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Sérgio
Abranches
Bom
governo
não tem crise
"Um
país cujo governo tem visões
diferentes da ortodoxia dominante
pode sair-se bem,desde que respeite
os fundamentos"
Ilustração Ale Setti
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Recentemente,
o ministro da Economia da França, Laurent Fabius, que já considerou
déficit fiscal um conceito burguês, anunciou que seu país
precisa de um ajuste fiscal e que a esquerda será derrotada se não
reduzir o peso dos impostos. O economista socialista chileno José
Antonio Viera-Gallo foi em socorro de Domingo Cavallo, dizendo que a Argentina
não resiste com déficit fiscal. Ex-colaborador de Salvador
Allende, diz que a Argentina deve mirar-se no exemplo da Concertación
chilena (coligação de esquerda que uma vez no poder manteve
boa parte da política econômica de Pinochet) e fazer um acordo
pelo equilíbrio fiscal.
Que força poderosa converte socialistas em ardorosos defensores
da ortodoxia fiscal? É uma lógica simples. Não existe
um gênio que seja capaz de dominar, com profundidade, informações
sobre o Tadjiquistão, a China, o Brasil e a Argentina ao mesmo
tempo. O modelo mais simples que os gestores de fundos globais podem manejar
com simplicidade, na linguagem que dominam, é o de avaliação
de empresas. Cada país é examinado como se fosse uma empresa,
em quatro dimensões básicas: fundamentos contábeis,
governança, marca e mercado. Por isso, o presidente mexicano Vicente
Fox causou tão boa impressão ao dizer que queria presidir
a empresa "México S.A.".
Os fundamentos macroeconômicos determinam o risco, a taxa de juros
e quando os investidores devem abandonar o país. Eles avaliam a
capacidade de pagamento do país para garantir o retorno do investimento.
Essa capacidade é medida pelas relações receita-despesa
e dívida-produto, que permitem saber se há solvência
de longo prazo e oportunidade continuada de lucros.
Governança se tornou fundamental nas empresas e nos países.
Nenhum financiador tem preferências democráticas. Vota pelo
modelo de governança que lhe garanta maior segurança de
lucros de longo prazo e bom desempenho cotidiano. O encantamento com Pinochet
e com a China são exemplos claros disso.
Marca é reputação e credibilidade. Mercado tem a
ver com o potencial externo e doméstico de alimentar a máquina
de lucros: volume de investimento, demanda, capacidade de exportação,
balança comercial.
A mobilidade conquistada pelos capitais faz com que qualquer país
seja vulnerável à sua saída em bando. Se o ambiente
se torna adverso, a nova tecnologia de informação e comunicação
lhes permite empacotar suas máquinas, sacar seus fundos e deixar
para trás galpões e cofres vazios. O mau desempenho provoca
a "fuga de capitais", o "vôo para a qualidade".
Pressionados por essa lógica simples do "dever de casa", muitos
governos se tornam prisioneiros de uma ciranda de ajustes ortodoxos, para
agradar aos financiadores, e acabam derrotados. O economista Paul Krugman
alerta que nem sempre o ajuste é o remédio. E tem razão.
Uma boa empresa não tem um futuro promissor se vive do repetido
enxugamento. Acaba morrendo à míngua. O mesmo acontece com
as economias nacionais. O ajuste pelo ajuste não garante o sucesso.
Um "bom balanço", conseguido à custa da anorexia econômica,
é um tiro no pé, no mercado futuro. Dá resultado
por um período, mas logo começam a se acender as luzes vermelhas
do risco de um mergulho na recessão crônica. É o que
está acontecendo com a Argentina.
Melhor é ter visão prática e uma estratégia
de desenvolvimento. Um país cujo governo tem visões diferentes
da ortodoxia dominante pode sair-se bem, desde que respeite os fundamentos.
Eles nada têm de absurdo. Déficit fiscal é um erro.
Inflação é um flagelo. Excesso de endividamento,
comprometendo as gerações futuras, é uma insensatez.
A chave do bom desempenho continuado é o ajuste de qualidade, associado
a objetivos estratégicos de progresso sustentado. Não porque
os investidores sejam bonzinhos, mas porque só a oportunidade de
mais lucro futuro os faz ficar numa economia. Se não, garimpam
o que podem e zarpam para outras áreas, sem se preocupar com o
estrago causado pela saída em manada. Certo mesmo é fazer
um bom governo, voltado para a satisfação da sociedade,
mantendo boa governança para produzir boas políticas públicas.
Se for assim, o governo consegue financiamento, independentemente de ser
socialista ou neoliberal.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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