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O
nosso fracasso
"Turismo
no Brasil? O país é
grande
demais, longe demais,
o mar é feio, tem muito mosquito
e muito
bandido"
No fim do ano passado, as ações da Nokia estavam lá
embaixo. Uma pechincha, pensei. De agora em diante, os preços só
podem subir. A Nokia é a maior indústria de telefones celulares
do mundo. O faturamento cresceu seis vezes nos últimos cinco anos.
A lucratividade aumentou 50% no ano 2000. Impossível que as ações
se desvalorizassem ainda mais. Impossível não ganhar um
montão de dinheiro. Apliquei tudo o que tinha em ações
da Nokia e fiquei com um charuto na boca, à espera do meu primeiro
milhão. Danei-me. As ações continuaram a despencar.
Conto a história do meu fracasso financeiro porque sou dotado de
profundo espírito patriótico. Quero o bem da minha nação.
Volta e meia nossos governantes se convencem de que é necessário
adotar medidas para proteger a indústria tecnológica. Proteger
uma indústria custa caro, sobretudo para o consumidor, que sempre
paga duas vezes, a primeira através de impostos para cobrir os
subsídios, a segunda através da ineficiência e do
preço elevado do produto nacional. O Brasil já caiu nessa
armadilha com a Zona Franca de Manaus e a Lei de Informática. Agora
está pensando em cair de novo. Protecionistas de todas as correntes
políticas falam da importância estratégica de indústrias
como a telefônica ou a informática. Argumentam que o Brasil
não pode abrir mão desse mercado, privando-se do conhecimento
tecnológico. O resultado é que o país perderá
dinheiro, exatamente da mesma maneira como eu perdi com a Nokia. Melhor
comprar telefones celulares e computadores no exterior. Na Índia
ou na China, por exemplo. Produzir um chip, hoje em dia, requer menos
tecnologia do que produzir um saco de soja. É tudo tão elementar
que agora fazem telefones celulares descartáveis: você usa
e joga fora. É essa tecnologia de ponta que se quer proteger? Se
fosse tão valiosa assim, minhas ações da Nokia não
teriam afundado.
Não significa que o Brasil não precise de planejamento industrial.
Num mundo altamente competitivo, um país subdesenvolvido como o
nosso não pode ter a pretensão de produzir um pouco de cada
coisa. Temos de nos especializar em determinados setores da economia internacional,
conquistando nichos. Turismo é uma indústria simples e lucrativa,
mas o Brasil não dispõe das características adequadas
para vencer nesse mercado: é grande demais, longe demais, o mar
é feio, tem muito mosquito e muito bandido. Nossa agricultura funciona,
aliando grande quantidade com baixa qualidade, como no caso do café.
Só que não consigo pensar em novos alimentos nativos com
os quais invadir o planeta. Talvez o palmito. Podemos começar a
exportar palmito, como os italianos exportam queijo parmesão e
os neozelandeses, kiwi. A indústria do entretenimento também
oferece possibilidades. Vi o encarte especial da revista Caras
sobre a festa de boi-bumbá, em Parintins. Em meio a uma porção
de atrizes com cocar de índio e sérios problemas de peso,
lá estava o escritor Luis Fernando Verissimo, usando seu prestígio
para anunciar uma marca de guaraná e garantir que nunca viu um
espetáculo igual. Quem sabe os países ricos descobrem o
boi-bumbá e gastam bilhões de dólares em discos,
livros e programas de TV sobre a festa amazônica.
É
divertido planejar o futuro de um país. Estranho que, no Brasil,
ninguém jamais tenha pensado em preencher essa fun&ritor Luis Fernando Verissimo, usando seu prestígio
para anunciar uma marca de guaraná e garantir que nunca viu um
espetáculo igual. Quem sabe os países ricos descobrem o
boi-bumbá e gastam bilhões de dólares em discos,
livros e programas de TV sobre a festa amazônica.
É
divertido planejar o futuro de um país. Estranho que, no Brasil,
ninguém jamais tenha pensado em preencher essa função.
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