O velho mundo no
dilema da nova moeda

A União Européia quer fazer o milagre da
multiplicação dos empregos com austeridade fiscal

Antenor Nascimento Neto e João Sorima Neto

Os brasileiros podem pensar que assuntos econômicos europeus são aborrecidos e distantes, mas esse é fora do comum. Mostra uma séria desarrumação no Velho Mundo, que afinal sempre foi o paradigma do que há de melhor. Os presidentes e primeiros-ministros dos quinze países que formam a União Européia se reuniram na semana passada em Amsterdã, Holanda, para discutir uma questão que está tirando o sono europeu. Dentro de dois anos, por um acordo entre esses países, a Europa terá uma moeda única, o euro. Plasticamente, ela é muito bonita e original. Terá, de um lado, um mesmo desenho para todos os países e, do outro, os símbolos nacionais que cada membro da comunidade escolher para a moeda que for cunhada em seu território. Foi desenhada por Luc Luycx, funcionário da Casa da Moeda da Bélgica, e apresentada ao público pela primeira vez na segunda-feira. Pelo acordo que criou o euro, firmado na cidade holandesa de Maastricht em 1991, ele conviverá durante quatro anos com as moedas nacionais, como a libra esterlina, o franco e o marco. Em 2002, essas moedas desaparecem e o euro ficará como a unidade monetária única do continente. Seria o arremate da histórica unificação da Europa, um território que foi retalhado por séculos de desavenças e está-se transformando numa espécie de país único -- um mesmo território econômico, sem alfândegas internas, com um só passaporte e a sua moeda continental.

Nessa última reunião da Holanda já não havia tanta certeza de que as coisas sairão assim. O primeiro-ministro francês, o socialista Lionel Jospin, não estava disposto a ratificar o Tratado de Maastricht sem antes discutir formas de combater o desemprego em seu país e na Europa. Ele se elegeu com essa bandeira no final do mês passado e sua opinião, de que é preciso arrumar emprego para os europeus antes de adotar a moeda única, é também a opinião de todos os sindicatos, dos servidores públicos e, provavelmente, dos europeus de maneira geral. "Nossa prioridade não é a moeda única", avisou Jospin, no encontro.

O mais sólido defensor do euro é o primeiro-ministro alemão, Helmut Kohl, democrata-cristão que está há quinze anos no poder e enfrentará eleições no ano que vem. Foi um dos inventores do euro e usa a moeda única como plataforma política. Conseguiu com que os franceses ratificassem Maastricht e a reunião terminou de maneira cordata. Os quinze estadistas ganharam bicicletas do governo holandês, símbolo da planura do país, mas assinaram um documento decepcionante. O papel faz menção à pesca, ao bem-estar dos animais e até ao esporte. Os problemas importantes, como soluções para o desemprego, o fraco desempenho econômico europeu e o estouro das contas nacionais, foram empurrados com a barriga.

A Europa, hoje, é isso. Tem belas paisagens e monumentos, estradas sem buraco, o melhor vinho do mundo. Nada se compara ao padrão de vida de sua população. Esse paraíso está ameaçado por um impasse econômico do qual não se sai sem perder um bom pedaço de conforto. O desemprego é o problema número 1. De cada dez pessoas com idade para trabalhar, uma está de braços cruzados. Há 18 milhões de pessoas sem trabalho. Desse problema, passa-se para a questão número 2. Ser desempregado em um dos quinze países da comunidade européia não é a mesma coisa que não ter emprego no ABC paulista. O sem-emprego europeu ganha salário do Estado. Se quebra a perna, vai para um hospital com lençóis limpos, onde não falta seringa. Quem paga é o governo.

É uma política muito justa, a que todos deveriam ter acesso. Mas ela -- como tudo em economia -- tem preço. O orçamento da maioria dos países da União Européia está estourado. A dívida pública, em alguns casos, é maior do que a produção bruta de um ano inteiro. Os casos mais dramáticos são os da Bélgica, que deve 130% do PIB, e da Itália, com 124%. Não é um fato circunstancial. Esses buracos vêm aumentando ano a ano, há muitos anos, para financiar a política de bem-estar social. São financiados por juros baixos. Mas bons administradores de finanças públicas sabem que esse recurso não pode ser usado para sempre. É como se diz no selvagem capitalismo americano: em economia, não existe almoço grátis.

Foi nesse ponto que o tratado da moeda única enfrentou resistências. Para que o euro seja uma moeda estável, o pacto de Maastricht ordena que os países reduzam seu déficit público para 3% do PIB. A dívida pública não pode ser maior do que 60% do PIB. A inflação de um país só pode ultrapassar 1,5 ponto da média dos três países com menor inflação. No momento, só Luxemburgo, um grão-ducado que tem 400.000 habitantes e faz fronteira com França, Bélgica e Alemanha, está com os números acertados.

  Todos os outros terão de cortar gastos para chegar até o euro, em 1999, e isso num momento em que o eleitor europeu está preocupado com o seu emprego ou com o seu salário-desemprego e nem quer ouvir falar em perder um pouco de seus benefícios sociais. Na Inglaterra, a política de contenção de gastos e de privatização cansou. Os conservadores ficaram por dezoito anos no poder. No mês passado, o primeiro-ministro John Major foi substituído pelo trabalhista Tony Blair. O novo chefe avisou que não vai mudar muita coisa e deu liberdade para que o banco da Inglaterra fixe livremente a taxa de juros. Ou seja, tenha liberdade para conter os excessos gastadores do governo. Em todo o caso, foi sinal de que o eleitor inglês quer uma folga.

