituições.
No meio
acadêmico, os trabalhos de Fábio Wanderley Reis são
considerados um tanto pessimistas. Primeiro, no que diz respeito a sua
visão da qualidade da democracia brasileira. Ele diz que, "embora
tenhamos restaurado a democracia", o Brasil de hoje experimenta "inequívoca
corrosão do tecido social". No texto entregue por Setúbal
aos empresários, o professor listou exemplos dessa corrosão.
Ela pode ser conferida em "violência crescente, a insegurança
difusa, os seqüestros, os vidros dos automóveis fechados contra
a ameaça dos pivetes, os carros blindados, as chacinas, as guerras
de traficantes, os linchamentos, as banais rebeliões nos presídios".
Wanderley Reis possui uma visão pessimista também no campo
econômico. "Não parece razoável apostar que uma eventual
retomada do dinamismo econômico, ou mesmo alguma melhoria dos indicadores
sociais, venha a produzir maior paz social." Existem vários trabalhos
que discutem a eficiência do modelo neoliberal, e as lideranças
da oposição cobram do governo maturidade para debater os
textos e fazer uma autocrítica. O estudo do professor é
uma contribuição no sentido contrário. A oposição
terá maturidade para fazer sua autocrítica?

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