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Sob
as asas do poder
Para o sociólogo carioca, o Estado sempre exerceu
e continua a exercer uma incrível atração sobre os
intelectuais brasileiros
Carlos Graieb
Regis Filho
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"A
cooptação da inteligência nacional pelo poder é um dado histórico,
embora os intelectuais digam que só têm compromisso com idéias" |
Em
1979, o sociólogo carioca Sergio Miceli causou abalo ao publicar
o livro Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil. Ele mostrava
como a "classe pensante" nacional fora cooptada pelo Estado Novo de Getúlio
Vargas e não poupava sequer as figuras de maior renome e envergadura
como o poeta Carlos Drummond de Andrade, que ainda estava vivo
na época e acusou o golpe. Passados mais de vinte anos, esse estudo
clássico é reeditado no volume Intelectuais à
Brasileira, acompanhado de outros textos que provam que a sedução
do poder sobre aqueles que fazem cultura no Brasil está longe de
se esgotar. "O mecanismo da cooptação nunca foi desligado",
diz Miceli, que também já escreveu livros sobre a elite
eclesiástica brasileira e sobre as relações entre
pintores de retratos e seus mecenas durante o modernismo. Nesta entrevista,
o sociólogo, que é professor titular da Universidade de
São Paulo e um dos fundadores do Instituto de Estudos Econômicos,
Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp), fala sobre grandes
nomes da literatura, o cenário cultural contemporâneo e as
diferenças entre o intelectual e o político Fernando Henrique
Cardoso.
Veja O que é um intelectual à brasileira?
Miceli
Um
personagem saído das elites que se deixa cooptar pelo poder do
Estado. Esse processo de cooptação é um dado estrutural,
sempre esteve no centro da nossa vida intelectual.
Veja Ele, portanto, continua a valer hoje em dia.
Miceli
Sim. Nos últimos trinta anos, o mundo intelectual se adensou no
Brasil. A rede universitária se ampliou, a indústria cultural
se tornou mais forte, há mais editoras, mais publicações
de interesse geral ou especializado. Mesmo assim, a cooptação
continua tão poderosa quanto sempre foi. Basta olhar os quadros
do governo FHC. Seus principais funcionários são oriundos
da universidade. As pessoas dão justificativas divertidas para
se bandearem de um campo a outro. "Vou fazer o bem", costumam dizer. Mas
a verdade pura e simples é que o Estado tem um poder de atração
incrível sobre os intelectuais brasileiros. E, veja bem, isso não
é igual em todos os lugares. Não é assim nos Estados
Unidos e também não é assim na França, para
citar dois países nos quais o Brasil costuma se espelhar.
Veja Se essa força de cooptação sempre
foi tão forte no Brasil, onde fica a idéia de que o intelectual
é um sujeito independente?
Miceli
Pois é, os intelectuais adoram dizer que não têm compromisso
com nada, a não ser com as idéias. Mas isso não é
verdade, como é possível verificar até mesmo dentro
das universidades. Elas são atravessadas por lutas terríveis
pelo poder. Além disso, há inúmeros exemplos de pessoas
com projetos políticos mais ambiciosos que usam o sistema intelectual
para alcançá-los. A fronteira entre o mundo intelectual
e o mundo político é muito porosa no Brasil, até
mesmo porque figuras que conseguem circular pelos dois mundos exercem
um estranho fascínio em nosso meio.
Veja Nessa tradição de intelectuais brasileiros
ligados ao poder, o presidente Fernando Henrique Cardoso faz parte da
regra ou da exceção?
Miceli
Da regra. Ele repete o padrão clássico de relacionamento
entre a elite brasileira e o poder. Fernando Henrique é filho de
um militar bem-sucedido na carreira. Nasceu numa família de elite
para a qual o projeto de influir na política não era uma
quimera, mas uma possibilidade concreta. Em sua trajetória acadêmica,
essa intenção sempre foi perceptível. Desde muito
cedo, por exemplo, ele teve participação importante no conselho
da Universidade de São Paulo. Mais tarde, quando voltou do exílio,
ele soube se reorientar de maneira rápida e atilada no cenário
intelectual. Saiu da sociologia, que era um departamento dominado por
uma figura de grande porte, Florestan Fernandes, e abriu uma nova corte
na ciência política, um curso novo que contava com doações
polpudas para iniciar seus trabalhos. Também o fato de ele ter
participado da formação de um centro de pesquisas independentes,
o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é
significativo. Fernando Henrique tornou-se uma espécie de empresário
da área de pesquisa. Nesse papel, ampliou seu leque de contatos
e alianças de maneira impensável para aqueles que se limitavam
ao cotidiano acadêmico. Em outras palavras, ele sabia fazer política
universitária, assim como soube usar a universidade para lançar-se
no cenário mais amplo da política nacional.
