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| Todos os outros terão de cortar gastos
para chegar até o euro, em 1999, e isso num momento em
que o eleitor europeu está preocupado com o seu emprego
ou com o seu salário-desemprego e nem quer ouvir falar
em perder um pouco de seus benefícios sociais. Na
Inglaterra, a política de contenção de gastos e de
privatização cansou. Os conservadores ficaram por
dezoito anos no poder. No mês passado, o
primeiro-ministro John Major foi substituído pelo
trabalhista Tony Blair. O novo chefe avisou que não vai
mudar muita coisa e deu liberdade para que o banco da
Inglaterra fixe livremente a taxa de juros. Ou seja,
tenha liberdade para conter os excessos gastadores do
governo. Em todo o caso, foi sinal de que o eleitor
inglês quer uma folga. O outro sinal político importante veio da França. Lá, o presidente Jacques Chirac, conservador, prometeu croissant com mel nas eleições de 1995. Chirac disse que iria combater o desemprego, aumentar salários e cortar gastos públicos. São políticas incompatíveis, especialmente na França, onde seis de cada dez empregos criados são oferecidos por empresas ou órgãos do governo. Mas os franceses engoliram a mistura e elegeram Chirac. Até o artista do circo sabe que não dá para manter as três laranjas no ar ao mesmo tempo. Como Chirac não conseguiu, foi punido pelo eleitor e precisou aceitar um primeiro-ministro socialista, Lionel Jospin, a partir das eleições de quatro semanas atrás. Agora é Jospin quem promete o malabarismo que desafia a lei da gravidade econômica. Diz que vai criar 700.000 empregos na França -- metade no setor público -- e que construirá 100.000 casas populares. Deu um aumento real de 4% para o salário mínimo e suspendeu a privatização da ferrovia, da Air France e da France Télécom, estatal de telefonia. Até aí, tudo bem. Só que Jospin prometeu também, assim como Chirac, reduzir os gastos públicos. Mel com croissant, pela segunda vez em dois anos. O próprio Kohl, o alemão defensor do euro, vai enfrentar resistência em casa se quiser diminuir as despesas do governo. Elas são altas. Todo ano, 5% do PIB alemão é gasto para sustentar trabalhadores da antiga Alemanha Oriental. O dinheiro vai para salário-desemprego, modernização de cidades e para fábricas ineficientes que só não são fechadas para não aumentar o exército de desempregados alemães. Se adotar uma política de austeridade como exige a implantação do euro, Kohl desagradará aos eleitores -- e isso político nenhum gosta de fazer. Se aceitar concessões e relaxar os critérios financeiros da União Européia, deixará os alemães desconfiados na hora de trocar o seu respeitável marco por uma moeda feita de qualquer jeito e, portanto, com chances de afundar. Kohl está num beco de saída muito apertada. Os quinze países da União Européia se juntaram para derrubar tarifas alfandegárias e, com isso, reduzir os preços internos da Europa. As conversas começaram em 1951. Hoje já não existem barreiras na alfândega. Restava abolir a barreira cambial. A moeda única, em tese, também barateará enormemente o custo das transações na Europa. Era essa a idéia do euro, que está colidindo com a dificuldade política gerada pelo desemprego. A União Européia forma um grupo riquíssimo, com PIB de quase 7 trilhões de dólares, mercado consumidor de 370 milhões de pessoas, renda per capita de 33.000 dólares. A vida é mansa. Na Alemanha, entre outros benefícios, o governo paga um ótimo salário-família. O francês desempregado, assim como o inglês, recebe entre 50% e 70% do salário. Um belga sem emprego recebe até 600 dólares do governo por mês. Ninguém tem medo do hospital público e dá para colocar o filho na escola estadual. Os brasileiros, na letra da lei, também têm hospital e escola de graça, salário-família e até salário-desemprego. Mas os valores são baixos e os serviços, da pior qualidade. Esse sistema de benesses foi criado depois da II Guerra para aplacar tensões sociais e atrapalhar os partidos socialistas. A política foi orientada por Washington, que mandava dinheiro para a reconstrução da Europa pelo Plano Marshall. Agora, como na dialética socialista, o estado do bem-estar social encontrou a sua própria contradição. O modelo não agüenta mais. O trabalhador ficou caro. Por isso, as empresas européias não contratam e, sempre que podem, demitem. O emprego europeu está sendo exportado para China, México, Coréia, Brasil. A Renault francesa fechou sua fábrica de automóveis na Bélgica e demitiu 3.000 pessoas. Uma fábrica Renault vai ser aberta no Paraná, dando emprego a 2000 brasileiros. Na Alemanha, os trabalhadores da indústria de aço foram às ruas quando as duas maiores concorrentes se fundiram numa única empresa e anunciaram a extinção de 10.000 postos de trabalho. Foi a maneira que encontraram para melhorar o preço do aço e não perder clientes, quem sabe, para a CSN e a Usiminas. O orgulhoso grupo dos países europeus está perdendo competitividade -- e não é só para países como China, Brasil e México, que pagam muito pouco para seus trabalhadores. Está perdendo terreno rapidamente para os americanos. A economia americana tomou uma trombada dos japoneses na década de 80 e se transformou. Nesse processo, milhões foram para a rua. Os Estados Unidos saíram de sua recessão purgativa há pouco tempo e em 1997 sua economia deve crescer 5%, contra a média de 1,8%, mantida na Europa desde o início da década. Mais importante, a taxa de desemprego nos EUA é de apenas 4,8%, a menor do pós-guerra. Na Europa, o desemprego saltou de 5,7% em 1979 para os 11% atuais. Daria para reverter esse cenário ruim com uma reconstrução da competitividade européia. Mas isso exigiria uma redução dos elementos que inibem a produção, como os impostos elevados, os regulamentos estatais para a economia, as regras férreas para o mercado de trabalho e os gastos excessivos do Estado com a seguridade social. O difícil é convencer a população que vive no bem-bom desde os anos 60. Copyright © 1997, Abril S.A. |