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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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O nosso fracasso

"Turismo no Brasil? O país é
grande demais, longe demais,
o mar é feio, tem muito
mosquito
e
muito bandido"

No fim do ano passado, as ações da Nokia estavam lá embaixo. Uma pechincha, pensei. De agora em diante, os preços só podem subir. A Nokia é a maior indústria de telefones celulares do mundo. O faturamento cresceu seis vezes nos últimos cinco anos. A lucratividade aumentou 50% no ano 2000. Impossível que as ações se desvalorizassem ainda mais. Impossível não ganhar um montão de dinheiro. Apliquei tudo o que tinha em ações da Nokia e fiquei com um charuto na boca, à espera do meu primeiro milhão. Danei-me. As ações continuaram a despencar.

Conto a história do meu fracasso financeiro porque sou dotado de profundo espírito patriótico. Quero o bem da minha nação. Volta e meia nossos governantes se convencem de que é necessário adotar medidas para proteger a indústria tecnológica. Proteger uma indústria custa caro, sobretudo para o consumidor, que sempre paga duas vezes, a primeira através de impostos para cobrir os subsídios, a segunda através da ineficiência e do preço elevado do produto nacional. O Brasil já caiu nessa armadilha com a Zona Franca de Manaus e a Lei de Informática. Agora está pensando em cair de novo. Protecionistas de todas as correntes políticas falam da importância estratégica de indústrias como a telefônica ou a informática. Argumentam que o Brasil não pode abrir mão desse mercado, privando-se do conhecimento tecnológico. O resultado é que o país perderá dinheiro, exatamente da mesma maneira como eu perdi com a Nokia. Melhor comprar telefones celulares e computadores no exterior. Na Índia ou na China, por exemplo. Produzir um chip, hoje em dia, requer menos tecnologia do que produzir um saco de soja. É tudo tão elementar que agora fazem telefones celulares descartáveis: você usa e joga fora. É essa tecnologia de ponta que se quer proteger? Se fosse tão valiosa assim, minhas ações da Nokia não teriam afundado.

Não significa que o Brasil não precise de planejamento industrial. Num mundo altamente competitivo, um país subdesenvolvido como o nosso não pode ter a pretensão de produzir um pouco de cada coisa. Temos de nos especializar em determinados setores da economia internacional, conquistando nichos. Turismo é uma indústria simples e lucrativa, mas o Brasil não dispõe das características adequadas para vencer nesse mercado: é grande demais, longe demais, o mar é feio, tem muito mosquito e muito bandido. Nossa agricultura funciona, aliando grande quantidade com baixa qualidade, como no caso do café. Só que não consigo pensar em novos alimentos nativos com os quais invadir o planeta. Talvez o palmito. Podemos começar a exportar palmito, como os italianos exportam queijo parmesão e os neozelandeses, kiwi. A indústria do entretenimento também oferece possibilidades. Vi o encarte especial da revista Caras sobre a festa de boi-bumbá, em Parintins. Em meio a uma porção de atrizes com cocar de índio e sérios problemas de peso, lá estava o escritor Luis Fernando Verissimo, usando seu prestígio para anunciar uma marca de guaraná e garantir que nunca viu um espetáculo igual. Quem sabe os países ricos descobrem o boi-bumbá e gastam bilhões de dólares em discos, livros e programas de TV sobre a festa amazônica.

É divertido planejar o futuro de um país. Estranho que, no Brasil, ninguém jamais tenha pensado em preencher essa fun&ritor Luis Fernando Verissimo, usando seu prestígio para anunciar uma marca de guaraná e garantir que nunca viu um espetáculo igual. Quem sabe os países ricos descobrem o boi-bumbá e gastam bilhões de dólares em discos, livros e programas de TV sobre a festa amazônica.

É divertido planejar o futuro de um país. Estranho que, no Brasil, ninguém jamais tenha pensado em preencher essa função.

 
 
   
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