Veja O senhor acha que, como presidente, Fernando Henrique
traiu seu passado intelectual?
Miceli
Usar a obra de Fernando Henrique para patrulhá-lo é uma
tolice. FHC não traiu sua obra não escreveu novos
ensaios que desmentissem o que já estava pronto. O que aconteceu
é que ele mudou de ramo. Virou político profissional. Deixou
de ser um acadêmico, deixou de ser um intelectual. Ele não
traiu. Ele abandonou. Mas continuou usando os adereços de sua formação
acadêmica, como as citações em língua estrangeira.
Ele instrumentalizou seu passado intelectual para incrementar sua imagem.
Veja Existe alguma diferença entre Fernando Henrique
citando Maquiavel num evento e ACM citando Voltaire em seu discurso de
renúncia?
Miceli
Toda
a diferença. Fernando Henrique não faz parte da velha tradição
de bacharéis que desenterram bordões aleatoriamente para
enfeitar suas falas. Ele não faz citações descontextualizadas.
Usa bem os conceitos e os nomes. Em outras palavras, sabe manipular as
expectativas do mundo intelectual, daqueles que eventualmente poderiam
apanhá-lo em erro. Daí muito do seu charme.
Veja Se FHC é um exemplo típico de intelectual
fascinado pelo poder, poderia citar outros nomes?
Miceli
Como eu disse, a cooptação é um dado estrutural da
vida intelectual no Brasil. A começar pelo Império. Naquela
época, simplesmente não havia posições intelectuais
autônomas em relação ao poder. Até mesmo as
figuras de maior envergadura, como Joaquim Nabuco, não diferenciavam
a produção intelectual da prestação de serviços
políticos. Em troca, recebiam proteção do aparato
estatal, assumindo uma sinecura sempre que o dinheiro encurtava.
Veja O que aconteceu com a passagem para a República?
Miceli
O
espaço cultural se tornou mais complexo. Surgiram novas posições
para os intelectuais ocuparem. No início do século XX, por
exemplo, a grande novidade foi o surgimento de jornais pujantes e das
famosas revistas ilustradas. O dado curioso é que quase todas as
posições de relevo nesse período foram ocupadas pelos
primos pobres da elite, gente proveniente de famílias que estavam
em declínio, mas que ainda tinham contato com pessoas influentes
e cortejavam seus favores. Depois veio o período que estudei em
Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil. Ele se estende de 1920
ao final da era Vargas, em 1945. Nele, três mercados se abriram
para os intelectuais. Primeiro, um mercado controlado pelos mecenas da
oligarquia. Todos os modernistas se renderam a ele de um jeito ou de outro.
Depois, um mercado inaugurado nos anos 30, graças ao aumento na
demanda por obras de ficção. Foi ocupado por romancistas
como Rachel de Queiroz e José Lins do Rego. Eles conseguiram se
profissionalizar e, embora muitas vezes tenham aceitado cargos e posições
políticas, foram o mais próximo que tivemos de uma exceção
à regra do clientelismo. Finalmente, quando o governo Vargas começou
a investir pesado em cultura, surgiu o espaço para que se formasse
uma verdadeira casta de intelectuais funcionários públicos.
Veja Como era a relação entre os modernistas
e a oligarquia?
Miceli
O modernismo é cantado em prosa e verso como inovador. E isso é
verdade, em muitos sentidos, no que diz respeito à estética.
Socialmente, contudo, ele tinha um viés conservador, independentemente
do fato de as simpatias dos artistas irem para a esquerda ou a direita.
A carreira de todos os grandes modernistas só é compreensível
se você acompanhar as ligações deles com os partidos
oligárquicos. Mário de Andrade e seu irmão, por exemplo.
Eles eram ligados ao Partido Democrático, que agrupava membros
progressistas, por assim dizer, da oligarquia. Toda a correspondência
de Mário deixa clara sua atenção para os movimentos
e facções partidários. Sua militância na crítica
de arte e de música também deixa transparecer preocupações
políticas. E não se pode esquecer que ele ocupou vários
cargos burocráticos certas dimensões de seu perfil
como pensador da cultura só ganham sentido se levarmos em conta
esse trabalho. O mesmo vale para intelectuais que se identificavam com
a direita, como Cassiano Ricardo ou Menotti del Picchia. Também
eles tiveram cargos na administração municipal nos anos
20 e depois, no Estado Novo, ocuparam espaços no governo federal.
Veja No lançamento original de Intelectuais e
Classe Dirigente no Brasil, em 1979, algumas das passagens do livro
que causaram mais polêmica tinham a ver com Carlos Drummond de Andrade.
Poderia falar um pouco a respeito dele?
