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Edição 1 710 - 25 de julho de 2001
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Sérgio Abranches

Bom governo
não tem crise

"Um país cujo governo tem visões
diferentes da ortodoxia dominante
pode sair-se bem,desde que respeite
os fundamentos"


Ilustração Ale Setti

Recentemente, o ministro da Economia da França, Laurent Fabius, que já considerou déficit fiscal um conceito burguês, anunciou que seu país precisa de um ajuste fiscal e que a esquerda será derrotada se não reduzir o peso dos impostos. O economista socialista chileno José Antonio Viera-Gallo foi em socorro de Domingo Cavallo, dizendo que a Argentina não resiste com déficit fiscal. Ex-colaborador de Salvador Allende, diz que a Argentina deve mirar-se no exemplo da Concertación chilena (coligação de esquerda que uma vez no poder manteve boa parte da política econômica de Pinochet) e fazer um acordo pelo equilíbrio fiscal.

Que força poderosa converte socialistas em ardorosos defensores da ortodoxia fiscal? É uma lógica simples. Não existe um gênio que seja capaz de dominar, com profundidade, informações sobre o Tadjiquistão, a China, o Brasil e a Argentina ao mesmo tempo. O modelo mais simples que os gestores de fundos globais podem manejar com simplicidade, na linguagem que dominam, é o de avaliação de empresas. Cada país é examinado como se fosse uma empresa, em quatro dimensões básicas: fundamentos contábeis, governança, marca e mercado. Por isso, o presidente mexicano Vicente Fox causou tão boa impressão ao dizer que queria presidir a empresa "México S.A.".

Os fundamentos macroeconômicos determinam o risco, a taxa de juros e quando os investidores devem abandonar o país. Eles avaliam a capacidade de pagamento do país para garantir o retorno do investimento. Essa capacidade é medida pelas relações receita-despesa e dívida-produto, que permitem saber se há solvência de longo prazo e oportunidade continuada de lucros.

Governança se tornou fundamental nas empresas e nos países. Nenhum financiador tem preferências democráticas. Vota pelo modelo de governança que lhe garanta maior segurança de lucros de longo prazo e bom desempenho cotidiano. O encantamento com Pinochet e com a China são exemplos claros disso.

Marca é reputação e credibilidade. Mercado tem a ver com o potencial externo e doméstico de alimentar a máquina de lucros: volume de investimento, demanda, capacidade de exportação, balança comercial.

A mobilidade conquistada pelos capitais faz com que qualquer país seja vulnerável à sua saída em bando. Se o ambiente se torna adverso, a nova tecnologia de informação e comunicação lhes permite empacotar suas máquinas, sacar seus fundos e deixar para trás galpões e cofres vazios. O mau desempenho provoca a "fuga de capitais", o "vôo para a qualidade".

Pressionados por essa lógica simples do "dever de casa", muitos governos se tornam prisioneiros de uma ciranda de ajustes ortodoxos, para agradar aos financiadores, e acabam derrotados. O economista Paul Krugman alerta que nem sempre o ajuste é o remédio. E tem razão. Uma boa empresa não tem um futuro promissor se vive do repetido enxugamento. Acaba morrendo à míngua. O mesmo acontece com as economias nacionais. O ajuste pelo ajuste não garante o sucesso. Um "bom balanço", conseguido à custa da anorexia econômica, é um tiro no pé, no mercado futuro. Dá resultado por um período, mas logo começam a se acender as luzes vermelhas do risco de um mergulho na recessão crônica. É o que está acontecendo com a Argentina.

Melhor é ter visão prática e uma estratégia de desenvolvimento. Um país cujo governo tem visões diferentes da ortodoxia dominante pode sair-se bem, desde que respeite os fundamentos. Eles nada têm de absurdo. Déficit fiscal é um erro. Inflação é um flagelo. Excesso de endividamento, comprometendo as gerações futuras, é uma insensatez.

A chave do bom desempenho continuado é o ajuste de qualidade, associado a objetivos estratégicos de progresso sustentado. Não porque os investidores sejam bonzinhos, mas porque só a oportunidade de mais lucro futuro os faz ficar numa economia. Se não, garimpam o que podem e zarpam para outras áreas, sem se preocupar com o estrago causado pela saída em manada. Certo mesmo é fazer um bom governo, voltado para a satisfação da sociedade, mantendo boa governança para produzir boas políticas públicas. Se for assim, o governo consegue financiamento, independentemente de ser socialista ou neoliberal.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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