O outro sinal político importante veio da França. Lá, o presidente Jacques Chirac, conservador, prometeu croissant com mel nas eleições de 1995. Chirac disse que iria combater o desemprego, aumentar salários e cortar gastos públicos. São políticas incompatíveis, especialmente na França, onde seis de cada dez empregos criados são oferecidos por empresas ou órgãos do governo. Mas os franceses engoliram a mistura e elegeram Chirac. Até o artista do circo sabe que não dá para manter as três laranjas no ar ao mesmo tempo. Como Chirac não conseguiu, foi punido pelo eleitor e precisou aceitar um primeiro-ministro socialista, Lionel Jospin, a partir das eleições de quatro semanas atrás. Agora é Jospin quem promete o malabarismo que desafia a lei da gravidade econômica. Diz que vai criar 700.000 empregos na França -- metade no setor público -- e que construirá 100.000 casas populares. Deu um aumento real de 4% para o salário mínimo e suspendeu a privatização da ferrovia, da Air France e da France Télécom, estatal de telefonia. Até aí, tudo bem. Só que Jospin prometeu também, assim como Chirac, reduzir os gastos públicos. Mel com croissant, pela segunda vez em dois anos.

O próprio Kohl, o alemão defensor do euro, vai enfrentar resistência em casa se quiser diminuir as despesas do governo. Elas são altas. Todo ano, 5% do PIB alemão é gasto para sustentar trabalhadores da antiga Alemanha Oriental. O dinheiro vai para salário-desemprego, modernização de cidades e para fábricas ineficientes que só não são fechadas para não aumentar o exército de desempregados alemães. Se adotar uma política de austeridade como exige a implantação do euro, Kohl desagradará aos eleitores -- e isso político nenhum gosta de fazer. Se aceitar concessões e relaxar os critérios financeiros da União Européia, deixará os alemães desconfiados na hora de trocar o seu respeitável marco por uma moeda feita de qualquer jeito e, portanto, com chances de afundar. Kohl está num beco de saída muito apertada.

Os quinze países da União Européia se juntaram para derrubar tarifas alfandegárias e, com isso, reduzir os preços internos da Europa. As conversas começaram em 1951. Hoje já não existem barreiras na alfândega. Restava abolir a barreira cambial. A moeda única, em tese, também barateará enormemente o custo das transações na Europa. Era essa a idéia do euro, que está colidindo com a dificuldade política gerada pelo desemprego. A União Européia forma um grupo riquíssimo, com PIB de quase 7 trilhões de dólares, mercado consumidor de 370 milhões de pessoas, renda per capita de 33.000 dólares. A vida é mansa. Na Alemanha, entre outros benefícios, o governo paga um ótimo salário-família. O francês desempregado, assim como o inglês, recebe entre 50% e 70% do salário. Um belga sem emprego recebe até 600 dólares do governo por mês. Ninguém tem medo do hospital público e dá para colocar o filho na escola estadual. Os brasileiros, na letra da lei, também têm hospital e escola de graça, salário-família e até salário-desemprego. Mas os valores são baixos e os serviços, da pior qualidade.

Esse sistema de benesses foi criado depois da II Guerra para aplacar tensões sociais e atrapalhar os partidos socialistas. A política foi orientada por Washington, que mandava dinheiro para a reconstrução da Europa pelo Plano Marshall. Agora, como na dialética socialista, o estado do bem-estar social encontrou a sua própria contradição. O modelo não agüenta mais. O trabalhador ficou caro. Por isso, as empresas européias não contratam e, sempre que podem, demitem. O emprego europeu está sendo exportado para China, México, Coréia, Brasil. A Renault francesa fechou sua fábrica de automóveis na Bélgica e demitiu 3.000 pessoas. Uma fábrica Renault vai ser aberta no Paraná, dando emprego a 2000 brasileiros. Na Alemanha, os trabalhadores da indústria de aço foram às ruas quando as duas maiores concorrentes se fundiram numa única empresa e anunciaram a extinção de 10.000 postos de trabalho. Foi a maneira que encontraram para melhorar o preço do aço e não perder clientes, quem sabe, para a CSN e a Usiminas.

O orgulhoso grupo dos países europeus está perdendo competitividade -- e não é só para países como China, Brasil e México, que pagam muito pouco para seus trabalhadores. Está perdendo terreno rapidamente para os americanos. A economia americana tomou uma trombada dos japoneses na década de 80 e se transformou. Nesse processo, milhões foram para a rua. Os Estados Unidos saíram de sua recessão purgativa há pouco tempo e em 1997 sua economia deve crescer 5%, contra a média de 1,8%, mantida na Europa desde o início da década. Mais importante, a taxa de desemprego nos EUA é de apenas 4,8%, a menor do pós-guerra. Na Europa, o desemprego saltou de 5,7% em 1979 para os 11% atuais. Daria para reverter esse cenário ruim com uma reconstrução da competitividade européia. Mas isso exigiria uma redução dos elementos que inibem a produção, como os impostos elevados, os regulamentos estatais para a economia, as regras férreas para o mercado de trabalho e os gastos excessivos do Estado com a seguridade social. O difícil é convencer a população que vive no bem-bom desde os anos 60.

Copyright © 1997, Abril S.A.