Miceli
Meu livro foi o primeiro a falar da ligação entre Drummond
e a administração Vargas de maneira séria. O próprio
poeta parece ter se espantado com essa abordagem, pois comentou o livro
sem citar o título, de maneira meio enviesada, nas colunas que
publicava na imprensa. Drummond certamente é um caso especial para
quem quer refletir sobre as relações entre os intelectuais
brasileiros e o Estado. Primeiro, claro, porque é um dos maiores
poetas da história nacional. Em segundo lugar, porque não
foi um funcionário público qualquer. Ele foi chefe de gabinete
de Gustavo Capanema, quando esse desempenhava as funções
de ministro da Educação no governo Vargas. Ou seja, Drummond
ocupava um cargo de confiança, devia lealdade ao regime. É
um personagem exemplar no que diz respeito aos mecanismos de cooptação
da inteligência pelo Estado. No meu modo de ver, é impossível
ler sua obra dos anos 40 sem levar em conta a passagem pelo ministério.
Não quero dizer com isso que sua atividade política tenha
determinado sua poesia. Mas quero dizer, sim, que o fato de ele ter sido
um funcionário público foi causa de dilemas importantes
que se refletem em seus textos. Ao contrário do que muita gente
pensa, até as obras de maior gênio não surgem do nada,
estão enraizadas em condições sociais bem definidas.
Veja É possível conciliar vida política
e verdadeiro engajamento na atividade intelectual?
Miceli
Não. Hoje em dia, é absolutamente impossível. No
tempo de Joaquim Nabuco dava certo. Pense em suas obras mais importantes.
Um Estadista do Império é uma biografia de seu pai.
Seu segundo livro fundamental, Minha Formação, é
de memórias. Ele usava sua vivência familiar como ponte para
brilhantes análises políticas. Hoje, não dá
mais para construir uma trajetória intelectual calcada em trabalhos
desse tipo. Não dá para fazer carreira com as memórias
de papai. É preciso fazer teses e ganhar títulos na universidade.
É preciso um longo investimento. Não dá para jogar
nos dois tabuleiros ao mesmo tempo.
Veja O senhor acha que as relações entre os
intelectuais e a imprensa hoje em dia são boas ou más?
Miceli
A
situação é um tanto paradoxal. Os dois setores estão
vinculados. Não há vida intelectual sem divulgação
dos resultados e essa divulgação quem pode fazer
é a mídia. Por outro lado, o núcleo de produção
intelectual mais pujante do presente se encontra na universidade
e a imprensa, em boa medida, depende do acesso a essas novidades para
sobreviver. Ainda assim, os ressentimentos de parte a parte são
grandes. Os intelectuais acham que são usados pelos jornalistas,
que eles barateiam seu trabalho. A mídia reclama da timidez dos
universitários e há muito comodismo mesmo no ambiente
intelectual. Não adianta ficar reclamando. É melhor reconhecer
a necessidade de diálogo. Um setor simplesmente não tem,
nem nunca terá, como viver sem o outro.
Veja Há quem diga que o intelectual é uma figura
em extinção. O senhor concorda com isso?
Miceli
Não, acho que é exatamente o contrário. Os intelectuais
são os verdadeiros heróis do mundo contemporâneo.
Num mundo em que o acesso à educação se amplia cada
vez mais, no qual a massa de informação disponível
cresce vertiginosamente e no qual a cultura se tornou um negócio
próspero, uma carreira que não corre perigo de sofrer declínio
é a carreira intelectual. Quem fala do declínio dos intelectuais
normalmente está pensando em figuras como as dos franceses Sartre
ou Foucault as dos pensadores de obras de grande envergadura, que
forneciam uma base sólida de onde alçar vôos para
discussões em várias áreas, das mais eruditas às
mais populares. A especialização no ambiente universitário
barrou um pouco o surgimento desses personagens. Mas mesmo eles continuam
a existir. Pense num Noam Chomsky nos Estados Unidos, num Jürgen
Habermas na Alemanha. Mesmo no Brasil, gente como Marilena Chauí
ou José Arthur Giannotti desempenha bem o papel do intelectual
público.
Veja Um ramo de atividade em franca expansão é
o das obras de divulgação, em que conceitos especializados
são trocados em miúdos para os leigos. Pessoas que se dedicam
a esse tipo de trabalho deveriam ser contadas entre as hostes intelectuais?
Miceli
Na maioria dos casos, acho que não. Uma coisa é um intelectual
elaborar seu estilo de exposição para atingir um público
mais amplo. Outra coisa é você recorrer à diluição
de conceitos, como faz, digamos, o italiano Domenico de Masi, o famoso
"teórico do ócio", para citar alguém da minha área.
Ele faz o que chamo de sociologia "blockbuster", para as massas. Atividade
intelectual verdadeira é outra coisa.
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