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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
Entrevista: SERGIO MICELI

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Sob as asas do poder

Para o sociólogo carioca, o Estado sempre exerceu e continua a exercer uma incrível atração sobre os intelectuais brasileiros

Carlos Graieb

 
Regis Filho
"A cooptação da inteligência nacional pelo poder é um dado histórico, embora os intelectuais digam que só têm compromisso com idéias"

Em 1979, o sociólogo carioca Sergio Miceli causou abalo ao publicar o livro Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil. Ele mostrava como a "classe pensante" nacional fora cooptada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas e não poupava sequer as figuras de maior renome e envergadura – como o poeta Carlos Drummond de Andrade, que ainda estava vivo na época e acusou o golpe. Passados mais de vinte anos, esse estudo clássico é reeditado no volume Intelectuais à Brasileira, acompanhado de outros textos que provam que a sedução do poder sobre aqueles que fazem cultura no Brasil está longe de se esgotar. "O mecanismo da cooptação nunca foi desligado", diz Miceli, que também já escreveu livros sobre a elite eclesiástica brasileira e sobre as relações entre pintores de retratos e seus mecenas durante o modernismo. Nesta entrevista, o sociólogo, que é professor titular da Universidade de São Paulo e um dos fundadores do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp), fala sobre grandes nomes da literatura, o cenário cultural contemporâneo e as diferenças entre o intelectual e o político Fernando Henrique Cardoso.

Veja – O que é um intelectual à brasileira?
Miceli – Um personagem saído das elites que se deixa cooptar pelo poder do Estado. Esse processo de cooptação é um dado estrutural, sempre esteve no centro da nossa vida intelectual.

Veja – Ele, portanto, continua a valer hoje em dia.
Miceli – Sim. Nos últimos trinta anos, o mundo intelectual se adensou no Brasil. A rede universitária se ampliou, a indústria cultural se tornou mais forte, há mais editoras, mais publicações de interesse geral ou especializado. Mesmo assim, a cooptação continua tão poderosa quanto sempre foi. Basta olhar os quadros do governo FHC. Seus principais funcionários são oriundos da universidade. As pessoas dão justificativas divertidas para se bandearem de um campo a outro. "Vou fazer o bem", costumam dizer. Mas a verdade pura e simples é que o Estado tem um poder de atração incrível sobre os intelectuais brasileiros. E, veja bem, isso não é igual em todos os lugares. Não é assim nos Estados Unidos e também não é assim na França, para citar dois países nos quais o Brasil costuma se espelhar.

Veja – Se essa força de cooptação sempre foi tão forte no Brasil, onde fica a idéia de que o intelectual é um sujeito independente?
Miceli – Pois é, os intelectuais adoram dizer que não têm compromisso com nada, a não ser com as idéias. Mas isso não é verdade, como é possível verificar até mesmo dentro das universidades. Elas são atravessadas por lutas terríveis pelo poder. Além disso, há inúmeros exemplos de pessoas com projetos políticos mais ambiciosos que usam o sistema intelectual para alcançá-los. A fronteira entre o mundo intelectual e o mundo político é muito porosa no Brasil, até mesmo porque figuras que conseguem circular pelos dois mundos exercem um estranho fascínio em nosso meio.

Veja – Nessa tradição de intelectuais brasileiros ligados ao poder, o presidente Fernando Henrique Cardoso faz parte da regra ou da exceção?
Miceli – Da regra. Ele repete o padrão clássico de relacionamento entre a elite brasileira e o poder. Fernando Henrique é filho de um militar bem-sucedido na carreira. Nasceu numa família de elite para a qual o projeto de influir na política não era uma quimera, mas uma possibilidade concreta. Em sua trajetória acadêmica, essa intenção sempre foi perceptível. Desde muito cedo, por exemplo, ele teve participação importante no conselho da Universidade de São Paulo. Mais tarde, quando voltou do exílio, ele soube se reorientar de maneira rápida e atilada no cenário intelectual. Saiu da sociologia, que era um departamento dominado por uma figura de grande porte, Florestan Fernandes, e abriu uma nova corte na ciência política, um curso novo que contava com doações polpudas para iniciar seus trabalhos. Também o fato de ele ter participado da formação de um centro de pesquisas independentes, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é significativo. Fernando Henrique tornou-se uma espécie de empresário da área de pesquisa. Nesse papel, ampliou seu leque de contatos e alianças de maneira impensável para aqueles que se limitavam ao cotidiano acadêmico. Em outras palavras, ele sabia fazer política universitária, assim como soube usar a universidade para lançar-se no cenário mais amplo da política nacional.

