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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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A capital da descrença

Orlando Brito
Mudança no Senado: após a renúncia de dois senadores, um presidente interino

 

Em qualquer pesquisa de popularidade, os políticos sempre aparecem na categoria dos menos prestigiados pela população. Agora, com base em informações de uma pesquisa do Ibope que ouviu 5.300 brasileiros em todo o país, é possível concluir mais um dado sobre essa questão: quem mais os conhece menos acredita neles. Na pesquisa, o Ibope perguntou aos entrevistados – brasileiros de 12 a 64 anos – se eles acham que os políticos se preocupam realmente com o bem-estar da população. A menor proporção de pessoas que responderam "sim" à pergunta está em Brasília, a cidade que mais convive com políticos de projeção nacional. Apenas 2,98% dos entrevistados disseram acreditar em suas boas intenções. Depois de Brasília, a cidade que menos acredita nos políticos é Porto Alegre, tradicional reduto de mentalidade oposicionista que se tornou feudo do PT. A porção mais simpática aos políticos está no interior de São Paulo, mas, mesmo ali, é inferior a 10% dos entrevistados (veja quadro).

A má impressão que os políticos causam aos brasilienses se deve, em parte, à sua proximidade geográfica com os escândalos quase diários que afetam deputados, senadores, ministros e outros representantes da categoria. Além disso, os moradores do Plano Piloto formam uma população que está entre as mais abastadas e mais bem informadas do país – o que pode explicar um grau mais elevado de interesse pela política. Como a pesquisa do Ibope encerrou-se em janeiro passado, é inútil tentar atribuir essa postura do brasiliense ao fato de que dois dos três senadores do Distrito Federal deixaram seus mandatos. Luiz Estevão foi cassado em junho do ano passado, mas o envolvimento de José Roberto Arruda com a violação do painel eletrônico do Senado, que lhe valeu a renúncia ao mandato, só veio a público em abril passado, três meses depois de concluída a pesquisa.

O levantamento traz, ainda, outra curiosidade sobre a avalanche de escândalos. O Ibope também perguntou aos pesquisados se o combate à corrupção deveria ser prioridade das autoridades. Em Fortaleza, mais de 90% dos entrevistados responderam "sim" – índice superior à média nacional. No entanto, os moradores da capital cearense são os primeiros a dizer que, caso fossem eleitos para algum mandato, não vacilariam em ajudar seus próprios amigos. "É um reflexo do clientelismo que ainda vigora no Nordeste do país", acredita Fábio Wanderley Reis, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais. "São eleitores politicamente desinformados que não separam o todo de situações particulares."

Márcio Pacelli

 

Festejando a sorte do destino

Ana Araujo
O senador Lobão: de olho nos títulos do século passado

Há duas semanas, o senador Edison Lobão, do PFL do Maranhão, compareceu a uma solenidade no Palácio do Planalto. Ali, ao comentar a lentidão com que tramitam processos na Câmara, Lobão disparou: "Eu, como presidente do Senado, não posso fazer nada". Foi um ato falho, mas mostra que talvez Lobão não pensasse em outra coisa senão na sorte que o destino lhe reservou. Na semana passada, com o pedido de licença de Jader Barbalho por sessenta dias, a presidência do Senado lhe caiu no colo. Aos 64 anos, Lobão já foi duas vezes deputado federal, governou o Maranhão entre 1991 e 1994 e está no segundo mandato de senador. Soldado da tropa de choque do ex-presidente José Sarney, o senador ficou todo prosa ao receber a notícia de que iria sentar na cadeira de presidente.

Lobão é um parlamentar discreto, que gosta mais de atuar nos bastidores. É um bom articulador político e já foi incluído pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) na lista dos 100 parlamentares mais influentes do Congresso. Quando se trata de se mover nas coxias da política, Lobão faz jus ao aumentativo de seu sobrenome, embora seja mais conhecido pelas trapalhadas do que pelos sucessos. Em 1989, atuando junto com outros dois políticos, Lobão articulou o lançamento da candidatura presidencial de Sílvio Santos, dono do SBT. O trio fez uma lambança tal com a articulação, afinal frustrada, que ganhou o apelido de "os três porquinhos". Lobão também é um grande articulador quando o assunto são os interesses das companhias aéreas, especialmente se a companhia for a Vasp.

Mesmo com atuação discreta, Lobão já apareceu algumas vezes envolvido em casos pouco recomendáveis. Em 1992, conseguiu arrancar um empréstimo irregular, de 330.000 dólares, do Banco do Brasil, então dirigido por Lafaiete Coutinho. Queria salvar sua destilaria no Nordeste. O caso mais extremo, no entanto, foi sua participação ostensiva na montagem de um grande lance financeiro. Lobão fez de tudo para forçar o governo a honrar o pagamento de títulos públicos emitidos no início do século passado. Não deu certo. Se desse, seria a armação mais fantástica da história. Levaria o governo a pagar aos portadores dos títulos coisa de 35 bilhões de reais.

Ana d'Angelo

 

Com reportagem de Lourenço Flores e Malu Gaspar

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