Veja – O senhor acha que, como presidente, Fernando Henrique traiu seu passado intelectual?
Miceli – Usar a obra de Fernando Henrique para patrulhá-lo é uma tolice. FHC não traiu sua obra – não escreveu novos ensaios que desmentissem o que já estava pronto. O que aconteceu é que ele mudou de ramo. Virou político profissional. Deixou de ser um acadêmico, deixou de ser um intelectual. Ele não traiu. Ele abandonou. Mas continuou usando os adereços de sua formação acadêmica, como as citações em língua estrangeira. Ele instrumentalizou seu passado intelectual para incrementar sua imagem.

Veja – Existe alguma diferença entre Fernando Henrique citando Maquiavel num evento e ACM citando Voltaire em seu discurso de renúncia?
Miceli – Toda a diferença. Fernando Henrique não faz parte da velha tradição de bacharéis que desenterram bordões aleatoriamente para enfeitar suas falas. Ele não faz citações descontextualizadas. Usa bem os conceitos e os nomes. Em outras palavras, sabe manipular as expectativas do mundo intelectual, daqueles que eventualmente poderiam apanhá-lo em erro. Daí muito do seu charme.

Veja – Se FHC é um exemplo típico de intelectual fascinado pelo poder, poderia citar outros nomes?
Miceli – Como eu disse, a cooptação é um dado estrutural da vida intelectual no Brasil. A começar pelo Império. Naquela época, simplesmente não havia posições intelectuais autônomas em relação ao poder. Até mesmo as figuras de maior envergadura, como Joaquim Nabuco, não diferenciavam a produção intelectual da prestação de serviços políticos. Em troca, recebiam proteção do aparato estatal, assumindo uma sinecura sempre que o dinheiro encurtava.

Veja – O que aconteceu com a passagem para a República?
Miceli – O espaço cultural se tornou mais complexo. Surgiram novas posições para os intelectuais ocuparem. No início do século XX, por exemplo, a grande novidade foi o surgimento de jornais pujantes e das famosas revistas ilustradas. O dado curioso é que quase todas as posições de relevo nesse período foram ocupadas pelos primos pobres da elite, gente proveniente de famílias que estavam em declínio, mas que ainda tinham contato com pessoas influentes e cortejavam seus favores. Depois veio o período que estudei em Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil. Ele se estende de 1920 ao final da era Vargas, em 1945. Nele, três mercados se abriram para os intelectuais. Primeiro, um mercado controlado pelos mecenas da oligarquia. Todos os modernistas se renderam a ele de um jeito ou de outro. Depois, um mercado inaugurado nos anos 30, graças ao aumento na demanda por obras de ficção. Foi ocupado por romancistas como Rachel de Queiroz e José Lins do Rego. Eles conseguiram se profissionalizar e, embora muitas vezes tenham aceitado cargos e posições políticas, foram o mais próximo que tivemos de uma exceção à regra do clientelismo. Finalmente, quando o governo Vargas começou a investir pesado em cultura, surgiu o espaço para que se formasse uma verdadeira casta de intelectuais funcionários públicos.

Veja – Como era a relação entre os modernistas e a oligarquia?
Miceli – O modernismo é cantado em prosa e verso como inovador. E isso é verdade, em muitos sentidos, no que diz respeito à estética. Socialmente, contudo, ele tinha um viés conservador, independentemente do fato de as simpatias dos artistas irem para a esquerda ou a direita. A carreira de todos os grandes modernistas só é compreensível se você acompanhar as ligações deles com os partidos oligárquicos. Mário de Andrade e seu irmão, por exemplo. Eles eram ligados ao Partido Democrático, que agrupava membros progressistas, por assim dizer, da oligarquia. Toda a correspondência de Mário deixa clara sua atenção para os movimentos e facções partidários. Sua militância na crítica de arte e de música também deixa transparecer preocupações políticas. E não se pode esquecer que ele ocupou vários cargos burocráticos – certas dimensões de seu perfil como pensador da cultura só ganham sentido se levarmos em conta esse trabalho. O mesmo vale para intelectuais que se identificavam com a direita, como Cassiano Ricardo ou Menotti del Picchia. Também eles tiveram cargos na administração municipal nos anos 20 e depois, no Estado Novo, ocuparam espaços no governo federal.

Veja – No lançamento original de Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil, em 1979, algumas das passagens do livro que causaram mais polêmica tinham a ver com Carlos Drummond de Andrade. Poderia falar um pouco a respeito dele?
Miceli – Meu livro foi o primeiro a falar da ligação entre Drummond e a administração Vargas de maneira séria. O próprio poeta parece ter se espantado com essa abordagem, pois comentou o livro sem citar o título, de maneira meio enviesada, nas colunas que publicava na imprensa. Drummond certamente é um caso especial para quem quer refletir sobre as relações entre os intelectuais brasileiros e o Estado. Primeiro, claro, porque é um dos maiores poetas da história nacional. Em segundo lugar, porque não foi um funcionário público qualquer. Ele foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, quando esse desempenhava as funções de ministro da Educação no governo Vargas. Ou seja, Drummond ocupava um cargo de confiança, devia lealdade ao regime. É um personagem exemplar no que diz respeito aos mecanismos de cooptação da inteligência pelo Estado. No meu modo de ver, é impossível ler sua obra dos anos 40 sem levar em conta a passagem pelo ministério. Não quero dizer com isso que sua atividade política tenha determinado sua poesia. Mas quero dizer, sim, que o fato de ele ter sido um funcionário público foi causa de dilemas importantes que se refletem em seus textos. Ao contrário do que muita gente pensa, até as obras de maior gênio não surgem do nada, estão enraizadas em condições sociais bem definidas.

Veja – É possível conciliar vida política e verdadeiro engajamento na atividade intelectual?
Miceli – Não. Hoje em dia, é absolutamente impossível. No tempo de Joaquim Nabuco dava certo. Pense em suas obras mais importantes. Um Estadista do Império é uma biografia de seu pai. Seu segundo livro fundamental, Minha Formação, é de memórias. Ele usava sua vivência familiar como ponte para brilhantes análises políticas. Hoje, não dá mais para construir uma trajetória intelectual calcada em trabalhos desse tipo. Não dá para fazer carreira com as memórias de papai. É preciso fazer teses e ganhar títulos na universidade. É preciso um longo investimento. Não dá para jogar nos dois tabuleiros ao mesmo tempo.

Veja – O senhor acha que as relações entre os intelectuais e a imprensa hoje em dia são boas ou más?
Miceli – A situação é um tanto paradoxal. Os dois setores estão vinculados. Não há vida intelectual sem divulgação dos resultados – e essa divulgação quem pode fazer é a mídia. Por outro lado, o núcleo de produção intelectual mais pujante do presente se encontra na universidade – e a imprensa, em boa medida, depende do acesso a essas novidades para sobreviver. Ainda assim, os ressentimentos de parte a parte são grandes. Os intelectuais acham que são usados pelos jornalistas, que eles barateiam seu trabalho. A mídia reclama da timidez dos universitários – e há muito comodismo mesmo no ambiente intelectual. Não adianta ficar reclamando. É melhor reconhecer a necessidade de diálogo. Um setor simplesmente não tem, nem nunca terá, como viver sem o outro.

Veja – Há quem diga que o intelectual é uma figura em extinção. O senhor concorda com isso?
Miceli – Não, acho que é exatamente o contrário. Os intelectuais são os verdadeiros heróis do mundo contemporâneo. Num mundo em que o acesso à educação se amplia cada vez mais, no qual a massa de informação disponível cresce vertiginosamente e no qual a cultura se tornou um negócio próspero, uma carreira que não corre perigo de sofrer declínio é a carreira intelectual. Quem fala do declínio dos intelectuais normalmente está pensando em figuras como as dos franceses Sartre ou Foucault – as dos pensadores de obras de grande envergadura, que forneciam uma base sólida de onde alçar vôos para discussões em várias áreas, das mais eruditas às mais populares. A especialização no ambiente universitário barrou um pouco o surgimento desses personagens. Mas mesmo eles continuam a existir. Pense num Noam Chomsky nos Estados Unidos, num Jürgen Habermas na Alemanha. Mesmo no Brasil, gente como Marilena Chauí ou José Arthur Giannotti desempenha bem o papel do intelectual público.

Veja – Um ramo de atividade em franca expansão é o das obras de divulgação, em que conceitos especializados são trocados em miúdos para os leigos. Pessoas que se dedicam a esse tipo de trabalho deveriam ser contadas entre as hostes intelectuais?
Miceli – Na maioria dos casos, acho que não. Uma coisa é um intelectual elaborar seu estilo de exposição para atingir um público mais amplo. Outra coisa é você recorrer à diluição de conceitos, como faz, digamos, o italiano Domenico de Masi, o famoso "teórico do ócio", para citar alguém da minha área. Ele faz o que chamo de sociologia "blockbuster", para as massas. Atividade intelectual verdadeira é outra coisa.

 
 
   
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